DOIS PIONEIROS DA COMUNICAO NO RIO
               GRANDE DO SUL
               OSWALDO GOIDANICH
            ROBERTO EDUARDO XAVIER




 COLEO NUPECC  VOLUME 1 - NCLEO DE PESQUISAS EM
           COMUNICAO  FAMECOS/PUCRS
                        2008
Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul

                    Chanceler:
                Dom Dadeus Grings

                      Reitor:
                   Joaquim Clotet

                    Vice-Reitor:
                  Evilzio Teixeira

                Conselho Editorial:
         Alice Therezinha Campos Moreira
             Ana Maria Tramunt Ibaos
              Antnio Carlos Hohlfeldt
             Draiton Gonzaga de Souza
             Francisco Ricardo Rdiger
             Gilberto Keller de Andrade
              Jaderson Costa da Costa
           Jernimo Carlos Santos Braga
              Jorge Campos da Costa
       Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente)
          Jos Antnio Poli de Figueiredo
                 Lauro Kopper Filho
                Maria Eunice Moreira
          Maria Helena Menna B. Abraho
                Maria Waleska Cruz
             Ney Laert Vilar Calazans
                 Ren Ernaini Gertz
              Ricardo Timm de Souza
              Ruth Maria Chitt Gauer

                    EDIPUCRS:
      Jernimo Carlos Santos Braga  Diretor
       Jorge Campos da Costa  Editor-chefe
               ANTONIO HOHLFELDT
            RAFAEL ROSINATO VALLES




DOIS PIONEIROS DA COMUNICAO NO RIO
               GRANDE DO SUL
               OSWALDO GOIDANICH
            ROBERTO EDUARDO XAVIER




 COLEO NUPECC  VOLUME 1 - NCLEO DE PESQUISAS EM
           COMUNICAO  FAMECOS/PUCRS
                        2008




                   PORTO ALEGRE
                        2008
 EDIPUCRS, 2008

Capa: Vincius de Almeida Xavier

Imagem retirada do Acervo do NUPECC

Diagramao: Gabriela Viale Pereira e Josianni dos Santos Nunes

Reviso Lingstica: Daniela Origem e Grasielly Hanke Angeli



         Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)


     H719d    Hohlfeldt, Antonio
                 Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul :
             Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier [recurso
             eletrnico] / Antonio Hohlfeldt, Rafael Rosinato Valles.  Porto
             Alegre : EDIPUCRS, 2008.
                 131 p.  (Coleo NUPECC ; 1)

                Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader
                Modo de Acesso: World Wide Web:
             <http://www.pucrs.br/orgaos/edipucrs/>
                ISBN 978-85-7430-754-1 (on-line)

                 1. Comunicao Social  Rio Grande do Sul  Histria.
             2. Acervo Literrio Oswaldo Goidanich. 3. Acervo Literrio
             Roberto Eduardo Xavier. I. Valles, Rafael Rosinato. II. Ttulo.

                                                  CDD 079.81

                        Ficha Catalogrfica elaborada pelo
                 Setor de Tratamento da Informao da BC-PUCRS




                         Av. Ipiranga, 6681 - Prdio 33
                               Caixa Postal 1429
                     90619-900 Porto Alegre, RS - BRASIL
                           Fone/Fax: (51) 3320-3523
                           E-mail: edipucrs@pucrs.br
                          http://www.pucrs.br/edipucrs
                                                SUMRIO


APRESENTAO ................................................................................................. 7


OSWALDO GOIDANICH....................................................................................... 9


1 OSWALDO GOIDANICH E A FAMLIA............................................................... 9


2 OSWALDO GOIDANICH E O TURISMO.......................................................... 15
A) O Touring e Oswaldo Goidanich.................................................................. 18
B) Servio Estadual de Turismo (SETUR)........................................................ 23
C) Binio da Colonizao e Imigrao ............................................................. 29
D) Oswaldo Goidanich e a EMBRATUR ........................................................... 36


3. OSWALDO GOIDANICH E O JORNALISMO .................................................. 39
A) O Correio do Povo e Oswaldo Goidanich ................................................... 42
B) Um novo desafio velho ................................................................................. 43
C) O "Caderno de Sbado" ............................................................................... 46
D) O fim de uma era ........................................................................................... 50


4. OSWALDO GOIDANICH E SUA RELAO COM AS ARTES........................ 55
A) A Associao Francisco Lisba .................................................................. 56
B) Oswaldo Goidanich e a Orquestra Sinfnica de Porto Alegre (OSPA)..... 60


ROBERTO EDUARDO XAVIER.......................................................................... 70


1 ROBERTO EDUARDO XAVIER E A FAMLIA.................................................. 70
A) A vinda para Porto Alegre ............................................................................ 71
B) Roberto Eduardo Xavier e F Emma ........................................................... 72
C) Um duro golpe para Xavier........................................................................... 73


2 ROBERTO EDUARDO XAVIER E O JORNALISMO........................................ 75
A) Roberto Eduardo Xavier e a imprensa ........................................................ 75
B) Roberto Eduardo Xavier e o rdio ............................................................... 89


3. ROBERTO EDUARDO XAVIER E SUA RELAO COM PUBLICIDADE E
RELAES PBLICAS....................................................................................... 94
A) O ingresso de Xavier em relaes pblicas ............................................... 99
B) A legislao da atividade publicitria........................................................ 108


4. ROBERTO EDUARDO XAVIER E O TURISMO............................................ 111
A) Secretaria de Turismo................................................................................. 113
B) O Secretrio de Turismo Roberto Eduardo Xavier................................... 114
C) Realizaes da Secretaria de Turismo entre 1973-1975 .......................... 117
D) A gesto de Xavier no contexto turstico do Estado................................ 122


5. ROBERTO EDUARDO XAVIER E O MEIO AMBIENTE................................ 125
A) Xavier e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente.................................. 126


REFERNCIAS ................................................................................................. 129
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



                                   APRESENTAO


       Quando assumi, em 1999, a Coordenao do Programa de Ps-
Graduao em Comunicao Social, descobri que estavam depositados, h
praticamente vinte anos, naquela Faculdade, os arquivos pessoais de Oswaldo
Goidanich e Roberto Eduardo Xavier.
       A ambos eu conhecera pessoalmente. Com Goidanich, convivi ao longo de
muitos anos, na redao do Correio do Povo. Com Roberto Eduardo Xavier, tive
excelente relao, ainda que  distncia, especialmente no binio de 1974-1975,
quando trabalhei na Rdio Canad Internacional, em Montreal, Canad, e Xavier,
exercendo funo pblica, acompanhou-me e me incentivou muito de perto.
       Tomando como modelo a organizao que o Programa de Ps-Graduao
em Letras assumira, em relao a seus arquivos, reorganizei o NUPECC 
Ncleo de Pesquisas em Comunicao, idealizado por Iara Bendatti e, com o
auxlio de alunos de iniciao cientfica, passamos a examinar, limpar, catalogar e
organizar o material daqueles acervos. No incio, era a cabine de projeo
cinematogrfica do auditrio da FAMECOS. Embora usando luvas e filtros para o
nariz, alguns alunos no conseguiram levar o projeto adiante. Outros, menos
sensveis aos problemas naturais do papel guardado ao longo de anos,
enfrentaram a tarefa. Aos poucos, os acervos foram sendo organizados.
       Mais recentemente, um dos alunos, Rafael Rosinato Valles assumiu o
desafio de criar um texto a partir do material disponvel nos acervos. O resultado
desse esforo est neste livro, o primeiro de uma srie de publicaes que
pretendemos divulgar, a partir dos trabalhos do NUPECC.
       Abordamos aqui dois pioneiros, sob todos os aspectos, dois pioneiros que
foram contemporneos e que exerceram comumente, para alm de outras
atividades, a do jornalismo. Oswaldo Goidanich desenvolveu atividades pioneiras
no turismo e participou de algumas iniciativas da vanguarda no jornalismo cultural
do Rio Grande do Sul, atravs do Correio do Povo.
       Roberto Eduardo Xavier participou da formalizao das atividades
tursticas do estado, ao mesmo tempo em que foi um pioneiro nos campos da
publicidade e das relaes pblicas, sem jamais ter-se distanciado do jornalismo,
onde se iniciou.


                                                                                                7
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


       Lendo a respeito de ambos, recuperamos, ao mesmo tempo, histrias do
pioneirismo do Rio Grande do Sul em diferentes atividades, como o turismo, o
meio ambiente, o jornalismo, a publicidade e as relaes pblicas.
       O que aqui se escreveu partiu exclusivamente dos documentos
disponibilizados pelos acervos entregues ao NUPECC pelas respectivas famlias,
a quem muito agradecemos pela confiana e a pacincia de, ao longo de tantos
anos, aguardarem que alguma conseqncia adviesse daquela entrega. Parte
desses documentos, alis, ilustra esta publicao. Isto significa, de qualquer
maneira, que no imaginamos ter-se produzido aqui nenhum documento
definitivo. Para os curiosos,  um primeiro contacto com histrias que, em sendo
histrias pessoais, so tambm a histria de boa parte do desenvolvimento do
nosso estado, pelo reflexo que tais atividades tiveram em nosso panorama
cultural.
       A funo do NUPECC  exatamente esta: ser um lugar de guarda de
documentos e, ao mesmo tempo, de difuso de informao e de possibilidade de
(re)avaliao das aes de profissionais vinculados ao campo da Comunicao
Social, to amplo e to diverso como fica evidente atravs dessas duas
narrativas. Mais pesquisas surgiro, a partir destas ou por causa delas. O que
pretendemos, to somente,  chamar a ateno para dois profissionais que, alm
do mais, direta ou indiretamente, estiveram ligados  FAMECOS e que se
tornaram, sem sombra de dvida, referenciais e modelos para os nossos jovens
estudantes e futuros profissionais.
       A opo pela forma do e-book se deveu  vontade de tornar o mais
possvel abrangente a disponibilidade de tais acervos, o que este novo suporte
permite. A todos os que se interessarem por este tipo de pesquisa, informamos
que os acervos esto disponveis e, gradualmente, no mbito do Projeto
DELFOS, coordenado pelo Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, estaro sendo
publicizados para pesquisa por todo e qualquer interessado.
       Boa leitura... e excelente aprendizado sobre nossos pioneiros.......


                                                       Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt
                                                        Coordenador do NUPECC




8
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



                              OSWALDO GOIDANICH


1. OSWALDO GOIDANICH E A FAMLIA


       A data era 3 de agosto de 1994. Oswaldo Goidanich teve de ir ao Festival
de Cinema de Gramado e, por isso, no pode comparecer  festa de despedida
que a famlia Goidanich oferecia a Roberto Hoffman Goidanich, seu sobrinho-
neto, filho de Flvio Goidanich e de Marlene Hoffman Goidanich. Logo em
seguida Roberto embarcaria num avio rumo a Nova York, onde exerceria a
funo de diplomata.
       Para suprir a sua ausncia, Oswaldo Goidanich fez aquilo que pode se
considerar uma das suas mais notveis contribuies  famlia: escreveu um
texto de quatro pginas em que expe a histria de quatro geraes dos
Goidanich ao longo de dois sculos:

                         Pelos meados do sculo passado, nasceu na Ilha Luci Piccola,
                         prxima a Fiume, teu tatarav, Luciano Goidanich. A Isola Luci
                         Piccola  uma destas dezenas de prolas que se engastam no
                         diadema azul do Adritico. Pertencia ento a Trieste e era parte
                         do imenso imprio de Francisco Jos, o Franz Joseph, at hoje
                         recordado com saudade. Luciano, pois, veio ao mundo como
                         cidado austro-hngaro (...). Luciano fugiu de casa aos treze
                         anos. Nos seus sonhos de menino, buscava o horizonte de uma
                         vida melhor. Embarcou na aventura, ou mais precisamente, em
                         um navio mercante. E se fez marinheiro, trocando a terra pelo
                         mar. (...). Luciano Goidanich chegou ao Brasil muito moo, quase
                         um adolescente, sem passaporte, sem um documento sequer
                         (...). Casou com uma jovem aoriana  Francisca Medeiros  a
                         "v" Chiquinha. E quando tiveram o primeiro e nico filho, meu
                         pai e teu bisav Quintino, mudaram-se para Porto Alegre.
                         Luciano foi ser chacareiro, num pequeno stio por ele arrendado
                         e que ficava onde hoje  a Azenha. Ele se levantava antes do sol
                         nascer para colher os legumes e as verduras, ajudado pelo filho
                         Quintino. E, de carroa, tinha de andar cerca de duas horas para
                         alcanar as portas da cidade onde ia vender os produtos de sua
                         horta.

       Oswaldo ainda relata que Luciano Goidanich, ao conseguir deixar o setor
agrcola, exerceu outras atividades, assumindo [sic] a posio de secretrio da
Associao dos Empregados no Comrcio, entidade esta que, complementa,
criou e manteve a primeira escola de formao profissional para os jovens que
trabalhavam no comrcio de Porto Alegre.


                                                                                                9
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       Tornou-se uma figura muito conhecida e estimada. Era tido em
                       grande considerao. Parte da minha meninice, passei-a ao seu
                       lado. J na casa dos oitenta anos, somente saa  rua comigo ao
                       seu lado. O passeio matinal era uma constante: subamos e
                       descamos a Rua da Praia e os cumprimentos vinham de todos
                       os lados: __ Bom dia, seu Luciano!  daqui. __ Bom dia, seu
                       Luciano  dali.

       Luciano faleceu aos 83 anos de idade. Quanto aos seus pais, Quintino
Goidanich e Maria Jovelina Defanti, Oswaldo Goidanich os recorda assim:

                       Teu bisav e meu pai  Quintino  casou-se com uma jovem de
                       descendncia triestina, Maria Jovelina Defanti. Tiveram dez
                       filhos; criaram e educaram sete, pois trs morreram ainda muito
                       pequenos. Com eles, comeou a multiplicao dos Goidanich, no
                       Novo Mundo, pois ainda os h na Europa, conforme eu prprio
                       pude ver, ocupando posies de destaque na sociedade do
                       Vneto. Seu Quintino era chamado assim at pelos filhos. Que
                       eu me lembre, nunca o chamei de papai, ou simplesmente pai.
                       No trato do dia-a-dia, era senhor. Quando conversando com
                       outras pessoas, tivesse eu de me referir a ele, era sempre e
                       respeitosamente Seu Quintino. Alto e forte, comeou como
                       garom e fez-se empresrio no ramo da hospitalidade.
                       Trabalhador incansvel, de excelente ndole, era um homem de
                       temperamento pacfico, bondoso e compreensivo, praticamente a
                       anttese da tua bisav. A Dona Jovelina era fogo! H quem diga
                       que, na atrao dos contrastes, est o cerne do amor. Deve ser
                       verdade. Foram admirveis esposos e pais. A todos ns, criaram
                       com desvelo e dentro de uma rgida disciplina moral. Se alguma
                       coisa de bom em mim existe, como ser humano, a eles devo.

       Oswaldo Goidanich nasceu no dia 29 de outubro de 1917, na cidade de
Porto Alegre. Sexto filho dos sete que permaneceram vivos, Oswaldo s era mais
velho que Ruben Goidanich e mais novo que Francisca Goidanich Walther, Joo
Silvio Goidanich, Eugnia Goidanich Sperb, Wanda Goidanich Lopes e Carlos
Goidanich.
       Os Goidanich, nas        suas primeiras geraes, eram uma famlia
essencialmente ligada ao comrcio, mas Oswaldo Goidanich, desde as suas
primeiras aes, mostrava que no queria seguir a tradio familiar.

                       Pelo que minha av me contou, ele saa sempre de noite e ela
                       ficou meio encucada com aquilo. A disseram para ela: "Sabe
                       aonde ele vai? Ele vai na biblioteca." Minha av no se
                       convenceu e uma vez ela saiu atrs dele, chegou l e viu: ele
                       estava na biblioteca, lendo. Passava a noite l, lendo. Ele no
                       tinha pacincia de estudar tudo certinho, mas ele tinha sede de
                       conhecimento. Ele adquiriu praticamente tudo sozinho,



10
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



relembra a sobrinha Perly Walther.
       Desde cedo eram conhecidas as sua aptides que iam desde a msica,
passando por artes plsticas e um gosto por aquilo que at ento era uma rea
muito pouco difundida na regio, o turismo. Em todas essas reas Oswaldo
Goidanich era um autodidata, fato que, se por um lado ressaltava o seu poder de
iniciativa e vontade, por outro lado o tolhia quando passava por situaes mais
bem determinadas:

                         A minha av sempre contava: "Pois ele vai ao cinema". Naquele
                         tempo, era o cinema mudo com o pianista acompanhando.
                         Quando ele chegava em casa, que tinha um piano l, ele sentava
                         ao piano e tocava exatamente, sem ter tido aulas, aquilo que ele
                         ouvia no cinema. A, a minha av me disse: "Como ele tem tanto
                         talento para o piano, vamos botar ele a estudar piano". A minha
                         me tocava piano e ento, uma vez por semana, ele tinha aulas
                         de piano com minha me. S que, quando tem as aulas, tu
                         aprendes a ler a msica, tens que tocar escalas, e isso no
                         agradou a ele. "Por que eu vou estudar, eu toco sem estudar!",

revelao tambm de Perly Walther.
       Foi dessa forma que Oswaldo Goidanich comeou a se infiltrar no meio
profissional, aos 14 anos de idade. J aos 18 anos foi morar sozinho e
conseguia, assim, o seu primeiro emprego como auxiliar de escritrio, no ano de
1935. Esse seria o primeiro emprego de uma srie, daquilo que as pessoas mais
prximas vieram a conhecer como as diversas profisses que Oswaldo Goidanich
passaria a exercer nos anos seguintes, o que o levava a dar menos ateno 
famlia pelo excesso de carga horria. Mas Oswaldo Goidanich sempre buscou
manter os laos familiares:

                         Ele (Oswaldo Goidanich) nunca foi alheio  famlia, de jeito
                         nenhum. Inclusive, ele sempre procurava ir nas festas,
                         aniversrios dos irmos e irms. E o Oswaldo Goidanich sempre,
                         de certa maneira, embora no tivesse muito tempo, sempre
                         quando chegava perto dos sobrinhos, era para incentivar alguma
                         coisa: "Olha, vocs tm que desenhar, tm que ler, tm que ir ao
                         cinema",

relembra Hiron Goidanich, seu sobrinho.

                         Distncia, mesmo, no existia, porque ele morava aqui, qualquer
                         coisa que precisasse saber dele, telefonava e estava sempre
                         presente, mas no  aquela presena constante numa famlia,
                         esse ambiente familiar ele no tinha, mesmo que ele no se
                         afastasse da famlia, na verdade, ele nunca se afastou,


                                                                                                11
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


completa Ruben Goidanich, irmo mais novo de Oswaldo.
       Um momento que marcou a unio entre esses dois mundos diferentes que
Oswaldo Goidanich habitava foi no ano de 1987, quando ele completou 70 anos
de idade. Numa grande festa organizada por Lygia Nunes e Dinah Gastal; a
primeira, jornalista do Correio do Povo e sua velha amiga; a segunda, esposa do
jornalista e editor P.F.Gastal, tambm do Correio do Povo, Oswaldo Goidanich
recebeu familiares e os colegas de profisso no ento Restaurante Germnia.

                       Ele, no seu aniversrio de 70 anos, comeou dizendo mais ou
                       menos isso, que ele no queria falar sentado e que ele no
                       queria ficar num lugar s, ento ele foi passando pelas mesas e
                       ia contando a vida dele, como  que tinha sido. Contou que ele
                       tinha muita coisa para lembrar, falou na famlia, que ele quase
                       no falava, contava como tinha sido a formao dele de infncia,
                       os empregos que tinha tido e caminhava, passeando. Ele tinha
                       uma voz poderosa, ento ele ficava l falando e a gente ouvia
                       aqui perfeitamente,

relembra Lygia Nunes.
       Foi nesta festa que apareceu o poema "Setento", de Olga Reverbel:

                       Corre, corre Goidanich
                       Cabea erguida, alma atenta!
                       Corre, corre Goidanich
                       Para a casa dos setenta!

                       Quem corre, corre, corre
                       No conta tempo perdido.
                       Nunca morre, nunca morre
                       E  dos anjos protegido...
                       Os anjos teus so bacanas
                       Tm cara de Vasco e Xico
                       Coloridas asas de Petrucci.
                       Cantam, canto coral
                       entre Bach e carnaval

                       Hoje, aqui, teus amigos
                       velhos, moos e adolescentes,
                       vm te trazer de presente
                       corpos jovens e coraes antigos.
                       Goidanich, tanto corres
                        impossvel versos rimar.
                       Na dana do corre-corre
                       me nego a metrificar!
                       Em tuas loucas correrias:
                       do rseo  Legislativa,
                       de l para o Touring  a organizar
                       da OSPA a poltica musical,
                       Helas! Quem te pode alcanar?


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         Como podes, Goidanich,
                         Tantas coisas assim fazer?
                         Nada disso, nada disso ...
                         O teu problema  viver.

                          pintar tuas aquarelas,
                          cozinhar hungarezas,
                          amar vrias terezas,
                         Umas feias, outras belas
                          amigos ajuntar
                         Em tua sala de jantar
                          lembrar velhas histrias
                         para depois nos contar...

                         Quem a vida tanto ama
                         Chega hoje aos seus setenta
                         Coberto de glria e fama
                         Vendo a vida correr lenta
                         Numa bela e doce pista
                         Perdendo a morte de vista...
                         Aqui estamos a dizer coisas do corao
                         Que so programa da festa
                         pr expulsar a solido.
                         Quem no veio, no presta,
                         ou fugiu da cidade
                         pr de ti curtir saudade.

                         O cidado Goidanich
                          pessoa mui amada
                         por todos e cada um.
                          lata de goiabada que contm quatro em um.
                         Ao querido corredor,
                         Ao valoroso campeo,
                         Que no cabe numa lata
                         Mas pode encher um lato,
                         Contendo mil em uma s
                         Em seu grande corao.

                         Ndia, Dinah e mais Lygia
                         encomendaram este POETENTA
                         Para a festa dos setenta.
                         Como minha pena no verseja
                         Bate a rima com cerveja!

        Circulou tambm uma crnica do historiador Srgio da Costa Franco,
intitulada "Um setento", publicada no dia 29 de outubro de 1987, no jornal Zero
Hora:

                         Embora me faltem o mnimo de predicados para o exerccio da
                         crnica social, no me contenho em comentar um grande
                         acontecimento da semana, que foi a festa dos setenta anos do
                         Oswaldo Goidanich. Em primeiro lugar, pelo carter simples e
                         espontneo dessa homenagem de amigos, que no foi produzida


                                                                                                13
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                       por ningum, como  freqente suceder. Lygia Nunes, Dinah
                       Gastal, Ndia Guimares e Olga Reverbel tomaram a iniciativa e,
                       sem maior divulgao, algumas dezenas de aderentes
                       apareceram atrados pelo singelo prazer de jantar com o velho
                       Goida e homenagear quem merece.
                       O presente foi um pano de algodo com dedicatria escrita pelo
                       Mrio Quintana e assinada pelos convivas. O discurso de
                       saudao, inteligente e breve, foi do Ruy Carlos Ostermann.
                       Olga Reverbel disse versos prprios, muito divertidos. E o
                       Goidanich, ao final, roubou a festa, fazendo oralmente a crnica
                       da sua vida.
                       Ao cabo de setenta anos, as pessoas naturalmente tm muitas
                       coisas a contar. Mas se o sujeito  dotado de especial
                       sensibilidade, social e artstica, e sabe expressar-se com graa e
                       desembarao, at um depoimento de uma hora pode tornar-se
                       ameno. Caminhando entre as mesas, num discurso peripattico,
                       o aniversariante divertiu o auditrio, desde o narrar suas
                       dificuldades para assistir de graa  sesso do cinema Central,
                       pelas frestas de uma veneziana lateral, at as fricas de gerir a
                       OSPA durante sete anos. O Anchieta dos anos 20 e 30; a
                       redao do Estado do Rio Grande; a longa trajetria pelo Correio
                       do Povo, desde a crnica esportiva  secretaria; o Touring Club;
                       o trabalho na Assemblia Legislativa; a OSPA; o Binio da
                       Imigrao e Colonizao, tudo lhe permitiu um notvel exerccio
                       de memria. Menos sobre ele prprio e muito mais sobre os
                       outros.
                       Pelo seu excelente trabalho de animao cultural, Oswaldo
                       Goidanich tem crditos grandes junto  cidade e  provncia. E,
                       pelo que se viu tera ltima, na Germnia, dispe de gs para
                       produzir mais uns 30 anos.

       Oswaldo Goidanich se aposentou entre o final dos anos 1970 e incio dos
anos 1980. Aps ficar morando trs anos no Rio de Janeiro, quando trabalhou na
EMBRATUR entre 1981 a 1984, Goidanich voltou a Porto Alegre. Com o tempo
mais disponvel, optando por projetos ou consultas espordicas em termos
profissionais, Oswaldo, nos seus ltimos dez anos de vida, voltou-se mais para a
famlia, ao se aproximar do irmo Carlos Goidanich e das irms Francisca
Goidanich Whalter e Wanda Goidanich Lopes, seja em almoos ou festas, como
em fins de semana.

                       Ele gostava muito (da famlia), mas no era uma pessoa, assim,
                       que declarasse. Ele chegava e fazia troa em um e no outro, de
                       repente ele j ia embora. No era uma pessoa que a gente podia
                       dizer: "Bom, agora vou fazer esse programa assim". Ele era uma
                       pessoa com a cabea meio que no ar, mas tinha um amor muito
                       grande pela famlia. Ele sempre procurava, s vezes sem a
                       pessoa saber, mas ele fazia certas coisas para ajudar. Ele era
                       muito amigo da famlia, mas no  que ele fizesse declaraes
                       de amor, ou coisa assim. Era pelo jeito que ele agia,



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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



resume Perly Walther.
       Na carta do dia 3 de agosto de 1994, que Oswaldo Goidanich escreveu
para o sobrinho-neto Roberto Hoffman Goidanich, ele assim se expressou no
ltimo pargrafo:

                         Embora mal te conhea  e isso  da minha maneira de ser, no
                         da minha maneira de sentir  eu te desejo, ardentemente, todo o
                         sucesso que, desde j, posso prever, to brilhante o teu passo
                         inicial, e que sejas feliz como bem mereces. Teu tio-av Oswaldo
                         Goidanich, Neco para os familiares.

       Oswaldo Goidanich faleceu em outubro de 1995, aos 78 anos de idade.


2. OSWALDO GOIDANICH E O TURISMO


       O ano era 1935. Antes dessa data Porto Alegre no passava de uma
pequena cidade, provinciana, tranqila e, segundo o prprio Oswaldo Goidanich,
quase esquecida entre os dois maiores plos demogrficos do continente: Rio de
Janeiro e So Paulo, ao norte; Montevidu e Buenos Aires, ao sul.
       No entanto, naquele ano existia na memria dos gachos uma data
importante da sua histria e que no menos permanecia viva no imaginrio da
regio dos pampas: comemorava-se o centenrio da Revoluo Farroupilha.
Esse fato foi o principal elo de ligao de uma sociedade disposta a fazer
daquele acontecimento um marco digno do que ocorrera h um sculo atrs,
como afirma Oswaldo Goidanich:

                         As comemoraes dos cem anos da epopia farroupilha, pelo
                         arrojo com que foram promovidas, pelo esplendor de que se
                         revestiram, puseram Porto Alegre, pela primeira vez, no mapa do
                         mundo. Nunca houve tal mobilizao de recursos da sociedade
                         rio-grandense, governo e povo unidos com a inteno de afirmar
                         foros de cultura e civilizao. Flores da Cunha, governador, e
                         Alberto Bins, prefeito da capital, comandaram equipes de grande
                         capacidade realizadora, gente que sabia onde tinha o nariz  e o
                         resultado foi um perodo ureo de realizaes materiais e
                         culturais.

       No dia 20 de setembro de 1935 Getlio Vargas cortava a fita inaugural das
exposies na parte sul do Parque da Redeno, nessa que era a sua segunda
visita ao Rio Grande do Sul, aps ser eleito presidente constitucional. Esse ato,
mais do que manter vivo o passado de um povo, provou ser o incio de uma nova

                                                                                                15
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era na vida sociocultural de Porto Alegre e, conseqentemente, do Rio Grande do
Sul. A comear pela necessidade de criao de infra-estrutura, pois festividades
do porte daquela, na poca, no eram comuns. No jornal Correio do Povo era
noticiado, no dia 19 de setembro, a presena de mais de 15 mil forasteiros em
Porto Alegre, como se l detalhadamente no matutino:

                       Porto Alegre apresenta um aspecto imponente, ruas
                       movimentadas em todos os sentidos. Hotis e penses
                       repletssimas, havendo ainda centenas de casas de famlias que
                       se acham ocupadas por forasteiros.
                       Pode-se dizer que a nossa metrpole tem um movimento como
                       nunca se registrou, apresentando o movimento de grandes
                       capitais.
                       Por toda parte se ouvem palavras de admirao ao progresso
                       que todos vm encontrar em Porto Alegre, principalmente
                       comercial e predial (CORREIO DO POVO, 1935, p. 12).

       A conscincia da importncia desse evento fez os organizadores preverem
que o fluxo de forasteiros seria grande para a capital. Isto na prtica se
confirmou, pois o Correio do Povo registrou, no dia 20 de setembro, que as
empresas de navegao e a direo geral da Viao Frrea tomaram
providncias para o melhor transporte de passageiros. Complementando a
reportagem, indica-se que a linha frrea de Santa Maria movimentava
diariamente trs trens noturnos e dois diurnos, num geral de 14 vages, sendo
que, pelos clculos, chegavam diariamente 1200 passageiros a Porto Alegre.
Ainda sobre o mesmo tema, o jornal, com o ttulo de " extraordinrio o
movimento de forasteiros", registrava:

                       A Prefeitura Municipal fez em livro especial, um registro de
                       entrada e sada de turistas para assim melhor informar-se quanto
                       s acomodaes disponveis. Segundo os informantes nessa
                       repartio, com resultados obtidos de uns dez dias a esta parte,
                       esse movimento anda num total de 45 mil (CORREIO DO POVO,
                       1935, p. 12).

       Era at ento o auge do processo que hoje se conhece como turismo de
evento. Na definio da Organizao Mundial de Turismo da ONU, turista  todo
aquele que realize uma viagem de ida e volta a um local distante do seu domiclio
e ali se demore, no mnimo, por 24 horas. Seguindo esse conceito, Oswaldo
Goidanich, no livro Turismo no Rio Grande do Sul  50 anos de pioneirismo
no Brasil, calcula que o turismo no Rio Grande do Sul teve o seu incio em 1704,


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



quando Domingos de Figueiras viajou pelo litoral do estado, vindo do Rio da
Prata, seguindo at Laguna, Santa Catarina 1 .
       Em 1874 foi construdo o primeiro trecho rodovirio que ligava Porto Alegre
a So Leopoldo; em 1915 estabelecia-se o primeiro endereo para turismo de
Porto Alegre atravs da agncia argentina EXPRINTER, no ramo de cmbio e
passagens. Outro fator marcante foi a fundao da VARIG  Viao Area
Riograndense, em 27 de maio de 1927, primeira empresa de transporte areo
nacional.
       Com esses fatores conquistados ao longo dos anos, alm de tantos outros
que tiveram de ser implementados para Porto Alegre comportar as exigncias
dessa festividade, comeava-se, em 1935, a pensar em eventos de grande porte,
que mobilizassem a populao local, regional e nacional, fator este que trazia o
papel do turismo  tona. Todos os estados brasileiros, alm de alguns pases de
diferentes continentes, foram representados na capital gacha, como o
governador da Bahia, Capito Juracy Magalhes; os secretrios da Agricultura de
So Paulo e Minas Gerais, Luiz de Toledo Piza Sobrinho e Israel Pinheiro,
respectivamente; assim como representantes da regio platina, alm de, entre
outros pases, o Lbano, que enviou ao governador do estado um telegrama
dignificando a data.
       Foi tambm em meio a essas festividades que surgia um jovem de 17
anos at ento pouco conhecido no meio cultural porto-alegrense, mas que j
colocava o seu nome na histria, ao ser o primeiro atendente do primeiro bureau
de turismo do Rio Grande do Sul. Tratava-se de Oswaldo Goidanich, o mesmo
homem que considerava a Porto Alegre anterior pacata, mas que, agora, sentia o
que um evento comemorativo poderia fazer no cotidiano de uma cidade. Afinal,
em entrevista, ele disse ser o Centenrio da Revoluo Farroupilha, o seu
batismo como futuro homem de turismo.




1
 CSAR, Guilhermino (Org.) - Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul - 1605-1801,
Porto Alegre, EDUFRGS. 1969.

                                                                                                17
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A) O Touring e Oswaldo Goidanich


       No ano de 1923 era fundada no Brasil a Sociedade Brasileira de Turismo,
localizada na ento capital federal, Rio de Janeiro. Com o intuito de comemorar o
centenrio da independncia do Brasil, acabou por fazer do turismo e reas afins
um setor de progresso na vida socioeconmica brasileira. Uma prova disto
aconteceu em 1926, quando a Sociedade Brasileira de Turismo se filiou ao setor
nacional do Touring e aos organismos internacionais, transformando-se, assim,
no Touring Club do Brasil, divulgando mais intensamente o pas no exterior. Isso
possibilitava um acesso mais fcil a outros pases, j que os Tourings so clubes
nacionais filiados  Alliance Internationale de Tourisme [AIT], com sede em
Genebra, que possui bases em vrios pases da Europa e Amrica, como era o
caso do Uruguai, por exemplo, que j possua o seu Touring Club desde 1891.
       Como sociedade civil de direito privado sem fins lucrativos, o Touring Club
passou a agir junto aos meios oficiais e privados, na divulgao de atividades
vinculadas ao turismo em geral. Ao lanar congressos sobre trnsito, em meados
da dcada de 1930, complementando-os com a "Caderneta de Trfego
Interestadual", alm de ser pioneiro nos servios de assistncia turstica 24 horas
no Brasil, o Touring, ao longo dos tempos, tornou-se referncia para o
entendimento do processo turstico no pas.
       No Rio Grande do Sul a situao no foi diferente. Oswaldo Goidanich
esclarece essa questo de forma mais profunda no artigo "Antecedentes do
Turismo".

                       O exemplo do Touring Club do Rio de Janeiro foi seguido pela
                       Bahia, So Paulo e Pernambuco, que fundaram seu prprio
                       clube, atuando paralelo [sic], mas sem vnculo administrativo
                       entre si. O mesmo veio a ocorrer com o Rio Grande do Sul, em
                       maro de 1935.
                       Permaneceu independente, porm, por poucos meses, porque j
                       em maio do mesmo ano o Dirio de Notcias, de Porto Alegre,
                       noticiava que, na vspera, o Conselho Federal de Comrcio
                       Exterior, no Rio de Janeiro, decidiu criar o turismo organizado no
                       pas. O grande agente propulsor era o Touring Club.

       Outro fator para essa unificao do Touring, segundo relata Goidanich, se
deve  unificao da carteira de motorista no pas, contando assim com um s
rgo maior e mais forte, angariando turismo nacional e internacional. Tendo 33


18
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



empresrios, entre eles Vitor Kessler e Breno Caldas como fundadores, a seo
do Rio Grande do Sul do Touring se fixou na Rua dos Andradas, tendo como seu
primeiro presidente Fernando de Abreu. Uma das primeiras medidas a serem
adotadas foi o incio da edio da Revista Touring, a primeira publicao turstica
que circulou no Rio Grande do Sul, sendo dirigida por Clio Fiori Druck (mais tarde
substitudo por Lo Silveira de Arruda e, a partir de 1938, por Oswaldo
Goidanich).
       O bom resultado dessa fuso podia ser constatado nas comemoraes do
Centenrio Farroupilha, onde o Touring Club do Brasil atuou j com a sua seo
do Rio Grande do Sul, cinco meses aps ser fundada (21 de maro de 1935).
Preocupada em projetar idias para atrair visitantes e recepcion-los, cuidando
da assistncia, da melhoria da hotelaria e, sobretudo, da orientao e da
formao de uma conscincia turstica, a seo rio-grandense do Touring tinha,
no Centenrio da Revoluo Farroupilha, a oportunidade de mostrar ao Brasil e
ao mundo a capacidade turstica que Porto Alegre comeava a ter. Entre outras
atividades destacaram-se:
       Corrida Automobilstica Internacional, composta por 40 carros entre os
       bairros de Cristal, Praia de Belas, Jos de Alencar, Terespolis,
       Cavalhada, Tristeza;
       Projeo      no    cinema     Coliseu     do   filme    referente    quela     corrida
       automobilstica;
       Realizao do 1 Congresso Geral dos Transportes;
    Chegada, em dezembro de 1935, da primeira excurso de uruguaios sob
       os auspcios do Touring Club;
       Excurso de cinco dias, com 25 a 30 turistas,  regio vincola: Caxias do
       Sul, Garibaldi, Bento Gonalves, Nova Trento, Farroupilha.

                          O Touring, cujo campo de atividades cobre todas as questes
                          relativas ao turismo, preocupa-se j h tempos com o difcil
                          problema de uma Assistncia Turstica eficaz a todos os
                          visitantes durante o longo perodo das comemoraes do
                          Centenrio Farroupilha recm-iniciadas, com raro brilhantismo.
                          Segundo clculo oficial, mais de 200 mil pessoas visitaro Porto
                          Alegre nos meses prximos, resultando indisfarvel a
                          necessidade da instalao de um posto de informaes tursticas
                          ao servio desse nmero extraordinrio de forasteiros.
                          Tomando a si essa iniciativa, o Touring brasileiro, por sua seco
                          sul-rio-grandense, oficiou  direo geral do grande certame.


                                                                                                19
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       Atendido prontamente pelo Comissariado Geral, foi posto 
                       disposio do Touring, o torreo esquerdo do Prtico
                       Monumental do certame. Assim, o ncleo local da agremiao
                       turstica nacional deu incio aos trabalhos de adaptao do local,
                       pela sua explndida [sic] atuao de um Bureau daquela
                       natureza. Dentro em breve, estaro eles prontos, de maneira
                       que, j na prxima semana, encontrar-se- em pleno
                       funcionamento o Bureau de Turismo do Touring Club do Brasil, 
                       disposio dos inmeros turistas que acorrem, diariamente, em
                       centenas, ao grandioso certame do Parque Farroupilha
                       (CORREIO DO POVO, 27/09/1935, p. 11).

       Quem atendia o Bureau era o ento jovem Oswaldo Goidanich. Sua
atividade consistia, basicamente, em informar sobre viagens e acomodaes,
geralmente nos prprios navios, j que a hotelaria era insuficiente. Esse foi o
primeiro passo na carreira profissional de Goidanich que, alm de se projetar em
outras reas, viria a marcar no seu currculo 49 anos de dedicao  instituio
que lhe abrira as portas. J no ano seguinte, em 1936, Goidanich passou de
auxiliar geral para a gerncia da seo do Rio Grande do Sul do Touring. Ao
assumir um cargo de considervel importncia dentro da instituio, acabou por
gerenciar as atividades que cada vez mais mobilizavam a comunidade rio-
grandense. Foi ele o responsvel pela criao do primeiro folheto turstico editado
no estado com o slogan "Onde vamos veranear". Vale ressaltar que o Touring,
at ento, era o nico rgo de turismo no estado, sendo que o poder pblico
ainda no oficializara o turismo como atividade governamental. Somente em
1950, como decorrncia do dispositivo inscrito na Constituio de 1947, por
iniciativa do deputado Egdio Michaelsen, o Legislativo aprovou e o governo de
Walter Jobim promulgou a Lei 997, que oficializou o turismo no Rio Grande do
Sul, criando o Conselho Estadual de Turismo (CET) e o Servio Estadual de
Turismo (SETUR).
       O Touring no s investia em esporte, trnsito, hotelaria e demais
atividades, como tambm os relacionava com a cultura local, estabelecendo um
envolvimento que resultou vrias vezes em acontecimentos marcantes. Como
exemplo, basta lembrar a 1 Corrida de So Silvestre, maratona realizada ainda
em 1935, por promoo do Touring, que atraiu mais de 50 mil espectadores s
ruas de Porto Alegre para verem atletas representando 26 clubes esportivos.
Alm disso, um ms antes, em parceria com o Automvel Clube, realizou-se a
prova automobilstica Grande Prmio Cidade de Porto Alegre, no Grande Circuito


20
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



Automobilstico Farroupilha, com a participao de pilotos argentinos e uruguaios,
alm de nomes consagrados do Brasil, como Norberto Jung, vencedor da prova.
At hoje o Touring  reconhecido como o promotor da fase de ouro do
automobilismo brasileiro, a chamada poca das carreteiras.
       No s no setor de eventos mas no de infra-estrutura para esses eventos,
o   Touring,    ao    longo    desses     anos,    foi   revelando     a   necessidade          de
profissionalizao e viso pelos projetos que assumia. Em 1938 o Touring
recebeu do ento prefeito de Porto Alegre, Jos Loureiro da Silva, autorizao
para realizar a sinalizao turstico-rodoviria da cidade, sendo que, tempos
depois, idnticos convnios foram firmados com outras Prefeituras do estado,
orientando turistas no permetro urbano das cidades. Como complemento a esta
poltica de sinalizao, as rodovias foram incorporadas a esse projeto com a
administrao de Oswaldo Goidanich, como, por exemplo, em 1940, a estrada
Guaba  Pelotas  Jaguaro. Sobre isto, Goidanich falou  Revista do Touring:

                         Em 1939, o Touring Club, dando comeo aos servios que lhe
                         foram confiados pelo Estado, completou 207 quilmetros de
                         estradas sinalizadas, destacando-se o modelar balizamento
                         realizado na rodovia Porto Alegre  Osrio  Tramanda, que tem
                         recebido elogios de quantos automobilistas forasteiros chegam 
                         capital.
                         Para este ano, o Touring recebeu do DAER autorizao para
                         sinalizar mais 1167 quilmetros de rodovias, tendo iniciado os
                         seus trabalhos pela importante linha rodoviria Guaba  Pelotas
                          Jaguaro. Razes diversas e importantes determinam esta
                         escolha, pois esta estrada no  somente a que liga as duas
                         mais importantes cidades do estado, merecendo j por isso toda
                         a ateno, mas, tambm, a principal via de acesso atravs da
                         qual podero chegar at o nosso territrio os automobilistas do
                         Uruguai e da Argentina, com incalculveis benefcios para o
                         turismo brasileiro.

       Como conseqncia, surgia ento o "Circuito da Boa Esperana", percurso
que vai do Rio de Janeiro a Montevidu, passando por vrias cidades gachas,
inclusive as rodovias sinalizadas, fazendo desse percurso o resultado de um
projeto que Oswaldo Goidanich ambicionava realizar:

                         Cabe ao turismo um papel saliente na obra de confraternizao
                         pan-americana. Como nenhuma outra atividade humana, o
                         turismo propicia o conhecimento mtuo dos povos, a amizade
                         internacional e, implicitamente, a paz. Por convnios e
                         importantes atos administrativos, os governos tm facilitado e
                         fomentado as relaes tursticas entre os cidados americanos.


                                                                                                21
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       Entretanto, a pura iniciativa oficial no seria bastante para dar
                       carter prtico a to elogiveis propsitos, no fosse a atuao
                       das entidades que, com perseverana e dedicao, trabalham
                       silenciosamente, secundando a atuao dos governos e dando
                       ritmo animado e fecundo o intercmbio do turismo (REVISTA DO
                       TOURING, dez. 1941, p. 6).

        A partir do constante aperfeioamento da rede rodoviria estadual, o
Touring, aps 1939, comeou a publicar a Carta Rodoviria do Rio Grande do Sul
com tiragens de 40 at 200 mil exemplares, contendo roteiros rodovirios entre
Porto Alegre, o resto do pas e os pases do Prata. No vero de 1939/1940, com
a extenso da sinalizao nas rodovias para o litoral, assinalou-se um notvel
impulso de automveis e nibus para as praias. Surgia Imb, o primeiro balnerio
a ter um traado prprio e gua prpria tratada.
        At o ano de 1950 o Touring foi o responsvel quase que nico pelo
progresso do turismo no estado. Como ser visto adiante, a partir do incio da
dcada de 50, essa situao mudaria, mas no sem antes registrar que essas
alteraes so decorrncia da poltica turstica adotada pelo Touring ao longo
desses anos, tendo como seus grandes responsveis homens como Edgar
Chagas Dria, Clio Fiori Druck e Oswaldo Goidanich, entre outros, ao trazerem a
conscincia turstica para o Rio Grande do Sul, ao longo daqueles 15 anos
iniciais.
        Oswaldo Goidanich, a partir de ento, no mais atuaria exclusivamente
para o Touring, no ramo do turismo, embora continuasse a ser um dos principais
integrantes da entidade at o ano de 1979, quando se aposentou. Deixou como
legado, entre outras realizaes, a criao da sede prpria da seo do Rio
Grande do Sul do Touring, inaugurada em 1971, na Avenida Joo Pessoa, em
Porto Alegre. Com o auxlio do arquiteto Irineu Breitmann, construiu-se um prdio
de cinco andares, destinado  prestao de servios sociais, de recepo e de
assistncia turstica, alm de mais outros cinco andares de garagem, posto de
servios e oficinas. A construo do prdio foi custeada exclusivamente pelos 30
mil associados do Touring e, aps a sua inaugurao, todos os gastos j estavam
pagos. At os dias de hoje a instituio se situa na mesma sede.




22
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



B) Servio Estadual de Turismo (SETUR)


        Desde que o turismo comeou a ser visto como uma atividade rentvel,
feito      base    de    mo-de-obra       qualificada,    e    contando     com     pessoas
especificamente preparadas para atuar nessa rea, uma pergunta sempre
instigou tericos e profissionais: qual o papel que o servio pblico pode
desempenhar no turismo?
        Alberto Sessa, no livro Turismo e poltica de desenvolvimento, afirma
que a funo do Estado na atividade turstica  hoje indiscutvel, seja para pases
avanados turisticamente, seja para aqueles em vias de desenvolvimento. J
Luiz Fernandez Fuster, em Teora y tcnica del turismo, concluiu que, para la
puesta en prctica de esta Poltica de Turismo se requieren organismos o
instituciones tcnico-administrativos. Dos tipos distintos podemos distinguir:
        I  Organizacin gubernamental, oficial y pblica
        II  Asociaciones privadas.
        No entanto, factualmente falando, o turismo, seja ele em pases
desenvolvidos ou em desenvolvimento, sempre surgiu da iniciativa privada,
sendo que o servio pblico somente investiria tempos mais tarde:

                         Na quase totalidade destas naes, a criao da indstria
                         receptiva foi devida, na maior parte,  obra da iniciativa privada,
                         enquanto a participao do Estado naquela poca foi, acima de
                         tudo, passiva. Esta poltica passiva, que nascia da falta de
                         conscincia dos problemas que se pem na atividade turstica,
                         determinou a sria deteriorao do patrimnio turstico que influiu
                         negativamente sobre o prprio desenvolvimento turstico
                         (SESSA, 1983, p. 12).

        Durante a primeira metade do sculo XX, o turismo no Brasil dependia
quase que exclusivamente da iniciativa privada, sendo que o servio pblico
atuava somente em alguns momentos, em conjunto com instituies como o
Touring, mas nunca o fazia de forma permanente, com a institucionalizao de
uma poltica turstica, por exemplo. Pequenas iniciativas para isso comearam a
ser tomadas em 1950, quando o Legislativo do Rio Grande do Sul aprovou e o
ento governador Walter Jobim promulgou a Lei 997, oficializando o turismo no
estado, alm de criar o Conselho Estadual de Turismo (CET) e o Servio




                                                                                                23
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


Estadual de Turismo (SETUR). Este ltimo, por falta de recursos, naquele
momento no se concretizou.
        Foram precisos nove anos para que, atravs da solicitao do deputado
Joo Caruso, fosse editado o Decreto Lei n. 10470, o qual transferia para a
Secretaria do Interior e Justia o Servio Estadual de Turismo e ampliava as suas
atribuies, dando-lhe estrutura definitiva. Institucionalizava-se, enfim, um
primeiro rgo oficial de fomento ao turismo por um estado da Unio. Com a
edio do decreto pelo recm-empossado governador Leonel Brizola, caberia ao
SETUR, a partir de 13 de maio de 1959, cumprir suas metas. Para isto Oswaldo
Goidanich foi nomeado diretor do SETUR. J reconhecido como uma
personalidade referencial em termos regionais, nacionais e internacionais,
quando o assunto era turismo, ao construir uma slida carreira no ramo,
principalmente atravs do Touring, ele se tornava o primeiro diretor do primeiro
rgo pblico oficial de turismo no pas. Para justificar sua escolha, deveria
cumprir o Plano de Turismo que ele mesmo formulara. Eis seus objetivos:
        criar melhores condies para a realizao do turismo interno;
        atentar para a intensificao do turismo internacional, ao oferecer as
        possibilidades tursticas do estado;
        criar melhores condies materiais para o turismo na terra rio-grandense;
        efetivar o progresso em favor das praias do mar do Rio Grande do Sul, ao
        se dedicar a questes como meio ambiente, higiene e conforto;
        apoiar o desenvolvimento da hotelaria, atravs do crdito hoteleiro, com o
        financiamento  indstria hoteleira;
        articular a criao de uma Escola Profissional para preparo de pessoal
        especializado, propiciando a mo-de-obra habilitada e capaz na hotelaria
        rio-grandense;
        regulamentar a Lei n. 3.388, de 8 de janeiro de 1958, que isentou de
        impostos estaduais os novos hotis construdos no estado com finalidade
        turstica;
        realizar desapropriaes das reas de relevante interesse turstico, que
        deveriam constituir os Parques Estaduais de Turismo, bem como as
        reservas naturais, em regies como Torres, Parque Balnerio de




24
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       Tramanda, Parque Estadual de Itapu, Parque Estadual do Caracol,
       Parque Termal em guas do Prado e outros;
       criar, em rea ampla, porm prxima  capital do estado, uma estncia
       tpica rio-grandense, com finalidade turstica;
    dedicar ateno aos lugares histricos, organizando-os nas regies das
       Misses, Piratini, Caapava, Viamo e Rio Pardo, de forma que no
       faltasse aparelhamento e assistncia turstica aos visitantes;
       construir, em Porto Alegre, uma hospedaria estudantil, a qual funcionaria
       tambm como Escola de preparo profissional para a hotelaria;
       dar ampla assistncia s agncias de viagem e turismo e s companhias
       transportadoras que operam no estado, as quais receberiam amplo
       material informativo para distribuio junto aos potenciais turistas;
       organizar, anualmente, o Calendrio Turstico do Rio Grande do Sul,
       aproveitando as principais manifestaes de ordem cultural, artstica,
       folclrica, econmica e outras que ofeream real partido turstico;
       articular-se     com     os    municpios     rio-grandenses       interessados      em
       desenvolver o turismo em suas reas comunais;
       entrosar as atividades do SETUR com a Comisso Brasileira de Turismo
       [COMBRATUR], de forma a assegurar a participao do Rio Grande do
       Sul nos planos de fomento ao turismo brasileiro;
       promover a propaganda em geral do Rio Grande do Sul, no pas e no
       exterior.
       Para esse novo desafio, Goidanich contava com o assessoramento das
Sees de Turismo (com subdivises em Setor de Planejamento e Organizao;
Setor de Equipamento e Fomento, Setor de Parques Estaduais de Turismo; Setor
de Hospitalidade), Seo de Administrao (Expediente e Pessoal; Oramento e
Material; Comunicaes e Arquivo; Estatstica; Transporte) e a Seo de
Propaganda (Setor de Publicidade; Setor de Relaes Pblicas Imprensa e
Informao; Setor de Certames e Exposies; Setor de Fotografia e
Cinematografia). Permanecia ainda, em tese, o Conselho Estadual de Turismo
como rgo consultivo, no qual Goidanich atuava como presidente. Como
membros desse conselho estavam presentes dez representantes de dez
instituies. Eram eles:


                                                                                                25
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


      Federao das Associaes Comerciais do Rio Grande do Sul
        Federao das Indstrias do Rio Grande do Sul
      Federao das Associaes Rurais do Rio Grande do Sul
        Federao do Comrcio Varejista do Rio Grande do Sul
        Federao de Turismo e Hospitalidade do Rio Grande do Sul
        Touring Club do Brasil
        Associao Riograndense de Imprensa
        Federao das Empresas de Transportes Rodovirios do Rio Grande do
        Sul
        Empresas Rio-grandenses de Transporte Areo
        Agncias de Viagem e Turismo que operam no Rio Grande do Sul
        Goidanich promovia assim, como uma forma de reconhecimento 
dedicao ao longo dos anos da iniciativa privada do turismo, atuando inclusive
como pioneira nesta rea no estado, uma interao entre a iniciativa privada e a
instituio pblica para a construo de uma poltica de desenvolvimento
turstico. Sobre esse assessoramento, o prprio Goidanich comenta:

                       Aproveitando o que aprendera nos Estados Unidos, foi minha
                       inteno manter os conselheiros inteiramente  vontade para
                       debater e votar a matria a eles submetida, encaminhar as suas
                       sugestes, os seus pleitos ou mesmo os seus reparos, sem ter
                       que enfrentar a presena sempre constrangedora de
                       representantes das diversas reas do governo. Essa forma livre
                       de manifestao foi igualmente positiva e possibilitou que o CET
                       contribusse de fato para o xito do SETUR. Levando toda
                       matria, desde a mais simples  mais polmica,  manifestao
                       dos representantes da iniciativa privada, eu podia utilizar a
                       valiosa colaborao do CET como uma caixa de ressonncia da
                       minha administrao para medir o acerto de qualquer medida ou
                       deciso a ser tomada. Ao mesmo tempo, recolhia o aporte da
                       experincia das diversas reas empresariais, empenhadas no
                       desenvolvimento do turismo.

        Entre as realizaes do SETUR, destaca-se o trabalho de publicidade
adotado, quando, segundo Goidanich, pela primeira vez, desenvolveu-se um
trabalho de marketing com a inteno de vender a imagem turstica do estado
para o Brasil e os pases do Prata. Editavam-se intensamente cartazes, folhetos,
muitos com textos bilnges (ingls e espanhol), mapas, roteiros, guias, adesivos
e outros materiais de propaganda e informao turstica, distribuindo-se este
material no centro e norte do pas, assim como no Uruguai e na Argentina.


26
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



Iniciativas como um extenso stand de cem metros em todas as exposies no
Parque Ibirapuera, em So Paulo, alm de ampliaes fotogrficas com aspectos
caractersticos do pampa gacho, espalhadas por mais de cem churrascarias por
todo o pas, ilustram a mobilizao durante esses quatro anos de gesto.

                         Durante quatro anos, a capilaridade da rede de distribuio do
                         SETUR permitiu chegar esse material promocional a agncias de
                         viagens, hotis, estaes rodo-ferrovirias, aeroportos,
                         embaixadas e consulados, clubes de turismo e automobilismo,
                         em grandes centros demogrficos como Rio de Janeiro, So
                         Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador e Recife; Montevidu,
                         Buenos Aires, Rosrio do Sul, Santa F, Posadas e Mendoza e,
                         inclusive, Santiago do Chile e Valparaso. Slides a cor foram
                         utilizados intensamente pelo SETUR para projees fora do
                         estado, revelando o potencial turstico e o progresso do torro
                         gacho (GOIDANICH, p. 65).

       Em 1961, articulando-se com as principais operadoras de turismo, o
SETUR, com o apoio da VARIG e da Pluna, promoveu a vinda ao Rio Grande do
Sul de agentes de viagem uruguaios e argentinos, em tours de familiarizao. Em
conjunto com a COMBRATUR (Companhia Brasileira de Turismo), colaborou no
zoneamento turstico do extremo sul e na elaborao do primeiro Mapa Turstico
do Brasil. O SETUR atuou diretamente no ramo da hotelaria, atravs do Fundo
Rotativo de Crdito Hoteleiro, projeto que teve aprovao unnime no XV
Congresso Nacional Hoteleiro com o objetivo de desenvolver a hotelaria gacha,
assim como reuniu, pela primeira vez, os hoteleiros de praia e serra, visando a
extenso do tempo til da temporada de vero, j que, at ento, a temporada de
frias s comeava no dia 1 de janeiro e ia apenas at o ltimo dia de carnaval.
Baseado nas decises desse encontro, o SETUR publicou o primeiro Guia de
Hotis de Praia e Serra do Rio Grande do Sul.
       Nas realizaes do SETUR, destacam-se as festividades que comearam
a movimentar o interior do estado, como a 2 Festa das Hortnsias, em Gramado,
no ano de 1961 e o 1 Festival da Serra, em Canela, em 1962. Ambos foram
organizados pelos seus recm-fundados Conselhos Municipais de Turismo, sob
patrocnio do SETUR. Surgiu em 1963 a Festa do Pssego, na cidade de
Pelotas; a 1 Festa do Milho, em Guapor; a Festa das Rosas, em Sapiranga,
assim como, em Novo Hamburgo, a FENAC  Festa Nacional do Calado, at
hoje reconhecida mundialmente.



                                                                                                27
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


       No setor rodovirio, atravs do DAER, foram completadas, em 1960, a
estrada Porto Alegre  Tramanda, que veio a trazer impulso ao turismo no litoral
gacho; em 1961, as rodovias Pelotas - Jaguaro e Quinto  Santa Vitria do
Palmar, como tambm as ligaes Nova Petrplis  Canela  Gramado e
Farroupilha  Caxias do Sul. Um ano depois, foi finalizada a estrada Gravata 
Taquara  So Francisco de Paula, at ento sem asfalto.
       A inaugurao de parques tambm ganhou destaque naqueles quatro
anos, ao iniciar-se a construo do Parque Estadual de Turismo de Caracol, em
Canela, com a desapropriao dos primeiros 29 hectares da rea onde se situa a
cascata, contando com o planejamento urbanstico dos arquitetos Marcos
Heckmann e Miguel Pereira. O primeiro passo para o Parque Estadual de Torres,
dcadas depois fundado como Parque da Guarita, ocorreu quando o Conselho
Estadual de Turismo declarou de utilidade pblica a rea, em Torres, que
compreende os morros  beira-mar, a praia e o rochedo da Guarita. Pouco
depois o SETUR obteve a desapropriao de parte dessa rea, alm de firmar
convnio com a SAPT para a realizao das primeiras obras de urbanizao na
Torre do Farol e na Torre do Meio. Mas o projeto e a realizao que veio a
marcar a gesto de Oswaldo Goidanich, no SETUR, foi o Parque Zoolgico
Estadual, situado em Sapucaia do Sul. O prprio Goidanich recorda os fatos:

                       Foi naquela ocasio, mais precisamente na primeira semana de
                       fevereiro de 1959, quando sobrevovamos o Horto Florestal da
                       Viao Frrea, em Sapucaia, com destino a Canela, que Brizola,
                       encantado com a beleza daquele imenso espao verde, disse-
                       me, num rpido comentrio, que a rea lhe parecia ideal para se
                       criar ali um Zo. E nunca mais tocou no assunto. Quase trs
                       anos depois, a 28 de fevereiro de 1961, Leonel Brizola chamou-
                       me ao seu gabinete de trabalho, no Palcio Piratini, para dizer
                       que estava me nomeando para presidir um grupo de trabalho
                       encarregado de estudar, projetar e organizar o Jardim Zoolgico
                       do Rio Grande do Sul. Estupefato, pois nem me lembrava mais
                       daquela sua ligeira observao, feita de passagem a bordo de
                       um avio, vi-me a braos  eu e meus companheiros de trabalho,
                       Harry Schultz, da VARIG, e o agrnomo Edmundo Arnt Netto 
                       com a rdua e indita tarefa de transformar o Horto Florestal de
                       Sapucaia no Zo oficial do estado. Ainda por cima, com prazo
                       fatal para conclu-la: Brizola desejava que a inaugurao do Zo
                       fosse a 1 de maio de 1962, ltimo ano do seu governo. Era o
                       seu presente s crianas do Rio Grande do Sul.

       Oswaldo Goidanich deixou a direo do SETUR no dia 31 de maro de
1963, aps a eleio do governador Ildo Meneghetti, retomando, assim, mais

28
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



intensamente, suas atividades no Touring. Alm daquelas realizaes j citadas
na gesto 1959/1963 do SETUR, muitos outros projetos foram concludos,
encaminhados ou preparados para as gestes seguintes os concretizarem.
       Ao final da gesto de Goidanich  frente do SETUR, fica uma concluso: o
poder pblico no s pode atuar bem no desenvolvimento do turismo quando
bem administrado, como tambm traz perspectivas ainda maiores quando atua
em parceria com o poder privado.


C) Binio da Colonizao e Imigrao


       A dcada de 1970 trazia algumas alteraes naturais para um pas que j
encarava o turismo como atividade indispensvel para o seu desenvolvimento
socioeconmico. Ainda em 1967 acontecia o 1 Encontro Nacional de Turismo,
organizado pela EMBRATUR (Empresa Brasileira de Turismo). Esta mesma
entidade criaria a SUDESUL  Superintendncia de Desenvolvimento da Regio
Sul, assumindo os encargos para o desenvolvimento do Plano Regional de
Turismo. O turismo j era reconhecido como a indstria sem chamins, fator que
envolvia aspectos como planejamento de infra-estrutura, relacionando setores
como marketing e outras atividades de promoo do produto turstico.
       No mbito regional, o SETUR foi extinto em 23 de julho de 1971, aps
gestes malsucedidas, cedendo lugar  Secretaria de Turismo, aps o ento
governador Euclides Triches assinar a Lei n. 6237. A Secretaria se dividiria em
trs reas: o SETUR (Servio Estadual de Turismo); a CITUR (Comisso
Intersetorial de Turismo), rgo de apoio e de assessoramento integrado; e a
CRTUR (Companhia Rio-Grandense de Turismo), com o objetivo de elaborar
trabalhos para o SETUR.
       No ano de 1972 criou-se o Curso Superior de Turismo da Pontifcia
Universidade Catlica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o terceiro no pas, alm
da fundao da EPATUR - Empresa Porto-Alegrense de Turismo, para o
incentivo oficial do turismo na capital gacha. Um ano depois era inaugurado o
Hotel Plaza So Rafael, o primeiro hotel cinco estrelas do estado. Resumindo, o
Rio Grande do Sul, atravs de iniciativas pblicas e privadas, cada vez mais




                                                                                                29
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


investia em turismo, alm de contar crescentemente com profissionais
capacitados para o empreendimento de projetos.
       Nessa mesma dcada de 1970, datas importantes aconteceriam para a
preservao da cultura rio-grandense, fatos estes apropriados para a explorao
pelo turismo e reas afins. No ano de 1974, era comemorado o sesquicentenrio
da imigrao alem para o estado, enquanto que, em 1975, relembrava-se o
centenrio da imigrao italiana. Como a poltica de preservar as razes culturais
do estado j se estendia por alguns anos (desde o tradicionalismo dos CTGs at
as comemoraes da Revoluo Farroupilha e o aniversrio de Porto Alegre), foi
criado um projeto que buscasse, nessas duas datas, um elo de ligao
responsvel por uma srie de eventos que tivessem em comum um mesmo
elemento: a exposio das diversas etnias como formas representativas do
multiculturalismo gacho.
       Esse projeto se transformou no decreto n. 22.410, de 22 de abril de 1973,
pelo qual se institui o Binio da Colonizao e Imigrao e d outras
providncias. Em discurso pela instalao do Binio, o ento governador do
Estado, Euclides Triches, destacou a importncia desse projeto:

                       Queremos reavivar a lembrana e exaltar os feitos dos
                       desbravadores, especialmente para as novas geraes, para as
                       crianas, para os jovens, aos quais entregaremos um dia o Rio
                       Grande. Queremos mostrar que os seres humanos passam, mas
                       permanece indelvel o ideal de construir uma civilizao slida e
                       sadia e que vise, acima de tudo, o bem-estar da pessoa humana,
                       a sua formao e a sua realizao plena.

       Surgia assim o Binio da Colonizao e Imigrao, um superevento, com a
durao de dois anos, constitudo por vrias comemoraes, festividades,
exposies e concursos, visando os aniversrios de imigrao das mais diversas
etnias. O evento tinha como membros integrantes da Comisso Coordenadora,
Victor Faccioni, seu presidente; Ruy Remi Rech, vice-presidente; Oswaldo
Goidanich, coordenador geral e Ernesto Cros Valdez, atuando na coordenao
executiva. No entanto, o Binio viria a se dividir em diversas comisses, cada
uma delas subdividida em diferentes tipos de eventos. Foram elas:
       I - Comisso de Honra
       II - Comisso Coordenadora
       III - Comisso Executiva das Comemoraes Luso-Brasileiras


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



        Subcomisses: Festividades; Assuntos Culturais; Assuntos Histricos;
Relaes e Intercmbio; Comit de Imprensa
        IV  Comisso Executiva dos Festejos de Sesquicentenrio da Imigrao
Alem
        Subcomisses: Festividades; Assuntos Histricos e Culturais; Relaes e
Intercmbio; Comit de Imprensa
        V  Comisso Executiva para as Comemoraes do Centenrio da
Imigrao Italiana
        Subcomisses: Festividades; Assuntos Histricos e Culturais; Relaes e
Intercmbio; Comit de Imprensa
        VI  Comisso Executiva de Homenagem s correntes imigratrias
        Esta ltima comisso era composta por dez Grupos de Trabalho:
Argentina, Espanha, Estados Unidos, Frana, Gr-Bretanha, Israel, Japo,
Pases rabes, Polnia e Uruguai.
        VII  Comisso Executiva para programaes esportivas
        VIII  Comisso Executiva de Homenagem ao Negro
        Subcomisses: Festividades; Assuntos Histricos e Culturais; Relaes e
Intercmbio; Comit de Imprensa
        IX  Comisso Executiva de Homenagem ao ndio
        Somente nestas comisses e subcomisses, centenas de pessoas
estiveram mobilizadas para a concretizao do Binio, tendo a Comisso
Executiva, atravs da coordenao de Oswaldo Goidanich como seu organizador
interno, elaborado um organograma e um plano de trabalho conjunto. Eis
algumas das iniciativas da comisso executiva para a organizao do evento:
    recepo, anlise e apreciao de toda correspondncia oficial da
        Comisso Executiva;
        promoo de distribuio de cartazes, folhetos e demais materiais de
        divulgao dos festejos, com responsabilidade quanto a sua entrega ou
        remessa;
        recepo a personalidades e convidados oficiais da Comisso, bem como,
        dos artistas, conjuntos orquestrais, jornalistas e fotgrafos vindos do pas e
        do exterior;




                                                                                                31
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


        organizao dos servios de hospedagem e alimentao dos visitantes,
        fazendo a seleo dos hotis e restaurantes;
        organizao dos servios de transporte urbano ou intermunicipal;
        elaborao das relaes e fichrios de visitantes, crachs, inscries e
        outros elementos para sua identificao;
      manuteno de um quadro de datilgrafos, arquivistas, recepcionistas
        bilnges e mensageiros;
        participao do Coordenador Geral ou seus pressupostos em todas as
        reunies realizadas pela Comisso Executiva e pelas Subcomisses,
        fornecendo elementos de informao, esclarecimento e outros;
        distribuio  imprensa, rdio e televiso, de todo o noticirio oficial da
        Comisso Executiva ou de responsabilidade do seu Comit de imprensa;
        Era vista, como prioridade para os festejos, a manuteno de contatos da
comisso organizadora com representantes estrangeiros, naturais dos pases
homenageados, no s para os convites, como tambm para a divulgao dos
eventos. Sendo assim, o governador Euclides Triches designou Oswaldo
Goidanich como representante da comisso para o estabelecimento de contatos
com a Alemanha, Itlia, ustria e Portugal. Com esta nomeao Goidanich
realizou constantes viagens a esses pases durante aqueles dois anos, mantendo
contato com as mais diversas reas, desde confirmaes para apresentaes
musicais, como a da Orquestra de Cmara "Salzburg Solisten" da ustria,
passando por exposies, mostras e aquisies, como a rplica da Piet para a
igreja de So Pellegrino em Caxias do Sul, at relaes comerciais, como
aquelas com as Cmaras de Comrcio do Vneto e de Vicenza, alm dos bancos
Nazionale del Lavoro, de Roma, e Commerciale Italiana, de Milo.
        O resultado do empenho da comisso organizadora pde ser observado
na programao do evento. Tendo-se em mente que os festejos durariam dois
anos, estava claro que, ao menos o Sesquicentenrio da Imigrao Alem, em
1974 e, o Centenrio da Imigrao Italiana, em 1975, seriam os momentos com
maior concentrao de atividades.
        Sendo assim, a primeira grande celebrao teve o seu incio ainda em
1973, com a reunio do Cnsul Geral da Repblica Federal da Alemanha e os
membros das comisses do Binio, visando medidas imediatas para um amplo


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



programa de comemoraes, at o dia 21 de dezembro de 1974, com seu
encerramento oficial atravs da inaugurao do Monumento Estadual do
Sesquicentenrio da Imigrao Alem, em So Leopoldo. Esta etapa do Binio
tinha Rodolpho Englert como presidente da Comisso Executiva, e contava com
os mais diversos integrantes nos mais variados setores de atuao. Sendo o dia
25 de julho a data magna do Sesquicentenrio da Imigrao Alem, foi
promovida, naquela dia, em So Leopoldo, uma cerimnia que reproduzia a
chegada dos primeiros imigrantes alemes s margens do Rio dos Sinos e, em
Novo Hamburgo, ocorreu a inaugurao da Sesquibral  Exposio do
Sesquicentenrio da Imigrao Alem, com a finalidade de mostrar a evoluo
das empresas e a contribuio dos imigrantes alemes e seus descendentes
para o desenvolvimento brasileiro. Esses dois eventos, que foram os pontos altos
das festividades, contaram com a presena do Presidente da Repblica, Ernesto
Geisel, e o Governador do Rio Grande do Sul, Euclides Triches, alm de
ministros, senadores, deputados federais e estaduais, secretrios de estado e
outras altas autoridades. O evento ainda apresentou festejos esportivos,
envolvendo atividades relativas a esportes como hipismo, ginstica e atletismo.
Em setembro foi realizado o 1 Simpsio de Histria da Imigrao Alem no Rio
Grande do Sul, em So Leopoldo, assim como encontros com empresrios
alemes, contando, entre estes, com a Confederao Alem da Indstria.
Ocorreu, tambm, o lanamento do selo comemorativo do Sesquicentenrio da
Imigrao Alem, alm de concursos, promoes e apresentaes artsticas,
entre outros. Ao final das festividades Rodolpho Englert fez um discurso em que
ressaltou a potencialidade deste tipo de evento:

                         Realizando-se dentro do Binio da Colonizao e Imigrao, o
                         Sesquicentenrio da Imigrao Alem se constituiu,
                         indiscutivelmente, na maior promoo que o Rio Grande do Sul
                         j teve, em especial da Repblica Federal da Alemanha. Nosso
                         estado foi visitado por homens pblicos, jornalistas, professores,
                         cientistas, empresrios, artistas, tcnicos, esportistas, estudantes
                         e simples turistas. Para a maioria, era um novo mundo que se
                         abria, mostrando-se surpresos com a nossa realidade, confiantes
                         com as nossas potencialidades e cativados com a hospitalidade
                         do nosso povo.

       No ano seguinte ocorria o Centenrio da Imigrao Italiana. Contando com
Ottoni Zatti Minghelli como presidente da Comisso Executiva, a abertura oficial


                                                                                                33
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


do evento ocorreu em 7 de janeiro de 1975. Como partes integrantes do evento
realizaram-se a Festa da Uva, em Caxias do Sul e a Festa Nacional do Vinho, em
Bento Gonalves, assim como o Simpsio talo-Sul-Americano de Viticultura e
Enologia, com a participao de trs especialistas italianos. Abrindo o ciclo de
estudos sobre a imigrao, ainda raros at ento, ocorreu o Seminrio de Histria
da Imigrao Italiana, em Porto Alegre, e o I Frum de Estudos talo-Brasileiros,
em Caxias do Sul, atravs da Universidade de Caxias do Sul.
       Destacam-se ainda as exposies sobre a vida e a obra de Angelo Guido,
no setor de artes plsticas, alm da Mostra de Cinema Italiano, organizado pelo
Clube de Cinema de Porto Alegre, e a I Mostra Fotogrfica sobre a Regio
Italiana. Quanto a apresentaes, promoveu-se em maio daquele ano, a "Noite
de Integrao talo-Brasileira pela Msica e pelo Folclore", em Porto Alegre; o "IV
Festival da Cano Popular Italiana", em Nova Prata, assim como a apresentao
dos conjuntos de cmara "Solisti Aquilani" e "I Musici", ambos vindos da Itlia. O
ponto culminante do Centenrio ocorreu no dia 20 de maio, em Nova Milano,
ento distrito de Farroupilha. No dia anterior chegava ao estado a Delegao
Oficial do Governo da Itlia s Festas do Centenrio, contando com ministros,
senadores e conselheiros da regio do Vneto. No dia 20, com a presena do
Presidente da Repblica, Ernesto Geisel, e demais autoridades brasileiras e
italianas, foi lanada a pedra fundamental do Parque Monumento do Centenrio,
sucedido pelo hasteamento das bandeiras da Itlia, do Brasil e do Rio Grande do
Sul. Um dia depois era inaugurado em Garibaldi o busto de Giuseppe Garibaldi,
oferta do governo italiano.     Em nmeros, a festividade trouxe 12 jornalistas
italianos, que documentaram as promoes do Centenrio, e mais de 500
empresrios oriundos de diferentes regies da Itlia. O encerramento oficial das
festividades ocorreu no dia 13 de dezembro de 1975, presidida pelo Governador
do Estado, Sinval Guazelli, contando com a participao do Presidente Regional
da Provncia do Vneto, Angelo Tomelleri. Naquela solenidade foram
inauguradas uma rplica do Leo de So Marcos e uma gndola original, vinda
de Veneza.
       Como atividades que celebraram outras etnias, no ano de 1974, destacou-
se a Semana rabe, organizada pela Comunidade Srio-Libanesa Rio-
Grandense, entre 23 e 30 de setembro, com a inaugurao da Praa Jorge
Mansur Bastiani, a visita dos embaixadores rabes acreditados no Brasil e a

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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



instalao de cursos para o ensino do idioma rabe. O perodo espanhol, de 5 a
14 de outubro, teve na sua programao um Festival de Documentrios
Cinematogrficos e a visita do embaixador da Espanha no Brasil, Don Jos Perez
del Arco, tendo como ponto culminante a inaugurao de um busto de Miguel de
Cervantes, na PUCRS,  frente do Instituto de Cultura Hispnica do Rio Grande
do Sul. A Homenagem ao Negro ocorreu de 6 a 31 de outubro, com a eleio da
Rainha "Boneca Caf" das festividades; visita dos embaixadores da Costa do
Marfim, Zaire e Nigria, alm da exposio de bibliografia, documentos e objetos
relacionados ao negro no Rio Grande do Sul, realizada no Palcio Farroupilha.
J a participao inglesa contou com um concerto da "Northern Sinfonia
Orchestra"; a Frana promoveu a inaugurao da Praa Marselhesa; a
participao do Uruguai se deu atravs da promoo da Semana do Uruguai,
com inaugurao de uma exposio com as obras do pintor Jorge Paes Villar,
entre outras atraes.
       Ainda em 1975 festejou-se o Centenrio da Imigrao polonesa. Para esta
celebrao foram organizados Grupos de Trabalho em cidades como Erechim e
Dom Feliciano durante a preparao do evento, que aconteceu desde 1974 e
continuou at novembro do ano seguinte. Foi promovida tambm a Semana do
Japo, com exibio de filmes e danas folclricas no Auditrio do Palcio
Farroupilha em Porto Alegre, alm da implantao da "Alameda das Cerejeiras",
no Parque Zoolgico de Sapucaia do Sul. Celebrando 70 anos de fixao no
estado, a Comunidade Israelita do Rio Grande do Sul se destacou com a visita do
Coral do Instituto Israelita Brasileiro do Rio de Janeiro, com 150 participantes, e
do embaixador de Israel no Brasil, Mordechai Schneierson. Atuando desde
meados de 1974 at dezembro do ano seguinte, a Comisso Executiva de
Homenagem ao ndio contou com o apoio de entidades como os Museus
Arqueolgico e Antropolgico, existentes em Santa Cruz do Sul, Iju, Carazinho e
Rio Pardo, entre outros, para celebraes espalhadas pelo estado, finalizando
com a edio da obra Econografia potica do ndio no Rio Grande do Sul.
       O Binio da Colonizao e Imigrao tambm realizou diversos concursos
em conjunto com o Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria da
Educao e Cultura, dividindo-os enquanto Concurso de Monografia sobre a
Colonizao Luso-Brasileira; sobre a Imigrao Alem; sobre a Imigrao
Italiana; sobre a Colonizao e Imigrao em geral; sobre a influncia do negro

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no estado, etc. Tambm foram realizados os Prmios de Fico e de Poesia
"Binio da Colonizao". Em conjunto com a Orquestra Sinfnica de Porto Alegre,
a Comisso Central do Binio realizou o Concurso de Composio Musical
"Binio da Colonizao e Imigrao". Vale destacar que todos os concursos e
premiaes distribuam prmios em dinheiro para as trs primeiras colocaes.
       Ao final de mais de dois anos de mobilizao, levando-se em conta
contratos, negociaes, reunies e tantos outros aspectos que mobilizaram
centenas de pessoas em mbito regional, nacional e internacional, ficou o
registro de um estado que, ao buscar conservar suas origens culturais, atraiu
muitos outros interesses socioculturais ao redor do continente e do mundo. Basta
lembrar depoimentos como o de Victor Faccioni, presidente do Binio da
Colonizao e Imigrao, no seu discurso de encerramento das festividades.

                       O Binio foi a oportunidade eloqente de se afirmar, de pblico,
                       aquilo que sempre esteve no sentir de todos os rio-grandenses.
                       Foi, tambm, um movimento eminentemente dinmico e criador,
                       motivando as reas mais diversas que dizem no somente com a
                       pesquisa histrica, o culto  tradio, o estudo atento da nossa
                       formao e do nosso desenvolvimento, mas, sobretudo, com a
                       abertura de novas perspectivas ao nosso progresso e ao nosso
                       enriquecimento socioeconmico e cultural.


D) Oswaldo Goidanich e a EMBRATUR


       Em 1979, ao se aposentar do Touring Club e do servio pblico, alm de
renunciar dois anos depois  presidncia da OSPA, Oswaldo Goidanich chegava
a uma nova etapa de sua vida. Sem assumir mais tantos compromissos
profissionais simultaneamente, ele anunciava, no dia 6 de janeiro de 1981, sua
contratao pela EMBRATUR  Empresa Brasileira de Turismo, onde atuou nos
dois primeiros anos como diretor-adjunto de planejamento, de nvel A e, de 1983
em diante, como consultor tcnico da Presidncia, de Nvel B.
       Como realizaes nesse ofcio, destaca-se, em 1982, numa de suas visitas
de trabalho ao Rio Grande do Sul, um levantamento que Goidanich fez do
patrimnio histrico da capital gacha, visando a implantao de um Centro de
Eventos. Nesse estudo defendeu o aproveitamento da antiga Usina do
Gasmetro, at ento desativada e abandonada, mas localizada num ponto
estratgico da cidade:

36
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier




                         Com o eventual aproveitamento da Usina do Gasmetro,
                         propicia-se um passo importante para devolver o rio ao uso da
                         populao e do turismo. O Centro de Eventos ser naturalmente
                         o ponto de embarque e desembarque dos passeios tursticos
                         fluviais que percorrem o belssimo esturio do Guaba e o delta
                         do Jacu e que se constituem numa das principais atraes
                         tursticas de Porto Alegre.

       Anos mais tarde a Usina do Gasmetro viria a se tornar um centro turstico
e cultural referencial para Porto Alegre, alm de vrios outros projetos que ainda
no se concretizaram, visando locais que se encontram no entorno da Usina do
Gasmetro.
       Alcanando a metade da dcada de 1980, Goidanich, ao deixar a
EMBRATUR, resolveu se afastar da vida pblica enquanto profissional. No setor
de turismo, deixava como herana meio sculo de dedicao ao desenvolvimento
turstico regional e nacional, atuando tanto em rgos pblicos quanto privados,
alm de ser nome sempre presente na realizao de eventos e projetos sobre
turismo. Em funes e cargos os mais variados, desde atendente de servios
tursticos, passando por gerente, diretor e consultor, mostrou, ao longo dos anos,
domnio e viso sobre o turismo e as suas potencialidades. Como mostra das
suas propostas, destaca-se uma palestra feita no dia 22 de julho de 1982, para a
Escola Nacional de Informao, no Rio de Janeiro, em que exps os
condicionamentos para uma poltica nacional de turismo:
       Condicionamento cultural: exprime-se pela subordinao de todos os
       programas de amparo ao turismo  poltica de preservao do patrimnio
       cultural, artstico, documental, paisagstico e natural do pas;
       Condicionamento social: caracteriza-se pela presena de uma forte
       dimenso social em todas as suas manifestaes. Os resultados atingidos
       sero tanto mais profundos e duradouros quanto maior for o contedo
       social dos programas  em termos de abrangncia dos valores a difundir e
       da democratizao do seu acesso;
       Condicionamento econmico: significa projetos e programas tursticos
       que devero ativar e dinamizar os empreendimentos que existem no setor,
       com amplo apoio ao comrcio,  hotelaria,  produo especializada e
       artesanal, aos transportadores, s agncias de turismo e a quaisquer
       outras iniciativas vlidas no setor, privadas ou pblicas.


                                                                                                37
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       Goidanich ainda defendeu, como objetivos para a poltica nacional de
turismo, o desenvolvimento do turismo interno, o estmulo ao turismo vindo do
exterior para o Brasil e a preservao do patrimnio cultural e natural do pas,
atravs de nove polticas: proteo do patrimnio natural; divulgao e promoo
dos valores culturais; incentivo ao turismo interno; estmulo ao turismo receptivo;
poltica de promoo; poltica de recursos humanos; poltica de apoio  entrada
de divisas; apoio  hotelaria de turismo; apoio s agncias de viagem e
transportadoras tursticas. Ao defender a "harmonizao da ao governamental,
nos seus trs nveis (federal, estadual e municipal), com a do empresariado
brasileiro, eis que surge o produto turstico mais fortalecido enquanto promoo".
       Idias como estas fizeram dos cinqenta anos de dedicao ao turismo,
por   parte   de   Goidanich,   um    acelerado   processo   de   modernizao   e
conscientizao do turismo enquanto atividade socioeconmica e cultural. O que,
nos primrdios dos anos 1930 e 1940, era uma novidade, com Goidanich e a sua
gerao de colegas pioneiros no turismo gacho, foi tendo ampliado o seu status
como atividade profissional. Os anos 1970 e 1980 aparecem como um essencial
complemento e evoluo s iniciativas que fizeram do Rio Grande do Sul um
estado com conscientizao turstica.
       Com isto, as congratulaes e homenagens  atividade profissional de
Goidanich, no setor, vieram como conseqncia natural. Em 1972, foi eleito
membro de um seleto grupo de vinte cadeiras na Academia Brasileira de
Turismo, sendo que, quatro anos depois, em decorrncia do Binio da
Colonizao e da Imigrao, recebia do governo italiano a condecorao de
"Cavaleiro Oficial do Mrito da Itlia". Foi ainda paraninfo em duas formaturas na
Faculdade de Turismo da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul
nos anos de 1977 e 1982, recebendo, inclusive, o diploma "Amigo" da PUCRS,
em 1992. Naquele mesmo ano recebia tambm o ttulo de Patrono do Turismo
Rio-Grandense. Eram reconhecimentos a um homem que, quando adolescente,
no tivera intenes em atuar profissionalmente no turismo, mas que acabara por
dedicar toda a sua vida e as suas iniciativas a esta atividade, consciente de que
este era um campo de extraordinrio potencial de desenvolvimento.




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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



3. OSWALDO GOIDANICH E O JORNALISMO


       No ano de 1937 Oswaldo Goidanich completava a sua segunda temporada
como funcionrio da seo do Touring Club no Rio Grande do Sul. Ao mesmo
tempo em que, j naquela poca, envolvia-se na organizao das corridas de
automobilismo pelas ruas da capital, tambm comeava a ter um primeiro contato
direto com o jornalismo. Desde 1935 Goidanich escrevia para e editava a Revista
do Touring, no Rio Grande do Sul. Na revista encontram-se registros
devidamente documentados sobre as realizaes deste rgo turstico que, a
pouco mais de dois anos da sua fundao, j desenvolvia no estado uma srie de
atividades de integrao social.
       Outra questo que fez do jornalismo um setor presente na juventude de
Oswaldo Goidanich data do final de 1934 e vero de 1935, ao terminar o ginsio
no Colgio Anchieta. Seu pai, Quintino Goidanich, possua uma penso na Rua
Riachuelo. Bastante conhecida, no s pela rua ser referencial das penses em
Porto Alegre naquela poca, mas tambm por fazer parte do centro da cidade,
que ento se resumia ao espao fsico entre a Praa da Matriz e a Praa da
Alfndega, a penso de Quintino hospedava um grande nmero de jornalistas
solteiros. Nomes como Carlos Reverbel, Ado de Souza e Rubem Braga, entre
outros que trabalhavam no Correio do Povo, Folha da Tarde e Dirio de Notcias
hospedavam-se na penso do pai de Goidanich, o que fez com que o jovem,
recm-sado do perodo ginasial, mantivesse contatos com jornalistas que, mais
tarde, surgiriam como grandes nomes na histria da imprensa gacha e nacional,
sendo alguns deles seus futuros colegas na profisso.
       No entanto, o primeiro emprego de Oswaldo Goidanich na imprensa no
aconteceu em decorrncia da sua breve atividade jornalstica, mas sim, atravs
das suas realizaes no turismo. Em maio de 1937 Goidanich foi contratado pelo
jornal O Estado do Rio Grande para ser cronista esportivo, como ele prprio
esclarece:

                         Atravs do turismo  que me encaminhei para o jornal. Bom, o
                         Touring funcionava na Rua dos Andradas, onde hoje  a Casa de
                         Cultura Mrio Quintana e, a quatro casas adiante, funcionava O
                         Estado do Rio Grande. Eu tinha j bastante atividades esportivas
                         nessa poca e o Luis Pinto Chaves Barcellos, que na poca
                         tinha feito uma ciso no esporte, criando as Ligas


                                                                                                39
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       Especializadas, por discordar da Confederao Brasileira dos
                       Esportes, precisava da imprensa que o apoiasse. Como ele era
                       libertador e grande benemrito de O Estado do Rio Grande, me
                       pediu se eu poderia assumir a posio de jornalista de esportes
                       do jornal. A, entrei como cronista esportivo n'O Estado do Rio
                       Grande, em 1937.

       O seu emprego em O Estado do Rio Grande no durou mais do que
quatro meses. Aps o anncio do Golpe de Estado, proclamado pelo ento
Presidente da Repblica, Getlio Vargas, no dia 10 de novembro de 1937, surgia
o Estado Novo, com uma srie de represses que diziam respeito  liberdade de
expresso em vrios setores da sociedade, incluindo diretamente as empresas
jornalsticas.

                       Cheguei no jornal de manh, e ao chegar, todo mundo estava
                       reunido, ningum trabalhava. Tinha havido o Golpe de Estado, o
                       chamado Estado Novo. Eu perguntei O que  que est havendo?
                       e um colega Os homens (militares) esto a reunidos com o Dr.
                       Peres e o Dr. Mem de S. Todo mundo estava na expectativa,
                       at que, s dez horas da manh, aparece o Mem de S, que era
                       o secretrio geral (o Peres era o diretor) e ento ele disse:
                       Companheiros, O Estado do Rio Grande no vai sair hoje e
                       talvez to cedo no volte a circular. Os senhores voltem s suas
                       residncias. A, depois, eu soube o que tinha acontecido. Os
                       homens tinham estado l e queriam ler o editorial do Raul Pilla.
                       O Raul Pilla disse: Os senhores me do muita honra por esse
                       interesse pelo editorial, mas os senhores aguardem um pouco
                       porque ns pretendemos rodar o jornal s 11h e 30 min, devido 
                       importncia dos ltimos acontecimentos que esto ocorrendo. E
                       eles: Mas o senhor no entendeu bem. Ns no queremos ler o
                       seu editorial no jornal, ns queremos ler o editorial antes de ser
                       publicado no jornal. E o Pilla: Bem, mas eu no posso fazer isso,
                       porque seria uma desconsiderao com os demais leitores, que
                       esperam para ler o editorial quando o jornal  publicado. A os
                       homens disseram: Mas o senhor no entendeu, se ns no
                       lermos o editorial, o jornal no sai. E ele: Ento, os senhores
                       podem ir embora, porque o jornal no vai sair.

       No dia 10 de novembro de 1937 O Estado do Rio Grande no foi
publicado, vivendo assim vrios anos de incerteza. Oswaldo Goidanich, ao ser
entrevistado por Flvio Alcaraz Gomes, na TV Guaba, no ano de 1993, disse ter
imaginado que a sua carreira de jornalista terminasse ali. O Brasil perdeu a
liberdade e eu perdi o meu emprego, afirmou.
       Goidanich s voltaria a trabalhar na imprensa em 1940, mais de dois anos
depois da extino do jornal O Estado do Rio Grande. Ao encontrar Damasso
Rocha, na Rua da Praia, Goidanich escutou o pedido do jornalista de que


40
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



precisava dele para a redao do jornal A Nao. Aceitando a proposta, ele foi
ento para o jornal A Nao e atuou durante um ano e meio como redator, ao
lado de nomes como Josu Guimares, Ernesto Cruz Valdez, Joo de Souza
Ribeiro e Frederico Renato Mota, considerados como os novos nomes da
vanguarda na imprensa gacha.
       Porm, um fato seria decisivo para o seu destino no jornal:

                         Depois que se terminava o servio da redao, de noite, eu e o
                         Josu Guimares ficvamos fazendo brincadeiras na redao
                         com as fotos dos acontecimentos do dia. O Josu gostava muito
                         disso, abrir um box sobre uma pessoa e botar uma frase
                         humorstica. Ele depois explorou muito isso no Jornal do Xicote.
                         Numa noite, ns tnhamos uma foto qualquer onde estava o
                         Arcebispo Dom Joo Becker com o governador da poca. Ele
                         botou umas frases divertidas naquele box e fomos embora.
                         Algum achou aquilo e levou para o Cnego Sartori, que era a
                         iminncia parda do jornal. No outro dia, me disseram, eu j
                         estava h quase trs anos l, Senhor Goidanich, ns temos
                         muito apreo pelo seu trabalho, o senhor trabalha muito bem,
                         mas acontece que numa reunio ontem na Cria, decidiu-se que
                         a partir de hoje, no jornal A Nao, s vo trabalhar catlicos
                         praticantes, de maneira que o senhor vai ser dispensado.

       Ao serem dispensados do jornal, Goidanich e Josu logo em seguida
foram para a Confeitaria Central no Largo dos Medeiros, na Rua da Praia, ponto
de encontro de intelectuais e estudantes. Quando saram da Confeitaria, j
estavam novamente empregados, desta vez, no Dirio de Notcias, atravs de
Said Marques, secretrio no jornal, meia hora depois das demisses de A Nao.
       Em duas entrevistas dadas, uma em 1989 para Ivete Brandalise na Rdio
FM Cultura, e outra em 1993 para Flvio Alcaraz Gomes na TV Guaba,
Goidanich cita com destaque o nome do jornalista Ernesto Correa, como o
homem que lhe ensinou praticamente tudo o que sabia hoje sobre jornalismo. Foi
nesse perodo no Dirio de Notcias que Goidanich adquiriu todo o aprendizado
que tanto atribua a Ernesto Correa.
       Permaneceu ali como redator, durante o perodo de um ano e meio,
quando decidiu se mudar para a Companhia Caldas Jnior, com uma proposta,
segundo Goidanich, irrecusvel de trabalho no Correio do Povo. Quando
Goidanich comunicou sua deciso para Ernesto Correa, este disse: Vai,
Goidanich, vai porque esta  a sina do Dirio de Notcias, preparar jornalistas
para o Correio do Povo.


                                                                                                41
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A) O Correio do Povo e Oswaldo Goidanich


                       A ressaca foi grande. A impresso acabou quase ao amanhecer
                       e os trs estavam exaustos. Mas, como se houvessem
                       combinado, apenas foram at em casa. Metade da manh j
                       estavam de volta, angustiados para conhecer as reaes do
                       pblico, dos colegas, dos primeiros leitores e tambm,  claro,
                       dos amigos e dos concorrentes (GALVANI, 1994, p. 49).

       Assim surgia a primeira edio da nova fase do jornal Correio do Povo,
que viria a fazer parte da at ento invencvel Companhia Jornalstica Caldas
Jnior. Fundado por Caldas Jnior, Jos Paulino de Azurenha e Mario Totta, o
Correio do Povo surgiu no ano de 1895, tendo como 1 de outubro a data da sua
primeira edio. Como ressalta Srgio Dillemburg, no livro Correio do Povo,
Histrias e memrias, o Correio do Povo aparecia num momento turbulento na
histria do Rio Grande do Sul, ainda sob os efeitos da Revoluo de 1893, finda
apenas um ms e oito dias antes do lanamento do jornal.
       O Correio do Povo comeava ento a fazer parte do cenrio jornalstico de
Porto Alegre, que inclua, dentre outros, o vespertino A Federao (do Partido
Republicano), A Gazeta da Tarde, o Jornal do Comrcio, O Mercantil, O Dia e A
Repblica. Ao articular a sua postura de neutralidade sobre os fatos, o jornal
liderado por Caldas Jnior foi crescentemente ganhando espao na imprensa
porto-alegrense, at vir a assumir o conhecido slogan que o identificava, o jornal
de maior tiragem e circulao do Rio Grande do Sul, surgido na edio do dia 1
de janeiro de 1899.
       Esclarecendo em nota de rodap no livro Correio do Povo, um sculo de
Poder a questo das tiragens, o jornalista Walter Galvani afirma que auditorias
de tiragem e institutos verificadores de circulao no existiam, mas naquele
tempo sabia-se que tonelagem de papel chegava para cada um dos
concorrentes. Era s fazer as contas.
       Comeava ali uma nova era no jornalismo porto-alegrense, a era da
imprensa independente e profissional. At se chegar ao ano de 1943, quando
Oswaldo Goidanich ingressou no jornal, o Correio do Povo teve que enfrentar
discusses pblicas com os demais concorrentes, encarar dificuldades
financeiras, assim como as trocas de sete diretores, a partir da morte de Caldas
Jnior, em 1913. Entre 1895 e 1943, de qualquer modo, construiu-se a histria de


42
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



um jornal que, at ento, prestes a completar o seu cinqentenrio, era visto
como o grande referencial de jornalismo impresso no Rio Grande do Sul.
       Isto foi um dos fatores para que Goidanich no hesitasse em ingressar na
Companhia Caldas Jnior, j no perodo em que Breno Caldas era seu diretor.

                         Eu tinha muito contato com o Correio do Povo pelo Touring,
                         atravs das corridas de automveis promovidas pela Folha da
                         Tarde, e o Sadi era um elemento-chave dessas corridas. Um dia,
                         ele me disse: Olha, Goidanich, vai l no Correio do Povo que o
                         Doutor Breno Caldas quer falar contigo. E eu disse: Tudo bem.
                         Ento, o Doutor Breno disse o seguinte: Oswaldo Goidanich, eu
                         gostaria que tu viesses trabalhar aqui conosco no Correio do
                         Povo. Eu estou precisando de um reprter de setor. Eu no sei
                         quanto tu ganhas no Dirio, o que eu posso te oferecer so 700
                         mil ris. Se tu quiseres vir, nos dars muito prazer. Eu disse:
                         Bom, no h nem o que discutir. Eu ganhava no Dirio de
                         Notcias 350 mil ris. Alm disso, chegar no Correio do Povo era
                         o momento maior na carreira de qualquer jornalista que atuasse
                         no meio. O Correio do Povo era o grande momento da vida da
                         gente.

       Foi ento que, a partir do dia 15 de janeiro de 1943, Oswaldo Goidanich
comeou a exercer o cargo de reprter de setor. Ele ainda viria a ser chefe de
reportagem e secretrio de redao, at o ano de 1960, quando assumiu a
gerncia durante sete anos.
       So conhecidas dentro do mundo jornalstico algumas reportagens suas
sobre fatos que marcaram a histria, como a que fez uma retrospectiva em 1945,
sobre os cinqenta anos da reportagem investigativa no Correio do Povo, como
parte das comemoraes do cinqentenrio do jornal. Intitulada "Cinqenta Anos
de Noticirio Emocionante nas Antigas Pginas do Correio do Povo", Goidanich
aborda, nesta reportagem de quatro pginas, desde o caso da freirinha do
convento do Carmo, de 1895, at o tufo que, em 3 de setembro de 1928,
abateu-se sobre Porto Alegre. Foi tambm o responsvel pela reportagem
especial sobre a inaugurao de Braslia como capital do pas, em abril de 1960.


B) Um novo desafio velho


       No ano de 1960 Oswaldo Goidanich deixou o cargo que ocupava na
redao, para assumir uma posio nova no seu histrico como jornalista, mas j
antiga na sua carreira profissional: a gerncia de promoes culturais. Na mesma


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poca de sua promoo, o nome de Goidanich j era referncia quanto  criao
de eventos que mobilizassem a sociedade. At ento, com mais de vinte anos
como funcionrio do Touring Club, e h um ano como diretor do Servio Estadual
de Turismo do Rio Grande do Sul, ele havia promovido, entre outras realizaes,
as corridas automobilsticas pelas pistas de rua de Porto Alegre, assim como o
incio da implementao do projeto de construo do Jardim Zoolgico do Rio
Grande do Sul. Em ambos os cargos, exerceu constantemente a funo de
idealizar eventos que consolidassem as entidades como promotoras culturais.
       A pedido do jornalista Alcides de Oliveira Gomes, para o diretor Breno
Caldas, Goidanich foi convocado para atuar na rea das promoes do Correio
do Povo. O objetivo era fazer promoes que aproximassem ainda mais o Correio
do Povo dos seus leitores. Para isso acontecer, manteve-se e ampliou-se o
"Concurso Correio/Folha", grande sucesso da Companhia Jornalstica Caldas
Jnior, que existia desde 1937. Unindo o matutino Correio do Povo e o vespertino
Folha da Tarde num nico evento, a empresa conseguiu se integrar ainda mais
ao imaginrio cultural da sociedade porto-alegrense.

                       A exuberncia econmica da Caldas Jnior botava na rua a
                       maior de todas as promoes que realizou em sua histria (...) O
                       Grande Concurso Popular Correio do Povo - Folha da Tarde era
                       um assombro: comeava com duas casas, com mveis,
                       geladeira, fogo e... rdio. O concurso envolvia o comrcio, que
                       procurava se estimular com a promoo. O cliente trocava suas
                       notas de compra pelo mesmo valor em cautelas do concurso
                       (GALVANI, 1996, p 64).

       Oswaldo Goidanich, ao assumir a redao do Concurso Correio/Folha,
chamou a ateno para um termo at ento desconhecido no meio jornalstico
gacho, mas que considerava ser uma atividade que  a mola vital de qualquer
negcio: o marketing. Esta atividade existia desde o incio do sculo XX quando
em 1900 a Michigan State University estabeleceu o primeiro curso sobre o tema.
Mas, cinqenta anos depois, Peter Drucker, com o livro Prtica de
administrao de empresas, hoje um best seller, teorizou e elevou o significado
do que  marketing como uma forma de articular idias inovadoras. Drucker
desenvolve o conceito do marketing moderno como sendo o considerar a
atividade a partir da postura do cliente e posicion-lo no centro dos esforos de
uma empresa.



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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       Ao encaminhar as idias para os projetos do Correio do Povo, Goidanich
comeou ento a executar uma srie de eventos que trouxeram retorno para a
Companhia, dentro dessa idia que se aproxima muito do conceito de marketing.
O prprio jornalista afirma:

                         O Concurso Correio/Folha funcionou com a inteno de
                         promover o jornal. Naqueles seis anos que ns fizemos o
                         concurso, realizamos uma srie de coisas. Por exemplo, o Dia
                         dos Namorados nasceu com o Concurso Correio/Folha. A Casa
                         Masson tinha lanado a aliana sem solda e precisava de uma
                         publicidade. Ento, se fez, atravs do Concurso, com as
                         cautelas, uma grande festa que eu apelidei de Dia dos
                         Namorados, dia dos coraes. Foi feita uma festa fabulosa no
                         Cinema Rex, que era ali perto do Correio do Povo, onde
                         sorteamos cinqenta pares de alianas sem solda para os noivos
                         que nos mandassem cupons, para ns sortearmos na hora.
                         Foi uma festa to fantstica esta que, terminadas as cinqenta
                         alianas, o Doutor Breno (Caldas) se entusiasmou e ofereceu
                         mais cinqenta alianas por conta do Correio do Povo. S que o
                         Concurso valia s para casais de noivos, s casais de noivos
                         entravam ali dentro e de repente, tnhamos uns 500 casais de
                         noivos. Ento, aqueles que ganhavam as alianas, naturalmente
                         as alianas eram latejadas pela sorte, aquilo era um prenncio
                         de um bom casamento. Mas aqueles casais que no ganhavam
                         ficavam tristes. Ento, o (Alberto) Pasqualini se entusiasmou e
                         deu mais cinqenta alianas por conta da Folha da Tarde.
                         Nasceu a o Dia dos Namorados em Porto Alegre, com o
                         comrcio comeando a promover vendas no Dia dos
                         Namorados.

       Ainda nesta poca, no decorrer da dcada de 1960, existia no prdio do
Correio do Povo um auditrio localizado no segundo andar, onde hoje se
encontra a Rdio Guaba, fundada em 1957. Nos praticamente dez anos em que
existiu, Oswaldo Goidanich explorou as capacidades do auditrio, ao comandar a
sua programao com eventos que mantinham o prdio bastante ativo,
culturalmente. Nesse local, realizaram-se diversas exposies de artes plsticas,
promovidas em conjunto com a Associao de Artes Plsticas Francisco Lisboa.
Foi tambm ali que se fundou o Clube de Cinema de Porto Alegre, no ano de
1948, aps encontros que aconteciam para exibies de filmes. Mas o auditrio
no se limitava ao campo das artes, como salienta Goidanich:

                         Outra coisa que ns fazamos era a Exposio de Orqudeas,
                         que era um acontecimento sensacional na vida da sociedade (...)
                         Aquele auditrio ficava repleto de orqudeas vindas de todos os
                         municpios em torno de Porto Alegre e as filas para ver as
                         orqudeas desciam as escadas do Correio do Povo,


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                       prolongavam-se pela Rua dos Andradas e seguiam at o quartel-
                       general, umas trs, quatro quadras depois.

       Oswaldo Goidanich voltou para o setor de redao do jornal em 1967
como substituto de Carlos Reverbel. Assim como em 1960, ele retornou sete
anos depois ao seu posto de redator, j com idias que, agora em conjunto com
Paulo Fontoura Gastal, atingiriam no s a intelectualidade gacha como
tambm, ainda mais, a produo cultural do Correio do Povo.


C) O "Caderno de Sbado"


       Desde o ano de 1899 o Correio do Povo incluiu diariamente, na sua linha
editorial, um espao para o setor cultural. Surgia no dia 1 de outubro daquele
ano, a seo "Poetas do Sul", reservada a informaes e publicaes de poetas.
No entanto, era apenas o comeo de um setor no jornal que marcou desde ento
a sociedade gacha.

                       Sem saber, inaugurava-se um procedimento que permaneceria
                       vivo por mais de 80 anos: tornar aquela Casa o recanto
                       adequado para os intelectuais do estado, as colunas daquele
                       jornal o canal permanente de lanamento, promoo e realizao
                       dos melhores talentos literrios do Rio Grande do Sul. Desde
                       ento, no haveria grande, mdio ou modesto escritor rio-
                       grandense que no houvesse, de uma forma ou de outra,
                       transitado pelas pginas do Correio. Assim foi com Manoelito de
                       Ornellas, Moyss Vellinho, Alcides Maya, Augusto Meyer, Raul
                       Bopp, Vianna Moog, Mrio Quintana e Erico Verissimo, ou
                       mesmo nos casos mais recentes, Luis Fernando Verssimo,
                       Moacyr Scliar, Assis Brasil, Arnaldo Campos, Laury Maciel,
                       Itlico Marcon, Carlos Nejar e tantos outros (GALVANI, 1994, ps.
                       90-91).

       A transformao do Correio do Povo em referncia na imprensa gacha
deve ser creditada, em boa parte, ao setor cultural do jornal. Aps ser
institucionalizado efetivamente na dcada de 1930, atravs dos suplementos
culturais e com uma poltica de incentivos para a publicao de textos da
intelectualidade gacha, o Correio do Povo comeava a marcar histria na vida
cultural rio-grandense.
       Uma das causas para a criao do suplemento cultural "Caderno de
Sbado", trs dcadas depois, foi decorrncia do desenrolar de geraes que
acompanhavam o Correio do Povo. Quando Oswaldo Goidanich saiu da gerncia

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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



para voltar  redao, ele logo assumiu a pgina literria do jornal, substituindo
Carlos Reverbel. Goidanich j tinha a inteno, naquela poca, de transformar a
pgina literria em um suplemento que se dedicasse s letras e s artes. At
ento, conseguira apenas a aprovao do diretor Breno Caldas para uma pgina
a mais nas edies de sbado, totalizando duas:

                         Mesmo assim, em minhas gavetas, iam se acumulando originais
                         que dariam para fazer as pginas por muitos e muitos anos. A
                         situao me preocupava, a maioria dos colaboradores se
                         queixava porque os seus trabalhos no eram publicados.
                         Paulo Fontoura Gastal, crtico de cinema e editor da pgina
                         diria de notcias culturais, sofria junto comigo. Gastal, apesar do
                         seu temperamento irascvel, escondia um corao de ouro e os
                         moos intelectuais confiavam nele (DILLEMBURG, 1997, p. 134).

       Na mesma poca, por volta dos anos 1960, o Correio do Povo comeou a
adotar o formato tablide, at ento indito, para um suplemento dedicado a
questes rurais, intitulado "Correio Rural", editado at o encerramento das
atividades do jornal. Enquanto isso permanecia a disposio em fazer igualmente
um outro suplemento, s que relacionado  cultura.

                         Gastal, Duarte (Jlio) e eu (Oswaldo Goidanich), resolvemos ir
                         ao Doutor Breno expor a idia do suplemento cultural. Ele a
                         acolheu bem, mas apontou obstculos intransponveis de ordem
                         tcnica: a edio dominical absorvia toda a capacidade da
                         oficina, a partir de sexta-feira. No havia como compor e encartar
                         um novo suplemento, aos sbados. E assim, sem aprovar nem
                         desaprovar, o Dr. Breno deixou a nossa proposio em banho-
                         maria (DILLEMBURG, 1997, p. 135).

       Passaram-se meses desde o pedido oficial feito pelos trs jornalistas. Mas,
ao chegar o ano de 1967, mais precisamente no final do ms de setembro, a
questo seria resolvida.

                         Meses depois, coincidiu que eu (Oswaldo Goidanich) entrasse no
                         elevador, indo da redao para o trreo, ao mesmo tempo que o
                         dr. Breno. Eu sempre disse que o elevador era o melhor lugar
                         para se resolver as coisas no Correio. Pois ali, o dr. Breno no
                         tinha mais do que doze segundos para tomar uma deciso, era o
                         tempo que se levava para ir do trreo ao primeiro andar ou vice e
                         versa [sic]. E no deu outra. Mal acionei o boto para descer, ele
                         se voltou para mim e anunciou: Goidanich, aquele suplemento de
                         vocs comea a sair no sbado.  Que sbado? Perguntei eu
                         perplexo. Estvamos numa quinta-feira, s onze horas da
                         manh, e eu tinha recm-terminado de fechar, na oficina, as
                         duas pginas literrias. Neste sbado. Fala com o Jlio Duarte


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                       e acerta tudo. Assim, sem mais nem menos. E abrindo ele
                       mesmo a porta do elevador, completou: - Sbado, depois de
                       amanh...
                       Eu nem desci. Voltei  redao como um foguete. Dei ao Gastal,
                       estatelado, a boa nova. E, em menos de 24 horas, tivemos de
                       fazer tudo. Partimos para a concepo editorial e grfica do
                       suplemento. Quanto ao nome a ser dado, preferimos o bvio:
                       "Caderno de Sbado". Desmanchei as pginas literrias j
                       prontas, aproveitei a matria, e aquela que dormitava nas minhas
                       gavetas comeou a ter vez. Os primeiros instantes foram de
                       pnico, logo transformado num crescente sentimento de alegria.
                       Meia noite, o suplemento estava definido, diagramado,
                       composto, paginado e pronto para a rotativa (DILLEMBURG,
                       1997, p. 135).

       A primeira edio despontou no dia 30 de setembro de 1967. Desde a sua
criao, atravs das mos de P. F. Gastal e Oswaldo Goidanich, o "Caderno de
Sbado" trouxe alguns fatores que norteavam a sua execuo editorial: no se
vinculavam propagandas no suplemento e a parte grfica seria sempre no
mesmo formato, para a consolidao da sua identidade. Este espao dos
sbados, no seu formato tablide, tambm deveria trazer uma interao
informativa entre as mais diversas reas da atividade cultural. Passando pelos
campos da arte (teatro, cinema, literatura, msica, dana), prosseguindo pelas
cincias sociais (sociologia, filosofia, antropologia), chegando a reas como
arquitetura, astronomia, geografia e histria, o "Caderno de Sbado", ao
estabelecer uma relao de complexidade, interligando, num mesmo suplemento,
reas de conhecimento que aparentemente no se relacionavam, trouxe uma
ampliao para o conceito de cultura.
       Surgia, assim, um suplemento que marcaria a histria da imprensa
gacha. A partir da publicao de textos de nomes j consagrados na vida
cultural gacha, como  o caso dos historiadores Francisco Riopardense de
Macedo e Walter Spalding, dos escritores Erico Verissimo e Raul Bopp, alm de
nomes que surgiam no meio intelectual e que depois se tornaram conhecidos do
grande pblico, como os de Caio Fernando Abreu e Armindo Trevisan, o
"Caderno de Sbado" tornou-se, ao longo dos anos, uma referncia documental
histrica, do final dos anos 1960 at o incio dos anos 1980.
       Existiram ainda algumas edies especiais, quando, sob diferentes
perspectivas, enfocavam-se determinados temas como, por exemplo, a edio de
n. 210 do dia 5 de fevereiro de 1972, na qual se apresenta um minucioso



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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



levantamento sobre o patrimnio histrico e cultural da cidade de Porto Alegre.
Realizado por uma Comisso Especial, criada pelo governo da poca, e tendo
como coordenador Oswaldo Goidanich, como redator geral o historiador
Francisco Riopardense de Macedo, alm de Paulo Fontoura Gastal, Telmo Lauro
Mller e Dante Barone, esta edio do suplemento foi a publicao, para os
leitores, do Relatrio Final da Comisso.
        O "Caderno de Sbado" tambm acompanhava, atravs de cobertura
jornalstica, eventos culturais que movimentassem no somente o Rio Grande do
Sul, como tambm o Brasil. Seja a Feira do Livro de Porto Alegre e/ou a Bienal
de So Paulo, os eventos que envolviam a sociedade e o meio cultural sempre
tinham destaque ao lado das atualidades. Em contraponto, tambm existiam
textos de reviso histrica que abordavam desde fatos como os cinqenta anos
da Revoluo Russa, at o aniversrio de dez anos da era espacial, alm de
temas como a histria da msica, entre outros.
        Ney Gastal, filho de P. F. Gastal, e integrante do setor responsvel pelo
suplemento cultural, recorda um acontecimento:

                         O Goida tinha uma histria de que um dia saiu do aeroporto e
                         pegou um txi junto com o pai (P. F. Gastal). Ele e o pai
                         comearam a conversar, at que o motorista se virou para eles e
                         disse: Ah, os senhores fazem o "Caderno de Sbado?" E eles
                         disseram: , a gente trabalha no Correio do Povo. E o motorista:
                         Pois , eu estou guardando o "Caderno de Sbado" dede o
                         nmero um. Eu tenho uma filha que agora tem cinco anos e
                         quando ela nasceu, um ms depois, comeou o "Caderno". Eu,
                         h cinco anos, estou guardando todos para quando ela for
                         grande, ela poder ler.

        Oswaldo Goidanich dificilmente escrevia textos para o "Caderno de
Sbado", atuando mais como editor, embora isto no o impedisse de publicar
alguns, como "Bico de Pena", na edio de nmero 15, do dia 13 de janeiro de
1968.
        Foi no "Caderno de Sbado" que Goidanich no s se despediu do Correio
do Povo, como tambm de sua carreira profissional no jornalismo, em 1974,
deixando assim o legado de um suplemento que marcou poca. No entanto, Ney
Gastal aponta:

                         O que  sair do "Caderno"? Ele saiu na realidade do jornal, ele
                         no saiu do "Caderno". Ele nunca saiu, ele parou de diagramar,


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                       mas ele passava l uma vez por semana e dava palpites, levava
                       textos, sugeria coisas. Ele se demitiu, mas no desgrudou... o
                       Goida tinha idias e tocava idias.

       O "Caderno de Sbado" circulou at o ano de 1981, tendo sua ltima
edio publicada no dia 10 de janeiro. Seis meses aps o seu fim, o suplemento
foi substitudo por um outro, intitulado "Letras & Livros", editado por Jayme
Copstein. Perdurou at o a data de 14 de abril de 1984, quando o prprio jornal
deixou de circular. Mas a histria no s conserva suas centenas de edies,
como tambm o legado de ter revelado tantos nomes que atualmente
representam a cultura gacha.


D) O fim de uma era


                       Ele (Breno Caldas) no parecia tenso. Com seu habitual e antigo
                       pulver de cachemira [sic] azul, rosto fechado mas com os olhos
                       brilhantes, comunicou ao grupo, que se reuniu quando passavam
                       vinte minutos do meio dia, que a empresa decidira suspender a
                       circulao dos jornais a partir daquela data. Perguntando se
                       suspender queria dizer retorno em breve, encolheu os ombros e
                       disse: __ Isso vamos ver, meu filho (GALVANI, 1994, p. 483).

       A dcada de 1980 para a Companhia Caldas Jnior pode ser vista no s
como um perodo conturbado mas tambm como um perodo de transformaes.
Essa fase se iniciou em 1979, quando o diretor Breno Caldas inaugurou
oficialmente a TV2 Guaba, fazendo ento com que a Caldas Jnior iniciasse a
execuo de um investimento em mais um setor da comunicao, a emergente
televiso. Surgia naquele momento uma aposta que estava sendo planejada h
mais de dez anos.
       Ao chegar 1980, Breno Caldas decidira extinguir a Folha da Manh, aps
onze anos de existncia. Colocava-se assim um final naquela questo que dividia
opinies:

                       No dia 12 de novembro de 1969, reviravolta poltica na Caldas
                       Jnior, que coloca nas bancas a Folha da Manh, sob o
                       comando do experimentado Jos Erasmo Nascentes, com
                       talentos em sua equipe do porte de Nbia Silveira, Geraldo
                       Canalli e Jefferson Barros. Apresentava-se como uma alternativa
                       para capturar o pblico jovem que, evidentemente, no estava
                       mais sendo cooptado pelo Correio do Povo.




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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         Enquanto os trs jornais da Caldas Jnior conviveram, apesar de
                         todo o desperdcio de dinheiro e de talentos, e o ataque em trs
                         frentes com a conseqente disperso de esforos, ainda foi
                         possvel manter-se a empresa  tona... (GALVANI, 1996, p. 143).

       Questionado por Srgio Dillemburg a respeito do rumo que a Companhia
Caldas Jnior levava desde a dcada de 1960, Oswaldo Goidanich usou a
expresso autofagia para sintetizar um dos principais motivos para a crise da
empresa, vinte anos depois.

                         Primeiro foi o ato de burrice de tirar da Folha da Tarde o que ela
                         tinha de melhor, a sua completa e excelente cobertura esportiva.
                         O aparecimento da Folha Esportiva, de manh, privou os leitores
                         da Folha da Tarde da sua habitual e completa informao sobre
                         o esporte. E o que  pior: para t-la, passaram a ter de comprar
                         dois jornais!
                         A Folha Esportiva foi um jornal que nunca disse a que veio e
                         serviu apenas para enfraquecer a Folha da Tarde. E, como saa
                         de manh, tambm o Correio do Povo. A vem o segundo ato de
                         autofagia. A Folha tinha seu espao vespertino, no qual reinava
                         soberana. Saa quase sempre entre uma e duas horas da tarde e
                         atingia o pblico leitor da Grande Porto Alegre, onde era
                         disputada no somente pelos que a liam durante o almoo, como
                         pelos que regressavam para casa  tarde, aps o trabalho.
                         Ento, sem que jamais se soubesse a verdadeira razo, a Folha
                         deixou de ser um jornal vespertino e passou a sair de manh,
                         juntamente com a Folha Esportiva e o Correio do Povo! Trs
                         jornais da mesma empresa,  mesma hora, concorrendo entre si
                         na venda avulsa.
                         E, ento, veio a burrice final que foi o lanamento da Folha da
                         Manh, um matutino que tomou o lugar da Folha Esportiva. E o
                         Correio viu-se enfrentando um concorrente sado das suas
                         prprias entranhas! As notcias tinham, muitas vezes, a mesma
                         redao nos trs jornais da Caldas Jnior. Faziam-se com cpia.
                         S o pessoal da Folha da Manh tentou fazer um jornal mais
                         dinmico, copidescando os textos para fugir  incmoda
                         semelhana. A Caldas Jnior chegou, assim, a uma autofagia
                         absurda. Os seus veculos engolindo-se uns aos outros. A j
                         escassa receita da venda avulsa repartida por trs, pois saam
                         todos no mesmo horrio da manh. A alegao de que o
                         transporte dos jornais se simplificava chega a ser pueril diante
                         dos prejuzos que essa sucesso de erros trouxe: perda de
                         espao, perda de prestgio, perda de leitores (DILLEMBURG,
                         1997, ps. 144-145).

       Acontecia assim a conseqncia de um elemento at ento, em muitos
anos, inusitado para a Companhia Caldas Jnior: a falta de dinheiro. O incio dos
anos 1980 foi marcado por emprstimos e dvidas que a empresa acumulava. O
Banrisul anunciava uma dvida de 10 milhes de dlares em fevereiro de 1983. A
mesma questo se estendia para instituies como a Caixa Econmica Federal e

                                                                                                51
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


o Banco do Brasil. Tudo isto acontecia ao mesmo tempo em que se devia manter
os investimentos de um complexo comunicacional que at ento era composto
pelos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, pela Rdio Guaba e pela TV2
Guaba, isto sem falar dos funcionrios, responsveis pela execuo desta
diversidade.
       Estes mesmos funcionrios expuseram publicamente a crise que j
habitava diariamente a companhia, e que comeava a atingi-los:

                       Tinha significado extra este custo (custo do papel), porque a
                       crise financeira aprofundara-se de tal forma que o prprio
                       Francisco Antonio Caldas tivera que avalizar um ttulo,
                       penhorando bens, para obter 55 milhes de cruzeiros e esse
                       dinheiro no fizera desaparecer a presso externa.
                       Servira para alguns vales. O pagamento dos funcionrios, desde
                       maio (1983), justo na data em que Falco se sagrava campeo
                       italiano, comeara a atrasar, surpreendendo os menos
                       informados.
                       Aos poucos, o pagamento passou a se produzir fora dos prazos,
                       depois com vales, mas que no significavam nenhum
                       adiantamento. Ao contrrio: eram o bilhete de atraso... (a
                       situao penosa arrastou-se um ano inteiro) (GALVANI, 1994,
                       ps. 450-451).

       O auge desta crise veio a ocorrer no dia 12 de dezembro de 1983, quando
grande parte dos funcionrios da Companhia Caldas Jnior decretou greve, a
primeira na histria da empresa. Nomes como o de Mrio Quintana e Paulo
Fontoura Gastal aderiram ao protesto pelos salrios atrasados, embora o Correio
do Povo continuasse a ser editado, no sem antes deixar um comunicado para
seus leitores:

                       Esta edio do Correio do Povo sai hoje em propores
                       reduzidas como conseqncia de um movimento paredista que
                       afetou alguns departamentos de nosso complexo industrial, nas
                       primeiras horas da noite de ontem, segunda feira.
                       Pedimos a nossos leitores, assinantes e anunciantes que
                       relevem as faltas e omisses, que ho de notar, e que nos dem
                       compreenso e apoio para que possamos, o mais breve
                       possvel, repor nosso jornal dentro dos padres habituais
                       (GALVANI, 1994, p. 453).

       Surgia ali o fim de uma era na Companhia Caldas Jnior. Funcionrios
divididos em prs e contra a greve, alm de dvidas pendentes, a serem
cumpridas somente com a possibilidade de acordos e mais emprstimos, j que a
situao financeira da empresa a cada dia se complicava mais. O Correio do


52
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



Povo do ano de 1983 em quase nada se assemelhava quele jornal que h trinta
ou vinte anos atrs fazia Oswaldo Goidanich defini-lo como um clube.

                         Bem, o Correio no foi apenas o jornal em que eu trabalhava,
                         mas o meu clube, na perfeita acepo da palavra. Um clube
                         onde eu ia todas as noites para encontrar os meus amigos mais
                         chegados, saber as ltimas notcias, ler os jornais do pas e do
                         exterior, ouvir a anedota do momento ou a verso, no
                         publicvel, mas muitas vezes verdadeira, de um fato notrio 
                         pois numa redao de jornal tudo se sabe. Um clube, enfim,
                         onde eu no pagava mensalidade. Eles  que me pagavam.
                         Havia, obviamente, o trabalho rduo da redao  poca, muito
                         diferente de hoje. A gente comeava cedo e saa madrugada
                         alta, s vezes levando j o jornal impresso debaixo do brao
                         (DILEMBURG, 1997, p. 132).

       Ao ser colocada esta questo para o jornalista Walter Galvani, ele no s
confirma como tambm acrescenta que este clube era de tal maneira um clube
mesmo que, quando o Correio do Povo deixou de circular em 1984 e foi feita,
naturalmente, uma auditoria nas contas, porque a empresa pediu concordata,
verificou-se que inmeros funcionrios da casa estavam com salrios adiantados
em 4, 5, 6 meses, para voc ter uma idia de como isso era uma espcie de
clube, porque a pessoa se apertava, era um clube e um banco, mas um banco
camarada, no um banco no regulamento que um banco tem que funcionar.
       Oswaldo Goidanich acompanhou apenas de longe o desenrolar desses
dramticos ltimos anos da Companhia Caldas Jnior sob a direo de Breno
Caldas. Havia se afastado do Correio do Povo e se aposentado da carreira de
jornalista em 1974, alegando estar assoberbado de compromissos na direo do
Touring, na poca em que construa a sede da Avenida Joo Pessoa, assim
como a Coordenao Geral do Binio da Colonizao e Imigrao e a
Presidncia da OSPA. Fora uma difcil deciso, como ele afirmou. No entanto,
sua permanncia afetiva perdurou durante os anos seguintes, sendo constantes
as suas visitas ao prdio do Correio do Povo. Isso lhe possibilitou ter um
distanciamento maior para analisar essa crise, como  o caso da greve, que se
encerrou no ms de fevereiro de 1984 com os profissionais retornando ao
trabalho.
       Goidanich tambm acompanhou, como grande parte da sociedade
gacha, a suspenso da circulao dos jornais da Companhia Caldas Jnior, no
dia 16 de junho de 1984, decidida pelo diretor Breno Caldas, bem como, no dia


                                                                                                53
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


30 de setembro de 1985, a falncia oficial da empresa. Mas o Oswaldo
Goidanich, leitor do Correio do Povo, tambm se alegrou com o renascimento do
jornal mais tradicional do estado, em 31 de agosto de 1986 quando, sob o
comando do seu novo diretor, Renato Ribeiro, ganhava vida nova. Com a sade
financeira recuperada, mediante a quitao das dvidas feita pelo seu novo
proprietrio, que tambm era empresrio rural, o Correio do Povo surgia com
uma nova filosofia de conduta empresarial que marcaria o seu sucesso nos anos
seguintes,  medida que readquiriria o ttulo h tanto tempo usado como o jornal
mais lido pelo Rio Grande do Sul.
       Em 1987 Goidanich e os demais leitores viriam a se surpreender com uma
alterao esttica fundamental para a compreenso do que hoje pode se colocar
como a personalidade do novo Correio do Povo, como o prprio ex-jornalista
afirmou:

                        claro que, quando recebi o Correio em formato tablide, tive
                       uma impresso penosa, porque estava habituado a l-lo em
                       tamanho grande. Fiz toda a minha carreira no antigo Correio e
                       lembro-me de que o dr. Breno costumava se referir  Zero Hora
                       como um jornal de meias pginas. Ao fim de uma semana,
                       porm, que foi o tempo que eu precisei para assimilar o novo
                       formato, estava plenamente convencido de que o sr. Renato
                       Bastos Ribeiro, a quem no conheo pessoalmente, havia dado
                       uma bela tacada. E explico por qu: o Correio do Povo que
                       recebo hoje em minha casa, pontualmente, todas as manhs, 
                       uma smula dos principais acontecimentos cotidianos, uma
                       sntese completa das notcias do dia, ao qual nada falta
                       (DILLEMBURG, 1997, p. 137).

       O que poderia ter sido uma melanclica derrocada de uma era na vida da
Companhia Caldas Jnior no incio da dcada, durante os mesmos anos 1980
transformava-se na esperana de uma nova era, estando em dia com o mercado
empresarial e industrial dos meios de comunicao no estado e no Brasil.
       Goidanich faleceu antes do centenrio do Correio do Povo, completado em
outubro de 1995, com a perspectiva de um jornal que voltava a ser lder em
vendas no Rio Grande do Sul. O seu legado para a empresa no foi esquecido
por aqueles colegas remanescentes do clube, como o jornalista Walter Galvani
que, em 8 de outubro de 1995, escrevia uma reportagem comemorativa ao
aniversrio centenrio do jornal, intitulada "Contribuio  Cultura e Turismo", na
qual destacava Oswaldo Goidanich e Paulo Fontoura Gastal como smbolos no



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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



excludentes, mas significativos de todos os demais (...) personagens (...),
pensando em termos de relacionamento com a intelectualidade rio-grandense.


4. OSWALDO GOIDANICH E SUA RELAO COM AS ARTES


       Desde a sua infncia, at pouco antes de falecer, em 1995, Oswaldo
Goidanich foi uma pessoa que sempre atuou ou acompanhou projetos e eventos
relacionados s artes, seja em nvel regional, nacional ou internacional. Entre as
suas idas  biblioteca e ao cinema, na infncia, passando pela atuao artstica e
a organizao de eventos, na sua carreira profissional, alm de cargos em
rgos ligados a arte, Goidanich  um nome corrente nesta rea.
       Ao se envolver com o cinema, foi um dos responsveis pela criao do
Clube de Cinema de Porto Alegre, no ano de 1948, atuando em conjunto com
Paulo Fontoura Gastal, sendo que o clube  hoje o mais antigo em atividade no
Brasil. Como outras realizaes significativas, organizou o Festival de Cinema de
Mar del Plata, no ano de 1951, evento este que contou com a pr-estria mundial
de Umberto D, filme do cineasta Vittorio de Sica, um dos maiores representantes
do neo-realismo italiano. Em conjunto com Paulo Fontoura Gastal, criou e
organizou o Festival de Cinema de Gramado em 1972, evento que, ao longo dos
anos, tornou a cidade da serra gacha referncia em relao  stima arte, vindo
a ser um dos principais festivais de cinema do pas.  tambm de sua autoria a
iniciativa para a vinda do diretor italiano Alberto Lattuada, no ano de 1975, para o
Rio Grande do Sul, como um dos eventos que celebraram o centenrio da
imigrao italiana no Estado.
       Ao longo da sua carreira profissional, Goidanich agiu diretamente como
promotor cultural, como  o caso da criao do suplemento cultural "Caderno de
Sbado", do jornal Correio do Povo, em 1967, incentivando artistas e pensadores
das mais variadas artes a manifestarem suas idias e criaes. Entre outras
realizaes, os seis anos [1968  1973] em que atuou como Diretor de Atividades
Culturais da Assemblia Legislativa, assim como fez parte de conselhos
estaduais da Secretaria da Cultura, durante as dcadas de 1960 a 1980. Foi o
coordenador no ano de 1971 da Comisso Especial de Estudos de Levantamento
e Preservao do Patrimnio Histrico, Artstico e Cultural do Rio Grande do Sul,


                                                                                                55
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


constituda para realizar estudos sobre instituies culturais do estado, em
conjunto com o historiador Francisco Riopardense de Macedo, Ado Malagoli,
Dante Barone e do jornalista Paulo Fontoura Gastal. Destaca-se tambm a sua
atuao como Diretor da Associao Riograndense dos Festivais de Coros, na
dcada de 1960, e Membro da Comisso de construo do Auditrio Arajo
Viana no Parque da Redeno em 1964, local que mais tarde veio a se tornar
referncia para apresentaes artsticas em Porto Alegre. Goidanich elaborou
ainda o Projeto dos Estatutos da Fundao Theatro So Pedro.
       No entanto, sua colaborao para o campo das artes no termina por a.


A) A Associao Francisco Lisba


       A dcada de 1940 marca, para Oswaldo Goidanich, o seu envolvimento
direto com as artes plsticas no Rio Grande do Sul. Seja como expositor em
mostras, passando por curador em exposies, sua participao foi constante
nos acontecimentos relativos  pintura.
       Esses mesmos anos 1940 caracterizaram-se como tempos de renovao
e questionamento nas artes plsticas. Carlos Scarinci afirma, no livro A gravura
no Rio Grande do Sul, que o ano de 1940, ao coincidir com o aniversrio do
bicentenrio de fundao de Porto Alegre, trouxe a oportunidade de se convidar o
pintor gacho, ento residente em So Paulo, Carlos Scliar, e os demais
modernistas paulistas, para exporem na capital gacha. Naquele momento surgia
o primeiro contato com a vanguarda das artes no pas, com representantes,
inclusive, da Semana de Arte Moderna de 1922, como Oswald de Andrade.
       Dois anos antes, em 1938, fundara-se a Associao de Artes Plsticas
Francisco Lisba, tornando-se uma contraposio esttica e artstica ao Instituto
de Belas Artes. Nos seus primeiros anos, a Associao era constituda
principalmente por desenhistas da editora do Globo, como Gasto Hofstetter,
Nelson Boeira Faedrich, Carlos Scliar e outros. Sem definir uma posio de
classe, com teor ideolgico diludo, a entidade apenas se propunha a "preencher
uma antiga lacuna...". Sobre a informalmente chamada Associao Chico Lisba,
Goidanich reflete a respeito da sua importncia:




56
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         Naquela poca, as artes plsticas da provncia no estavam
                         ainda infestadas pela praga das "galerias de arte" e dos
                         "marchands" que hoje regulam o mercado e mantm [sic] os
                         artistas isolados uns dos outros. A Chico Lisba, para um
                         estreante, era a oportunidade de participar, de aparecer. Os
                         sales da Chico Lisba serviam aos primeiros passos de muitos
                         e  consolidao de reputaes artsticas, j a caminho da plena
                         maturidade. Nunca houve na Chico Lisba preconceitos nem
                         limitaes em matria de manifestao artstica. Mas a Chico
                         Lisba era abertamente contra o rano do academismo oficial e
                         produzia, como um todo, uma arte arejada e que desejava ser da
                         sua poca.

       Goidanich ingressou na Associao Francisco Lisba nos seus primeiros
anos de atividade, atravs do amigo, artista plstico e um dos fundadores da
associao, Edgar Koetz. Ao manter um contato mais prximo com a classe
artstica, em conjunto com representantes da associao, como o prprio Edgar
Koetz, Guido Mondin e Joo Faria Vianna, Oswaldo ajudou a montar um dos
mais controversos sales de artes plsticas do estado. Intitulado 1 Salo
Moderno de Artes Plsticas, realizado no incio do ano de 1942, a mostra surgia
como uma reao ao modernismo vanguardista do centro do pas. Por isso
mesmo, os questionamentos comearam a partir da ausncia de Carlos Scliar,
representante do modernismo, mas fora de uma mostra que se denominava
modernista. Goidanich esclarece este aspecto:

                         Quem teve a idia de fazer o Salo foi o Vianna. Professor
                         excelente e disciplinador autocrata de dezenas de jovens bem
                         dotados para o desenho, Vianna no aceitava a arte moderna
                         que se fazia no centro do pas (embora ele mesmo admirasse
                         Picasso, Matisse e tantos outros modernos). E desconfio eu que
                         no a aceitava, apenas porque Carlinhos Scliar, ovelha
                         tresmalhada do seu rebanho, rompera as amarras que o
                         prendiam ao seu frreo professor e, com inegvel talento que o
                         tempo s amadureceu. Vianna no podia admitir isso. E planejou
                         o Salo de Arte Moderna com a inteno nica de alfinetar o
                         Scliar.

       Goidanich participou do salo com dois quadros: O Ovo de Colombo, sua
primeira tela como pintor, e Rhapsody in Blue. Este primeiro, colocado na entrada
do Salo, veio a provocar uma notcia no dia 7 de janeiro de 1942, intitulada,
Entre "moderno" Ovo de Colombo e o fresco "Souvenir de Isadora". A nota
revelava que alguns artistas resolveram rir  custa dos pseudo-crticos e dos
admirveis poseurs e apresentaram aquela impagvel demonstrao de...



                                                                                                57
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gaiatice". Reforando esta idia, Goidanich esclarece sobre o porqu de sua
participao:

                       Eu me envolvi nele (Salo de Arte Moderna), fascinado pela
                       molecagem. A idia era passar um grande blefe no meio
                       provinciano, nos intelectuais medalhes, na crtica desavisada. E
                       diga-se, a bem da verdade, que o 1 Salo de Arte Moderna do
                       Rio Grande do Sul teve uma organizao pra valer. Trabalhamos
                       com seriedade. No incio, o grupo era muito reduzido, mas foi
                       impossvel manter completamente o segredo das verdadeiras
                       intenes do Salo e muita gente foi aparecendo e querendo
                       participar.

        O Salo Moderno de Artes Plsticas tinha a previso de durar trs dias.
Aproximadamente 10 mil pessoas conferiram a mostra no primeiro dia, no andar
trreo da loja Camas e Patentes, localizada na Rua da Praia. No segundo dia, o
pblico duplicou, gerando confuso no mesmo local. Em conseqncia do dia
anterior, o Salo encerrou suas atividades antes do terceiro dia.
        Segundo Goidanich, ao todo, foram reunidos quase cem telas e desenhos.
A mostra ainda contou com nomes at hoje reconhecidos pelo meio artstico,
como os de Joo Fahrion, Edgar Koetz e Carlos Alberto Petrucci, este com um
certo rancor, exposto na Revista do Globo, quatro anos depois.
        Aps o alarde feito pelo Salo Moderno de Artes Plsticas, ocorreu dois
anos depois, em maio de 1944, uma exposio coletiva de seis artistas da nova
gerao, no evento intitulado "Mostra de Artes Plsticas". Localizado no Edifcio
Hudson, ao lado da sede do Correio do Povo, e patrocinado pelo Departamento
Estadual de Imprensa e Propaganda, a mostra contava com os nomes de Carlos
Alberto Petrucci, Edgar Koetz, Honorio Nardim, Nelson Boeira Faedrich, Oswaldo
Goidanich e Vasco Prado. Em texto contido no catlogo da mostra, revela-se que
a sua finalidade era tornar pblico os esforos que alguns artistas moos do Rio
Grande do Sul desenvolvem em prol da movimentao das belas artes em nosso
meio.
        Goidanich exps nove quadros. So eles: Galpes (leo); Paisagem Cinza
(leo); Natureza Morta (leo); Pequena Paisagem (leo); Flores (leo); A Cidade
(guache); Da minha janela (desenho  pena); Velha Fbrica (desenho a conte);
Esquina vista do alto (gua tinta). Nesta mesma mostra, destacam-se as
esculturas do ento jovem Vasco Prado, artista que anos depois se tornou
referncia nas artes plsticas do Rio Grande do Sul.


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       Mas ao longo dos anos, desde o seu ingresso na Associao Francisco
Lisba, Goidanich foi se envolvendo ainda mais com o setor estrutural da
instituio. Em 1946 integrou a equipe da diretoria da Francisco Lisba, a quarta
da histria da associao, atuando como secretrio e tendo Guido Mondin como
presidente. A primeira providncia tomada foi formalizar a Francisco Lisba como
entidade representativa dos artistas plsticos do Rio Grande do Sul. Ao
reformarem o estatuto, em assemblia geral, ocorria a mudana do nome da
entidade para "Associao Riograndense de Artes Plsticas Francisco Lisba".
       Sobre esta e outras questes, Goidanich esclarece aspectos referentes 
nova diretoria:

                         Mondin e eu nos esforamos ainda em aparar as arestas de
                         relacionamento que eram agudas e antagonizavam o grupo do
                         Instituto de Belas Artes e o grupo da Chico Lisba e em obter o
                         reconhecimento dos poderes pblicos ao trabalho da
                         Associao. Logramos da administrao estadual,  poca, uma
                         valiosa subveno de duzentos contos, que faziam uma grande
                         quantia  e Mondin foi exemplar em arrancar do Tesouro, gota a
                         gota, em exaustivos chs de banco, todo o total que depositamos
                         em banco, sentindo cada vez mais perto o nosso maior sonho 
                         construir uma sede prpria para a Chico Lisba. Obtivemos,
                         tambm, da Prefeitura, a promessa da doao de um terreno.

       Essa gesto foi marcada por concretizar essa sede para a associao,
localizada no dcimo andar do Edifcio Unio. Com isto, foi montada uma
biblioteca especializada em artes plsticas, fator que, segundo Goidanich, trouxe
um grande estmulo ao convvio dos artistas, alm da ampliao do quadro social
e a regularizao dos cadastros sociais. Surgia ainda o primeiro "Boletim", sendo
Joo Faria Vianna o responsvel pelo logotipo da associao at hoje utilizado.
Aconteceu ainda, naquele perodo, a primeira excurso da Francisco Lisba a
Rio Pardo com duas dezenas de artistas participantes, resultando na produo
de diferentes obras de pintura, desenho e gravura. Pouco tempo depois foram
promovidas duas exposies, uma na prpria cidade de Rio Pardo, e outra em
Porto Alegre, no auditrio do Correio do Povo, sob a responsabilidade de
Oswaldo Goidanich.
       Aps essa iniciativa, no final da dcada de 1940, Goidanich comeou a se
distanciar das artes plsticas enquanto artista, para se dedicar aos aspectos
estruturais do setor, como curador de exposies e integrante da parte
administrativa e executiva da associao. Durante esses anos, teve, entre outras

                                                                                                59
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realizaes, a organizao da exposio individual de Carlos Alberto Petrucci, no
auditrio do Correio do Povo, em outubro de 1947.
       A dcada de 1950 trouxe para Goidanich outras ocupaes cada vez mais
constantes no campo profissional, como o jornalismo, o turismo e o seu
envolvimento enquanto redator de debates da Assemblia Legislativa. Ainda em
1953, tentou se eleger para a presidncia da Associao Francisco Lisba, mas
foi derrotado em pleito democrtico por Carlos Alberto Petrucci, marcando assim
o seu desligamento das artes plsticas, enquanto integrante da classe.


B) Oswaldo Goidanich e a Orquestra Sinfnica de Porto Alegre (OSPA)


       No texto original que mais tarde, em 25 de novembro de 1987, tornar-se-ia
uma correspondncia oficial endereada ao ento governador do Estado, Pedro
Simon, Goidanich defendia, junto a grande parte da classe artstica do Rio
Grande do Sul, que no ocorresse a fuso entre a OSPA, o Theatro So Pedro e
o Instituto Gacho de Tradio e Folclore numa s entidade. Goidanich estivera
na presidncia da OSPA entre os anos de 1975 e 1981, fato representativo para
opinar sobre um assunto bastante polmico, ao colocar em questo os problemas
de autonomia e prejuzo que a fuso causaria s entidades.
       No texto original dessa correspondncia, da qual uma de suas partes foi
editada, destaca-se o breve comentrio que Goidanich faz, seis anos depois,
sobre como foi a sua gesto enquanto presidente da OSPA. Eis o seu
depoimento: Fui presidente da OSPA, por sete anos, de 1973 a 1980 [sic], no
perodo talvez mais difcil da sua vida, aquele que se sucedeu  morte do seu
inolvidvel criador, Pablo Komls.
       Este, que  um dos seus poucos depoimentos sobre o seu perodo na
OSPA, ajuda a elucidar aquela poca que gerou muitas controvrsias na
entidade. Motivos no faltaram para tumultuar esses anos, no s pelo
falecimento, mas tambm pela aposentadoria obrigatria, meses antes, do
criador e regente da OSPA, Pablo Komls, alm da emigrao de msicos da
entidade para o centro do pas e divergncias com David Machado, regente
sucessor de Pablo Komls.




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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       Goidanich foi o quinto presidente na histria da OSPA. A entidade fora
fundada em novembro de 1950, devido ao sonho de Pablo Komls, hngaro de
nascimento que, vindo de Montevidu, onde trabalhara no movimento lrico
uruguaio, apostara numa pequena cidade do sul do Brasil:

                         Porto Alegre era uma provncia artstica com pretenses
                         reduzidas de acordo com suas possibilidades. Cheguei aqui para
                         fazer pera e selecionei msicos entre amadores e profissionais
                         do rdio. Mas quando aceitei formar a OSPA, enfrentei dois
                         problemas: encontrar msicos e dinheiro. Com pequenas ajudas
                         oficiais, fui organizando a orquestra com os msicos que
                         dispunha: gente da casa. Comeou a tomar forma e, com os
                         ensaios e os novos elementos, foi se mostrando uma orquestra
                         considervel (FOLHA DA MANH, 15/09/1977).

       Os msicos a que Komls se referia devem-se principalmente  Banda
Municipal de Porto Alegre, ligada  Prefeitura de Porto Alegre e que, na sua
maioria, eram msicos contratados italianos;  Sociedade Ginstica de Porto
Alegre  SOGIPA  que contava com uma orquestra de aproximadamente
cinqenta msicos; e ao Orpheo Rio-Grandense, entidade que manteve
temporadas lricas nas dcadas de 1930 e 1940, alm de ser responsvel pela
vinda de Komls a Porto Alegre.
       A orquestra iniciou oficialmente suas atividades no dia 1 de maro de
1950 e j no dia 23 do mesmo ms ocorria sua primeira apresentao oficial,
desenvolvida, com as seguintes propostas:
       formar e sustentar a orquestra dirigida por um diretor musical competente;
       promover concertos sinfnicos e corais;
       estabelecer intercmbio artstico com outras entidades.
       Em novembro do mesmo ano, atravs de uma assemblia geral na
Biblioteca Pblica do Rio Grande do Sul, com os seus fundadores, a OSPA era
institucionalizada. Nos dois primeiros anos, foram realizados seis concertos. Os
dez anos seguintes foram difceis, j que o custo anual para manter uma
entidade, como uma orquestra sinfnica, exigia gastos na manuteno de
instrumentos e outras questes mais. Moyss Vellinho foi o presidente dessa
poca, permanecendo de 1952 at 1972, aps suceder Luiz Fontoura Jnior e
Joo Pio de Almeida. Com o tempo, comeou a contar com o apoio financeiro de
entidades     locais,    possibilitando,     assim,    importar     msicos,      qualificando
gradativamente o nvel das suas apresentaes.

                                                                                                61
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


       A dcada de 1960 surgia como o perodo de afirmao da OSPA, 
medida que a profissionalizao dos msicos e a estabilidade financeira estavam
sendo alcanadas pelos dirigentes. Em 1964, atravs de Moyss Vellinho, surgia
a idia de encampao da entidade pelo governo do Estado. Transformando-se
em realidade, a proposta foi aceita pelo governo que, atravs do Decreto n.
17.173, de janeiro de 1975, consumou a encampao, transformando-a
automaticamente em fundao sob forma autrquica. A partir daquele momento,
a OSPA foi gradualmente se afirmando como uma das maiores entidades
culturais do Rio Grande do Sul. Entre 1965 e 1970, aumentaram-se em sete
vezes os salrios ganhos pelos funcionrios e msicos. O nmero de concertos
tambm se ampliou, mantendo-se a mdia de 70 apresentaes por ano, alm da
primeira excurso da orquestra para So Paulo e Rio de Janeiro, em 1970. Um
ano antes a OSPA adquirira uma sede administrativa, assim como criara o Coral
Sinfnico da OSPA um ano depois, realizando um antigo sonho dos integrantes
da entidade.
       Outra medida se deveu ao presidente da OSPA, que desde a
encampao, era decidido sob nomeao do Governador do Estado. Assim
ocorreu a partir da deciso de Moyss Vellinho em colocar o cargo  disposio,
aps vinte anos de dedicao  presidncia. Foi nomeado Jorge Alberto Furtado
para o posto, ficando at o ano de 1975, aps renunciar, para assumir o cargo de
Secretrio Geral do Ministrio do Trabalho, em Braslia. Na sua gesto, destaca-
se a criao da Escola de Msica da OSPA, atravs da contratao de trs
msicos uruguaios, alm da criao da Orquestra de Cmara, para possibilitar a
realizao de concertos em cidades interioranas do estado.
       Mas o fato mais significativo dessa poca se deve  turn de 34 dias que a
OSPA realizou, no ano de 1973, com apresentaes em praticamente todas as
capitais do pas, culminando por ser intitulada pela crtica do centro do pas como
"a melhor orquestra sinfnica do pas". Sob o patrocnio do Ministrio de
Educao e Cultura, atravs do Programa de Ao Cultural, a OSPA atingia o
auge do seu reconhecimento enquanto instituio, como est comprovado pelas
crticas de jornalistas como Antonio Hernndez, Jos da Veiga Oliveira e Eurico
Nogueira Frana, respectivamente:




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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         O conjunto provinciano que foi a Orquestra Sinfnica de Porto
                         Alegre (OSPA) at a dcada passada, transformou-se, em 1972,
                         numa grande orquestra, e ontem no Teatro Municipal
                         demonstrou que  o melhor do Brasil, em vias de conquistar uma
                         liderana absoluta na Amrica Latina (O GLOBO, 21/10/1973).

                         A Orquestra Sinfnica de Porto Alegre (OSPA), que So Paulo
                         finalmente pode conhecer , indubitavelmente, a mais perfeita e
                         completa organizao congnere no Pas (ESTADO DE SO
                         PAULO, 09/12/1973).

                          a maior turn j empreendida na Amrica do Sul, por um
                         conjunto sinfnico. E est sendo feito pela Orquestra que,
                         nascida humilde, em 1950, ascende hoje  condio de nossa
                         melhor formao do gnero. (...) Sua qualidade hoje transcende
                         os limites musicais. A revelao da orquestra foi extraordinria
                         (LTIMA HORA, 22/10/1973).

       No s conhecido pelo meio artstico como um dos grandes promotores
culturais do estado, como tambm por ser um dos organizadores do Festival de
Coros, surgido em 1963, sempre contando com a apresentao de coros do
Brasil e do mundo, Oswaldo Goidanich era nomeado pelo ento governador
Euclides Triches para assumir a presidncia da OSPA. At aquele momento,
atuara como coordenador executivo do Binio da Colonizao e possua cargo na
Assemblia Legislativa, fato que fez o governador pedir a sua cedncia. Ao ser
confirmado oficialmente como presidente da OSPA, no dia 19 de fevereiro de
1975, Goidanich assumia a entidade, diante do delicado desafio de manter o
status que adquirira dois anos atrs.
       O eco desses trs anos da administrao anterior continuou na gesto de
Oswaldo Goidanich. O primeiro problema com que teve de lidar foi a crescente
migrao dos msicos da entidade para o centro do pas. Em reportagem do
jornal Folha da Tarde, do dia 3 de janeiro de 1976, o regente titular Pablo Komls
esclarecia esta questo:

                         Como eu ia dizendo, no meio das comemoraes pelo 25
                         aniversrio, surgiu uma bomba. (...) quinze msicos nossos j
                         foram embora. Mais podero ir, o que significa um aniquilamento
                         de nossa orquestra sinfnica. (...) Acontece que em So Paulo,
                         movido talvez por outros interesses que no os de cunho
                         essencialmente artstico, o governo estadual resolveu criar nada
                         mais nada menos do que quatro orquestras sinfnicas. (...) Com
                         isto, nossos executantes comearam a desaparecer, rumando
                         para o centro do pas.




                                                                                                63
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       O jornal Correio do Povo, do dia 18 de setembro de 1975, intitulava a sua
matria, "A concorrncia entre as orquestras sinfnicas e os planos de So
Paulo", afirmando no seu primeiro pargrafo:

                       Se a manuteno dos msicos da Orquestra Sinfnica de Porto
                       Alegre estiver na dependncia das leis da oferta e procura e do
                       sistema da livre concorrncia, dentro em pouco a capital gacha
                       poder perder seus melhores instrumentistas.

       Veio a se tornar realidade o projeto do estado de So Paulo durante esse
perodo, coincidindo com o primeiro ano da gesto de Goidanich. J possuindo a
Sinfnica da Cidade de So Paulo e a Sinfnica do Estado de So Paulo, com os
melhores salrios da poca, foi fundada a Orquestra Sinfnica da Universidade
de So Paulo e a Filarmnica do Estado de So Paulo. Dos quatro conjuntos
sinfnicos, trs deles ofereciam os melhores salrios do pas, o que significava
trs ou quatro vezes mais do que era pago em Porto Alegre. Entre os meses de
setembro e novembro de 1975, muitas incertezas pairavam sobre a OSPA, diante
de reportagens que, ao invs de destacarem as atraes das apresentaes da
entidade, detinham-se em esmiuar suas incertezas. Ttulos como "A OSPA est
menor, o nmero de concertos baixou, os msicos tm melhores salrios em So
Paulo", da Folha da Manh, de 3 de outubro de 1975 ou "Crise da OSPA",
ocupando a capa do jornal Folha da Tarde, de 21 de novembro de 1975, eram
freqentes. Da relao de 99 componentes da OSPA, 17 decidiram tocar em
orquestras de So Paulo, por causa dos melhores salrios, sendo que dois deles
mais tarde voltariam. O ano de 1975 veio a terminar com um dficit de 6% para a
OSPA.
       Em relatrio feito por Oswaldo Goidanich e encaminhado para o ento
Presidente da Repblica, o general Ernesto Geisel, o presidente da OSPA
afirmava que o oramento da entidade, a partir de 1971, tornara-se deficitrio.
Sobre a contradio a respeito da expanso e progresso da entidade em relao
a sua carncia financeira, Goidanich esclarecia:

                       A resposta a essa antinomia nos levara  situao presente da
                       OSPA. Em 1968, a OSPA dispendia [sic] 63,64% de seu
                       oramento com pessoal: um ndice elevado, se considerado em
                       termos empresariais, mas que se pode compreender em face da
                       realidade que a OSPA , fundamentalmente, patrimnio humano.
                       Assim, seus gastos de pessoal, isto , de subsistncia do
                       conjunto orquestral, forosamente devem ser os maiores.


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         Esse mesmo ndice, em 1972, representava j 71,28%; em 1973,
                         91,19% e, neste ano de 1975, 106,20%.
                         A curva inflacionria com os gastos imperativos de pessoal subiu
                         do alto ndice de 63,64% de 1968 para 106,20%, de 1975. Isso
                         significa dizer-se que a OSPA vive hoje um processo de
                         autofagia, consumindo suas prprias reservas, e remanejando
                         recursos destinados a outros fins (de material, por exemplo) para
                         sua prpria sustentao e sobrevivncia.

       Naquele mesmo ano o Estado transferiu recursos de Cr$ 911.000,00 para
a OSPA, alm de um convnio firmado com o Departamento de Assunto Culturais
do MEC, com a quantia de Cr$ 370.000,00.
       O ano de 1976 surgia com a primeira apresentao da temporada, no dia
18 de maro, com um pblico numeroso. Oswaldo Goidanich afirmara que a
OSPA voltava fortificada com o auxlio governamental, fato reforado por Pablo
Komls, ao declarar que, com a sorte e a ajuda do Governo conseguimos
preencher as lacunas, de forma que os elementos atuais so melhores do que os
que foram. Ao todo, foram 66 apresentaes no ano, contando com a
participao de dez regentes convidados e 31 solistas, prosseguindo com a
realizao de concertos para a juventude e com os concertos pelo interior do
estado, em cidades como Estrela, Pelotas e Charqueada.
       Outro momento marcante desta poca, na histria da OSPA, aconteceu
em 1977. Pablo Komls, fundador da OSPA e o principal responsvel pelo
progresso artstico da entidade, durante os seus mais de 25 anos de existncia,
aposentou-se por idade da funo de Diretor Titular e Diretor Artstico. Komls foi
uma das poucas pessoas que acompanhou e atuou diretamente nos primeiros 25
anos da OSPA, observando-a passar do estgio de msicos amadores que
tocavam por paixo pela msica erudita, at alcanar o estgio de uma entidade
com um complexo de instituies, que inclua a Orquestra Sinfnica, o Coral
Sinfnico, a Orquestra de Cmara, a Escola de Msica e a Escola de pera. Em
reportagem da Folha da Tarde, Komls afirmava que fora da msica, eu no sei
fazer outra coisa. Um ano depois da sua aposentadoria compulsria, e quatro
meses depois da sua ltima apresentao, Pablo Komls veio a falecer, no dia 27
de maro de 1978.
       Desde o desligamento de Komls da OSPA, a entidade permaneceu sem
um regente titular por quase toda a temporada de 1977. Os dois principais
critrios para a escolha do novo regente eram que fosse brasileiro e possusse


                                                                                                65
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experincia internacional. Jairo Peres Figueiredo, diretor geral da OSPA, afirmava
que quanto maior a experincia internacional, melhor qualificao para a
orquestra.
       Davi Machado, maestro brasileiro que at o momento estava na Itlia
como regente titular do Teatro Mximo de Palermo, desde o primeiro momento,
era visto pela direo da OSPA como um dos favoritos ao cargo de regente
titular, alm de Isaac Karabtchevsky e Henrique Morelembau. Em 1974 Davi
Machado j se apresentara na OSPA como regente convidado para reger as
Bachianas Brasileiras, n. 6 de Villa Lobos e a Sinfonia n. 1 de Gustav Mahler.
No incio de 1978 Machado permaneceu como regente da entidade por um ms e
meio e, desde ento, j se mostrava disponvel e desejoso em voltar a trabalhar
no Brasil. A OSPA via esta experincia como um encaminhamento para a
formalizao de um contrato.
       No dia 30 de maio de 1978, Davi Machado era anunciado como o novo
regente titular da OSPA, situao at o momento indita, j que Pablo Komls
havia sido seu titular por 27 anos. Sobre este fato, Goidanich declarou  Zero
Hora, no dia 9 de maro de 1978, que a OSPA iniciava nova etapa, agora sem
Komls, o mentor e grande impulsionador da OSPA. De fato, a OSPA comeava
um novo ciclo, sem imaginar a que situao chegaria dois anos depois.
       Tudo surgiu pelo contrato. Jairo Peres Figueiredo, diretor geral da OSPA
na poca, esclarece esta questo:

                       Ao ser contratado, Davi Machado fez uma exigncia para aceitar
                       o contrato, com uma ponderao muito sria que viria a trazer
                       uma grande complicao depois: a exigncia dele foi que fosse
                       contratado por um perodo mnimo de quatro anos. O problema
                       tcnico que existia era o seguinte: a legislao brasileira no
                       permitia um contrato trabalhista superior a dois anos. Ele
                       ponderou. Ponderou que abriria mo do Teatro de Palermo, que
                       ele tinha uma condio firmada na Europa, que ele regia em
                       vrios pases europeus, e que ele no iria abrir mo disso por
                       uma aventura de volta ao Brasil, podendo tomar dali a dois anos
                       um pontap no traseiro e no ter nada. A soluo encontrada foi
                       uma soluo hbrida: fez-se um contrato de dois anos e uma
                       promessa de renovao de contrato no final daqueles dois anos.
                       No eram os quatro anos que ele queria, mas ao mesmo tempo
                       ele tinha na mo um documento que lhe asseguraria novo
                       contrato!

       Segundo Jairo Peres Figueiredo, a incorporao de Machado  OSPA
trouxe um grande impacto porque, nas mos do Komls, a OSPA estava

66
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



habituada a um tipo de programa, de ritmo, de repertrio, de conduo, e o Davi
Machado trouxe muita coisa de novo.

                         Ento, exigiu a compra de instrumentos novos, a renovao da
                         orquestra: ele passou a cobrar para que a OSPA crescesse e
                         justificasse a sua sada da Europa para ter vindo para c. Na
                         medida do que era possvel, foi-se atendendo, mas nem tudo era
                         possvel, e isso a gerou um princpio de desgaste, porque havia
                         certas coisas que ele ambicionava e que havia outra realidade
                         material que tornava impossvel.

       Ao longo dos meses o processo de desgaste foi acentuando-se, no s
pelas exigncias no aceitas pela presidncia mas tambm por uma outra
questo que saa do mrito financeiro: a composio estrutural de uma orquestra.
       Constituda por vrios grupos divididos pelos seus instrumentos (cordas,
sopros de metal, sopros de madeira, percusso), a orquestra progride a partir da
juno desses grupos para um objetivo central: ser fiel  partitura que o regente
decide usar, a qual, futuramente, aps os ensaios, ser apresentada ao pblico.
Este papel decisivo que possui o regente, e pelo qual influir no destino de
aproximadamente 100 msicos, envolve uma de suas particularidades: o poder.
Jairo Figueiredo sintetiza esta dimenso ao afirmar que os maestros so uma
raa especial: eles no medem o tamanho do sonho deles.
       David Machado, ao longo dos meses, comeou a discordar de uma
novidade que Goidanich adotara na sua gesto, que era a comisso dos
msicos, no qual um integrante de cada grupo de instrumentos representava-os
nas decises executivas da OSPA. Esta medida descentralizava o poder de ao
de David Machado, que logo reagia, como confirma Jairo Figueiredo:

                         O Davi Machado, que no simpatizava com a democratizao,
                         percebeu que a autoridade dele, de regente titular, entrava num
                         processo de desgaste, na medida em que certas coisas de
                         natureza artstica comearam a ser questionadas pela orquestra,
                         com a aprovao do presidente, e pior, da reunio dos msicos,
                         nas costas dele. Davi Machado comeou ento a tomar atitudes
                         contrrias  orientao do presidente, ao fazer conluio com os
                         msicos, contrrio  orientao do presidente. Ele comeou a
                         abrir, por exemplo, a direo artstica para que os msicos
                         trabalhassem na direo artstica. Ento, veja bem, de um lado,
                         o msico est na orquestra, ele  empregado da OSPA; noutro
                         momento, ele est na administrao, ele est agindo como
                         diretor.




                                                                                                67
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


       Segundo Telmo Jaconi, integrante do grupo de msicos da orquestra, na
poca, uma grande maioria da orquestra apoiava essa idia (da comisso dos
msicos) e obviamente, criou-se o time dos descontentes. Criou-se uma espcie
de diviso, de correlao de foras.

                       Naquele momento casou muito com os interesses. Foi uma
                       proposta de iniciativa dele (Goidanich), mas acho que ele teve a
                       sensibilidade de ter essa iniciativa porque era um anseio do meio
                       onde estava transitando. Na Fundao existia uma ansiedade
                       muito grande porque, na poca do Komls, anterior, era muito
                       desptica. Era muito difcil institucionalizar qualquer tipo de
                       opinio. Era quem ele achava que podia dar opinio. Acho que o
                       Goidanich percebeu isso e, ao mesmo tempo, teve essa idia.
                       Naquele momento, no houve praticamente nenhum conflito
                       nessa criao, porque era um consenso.

       Aps constantes conflitos de ordem econmica, poltica e artstica, o atrito
entre Goidanich e David Machado atingiu um limite. Antes desse acontecimento,
Goidanich tinha ido ao Secretrio de Cultura do Estado, Lauro Guimares, expor
o ocorrido. Lauro Guimares havia concordado que no havia mais condies de
David Machado permanecer como diretor artstico e regente titular. Sempre
presente nas decises, Jairo Figueiredo relembra a situao:

                       O episdio da destituio do Davi Machado talvez tenha sido o
                       episdio mais dramtico que eu j vi. O Davi Machado, depois de
                       ter destratado telefonicamente o Goidanich, foi proibido de voltar
                        orquestra. Ele, contrariando a orientao, e para provocar o
                       incidente, viajou e, na volta, apresentou-se e comeou o ensaio
                       com a orquestra. O Goidanich deixara avisado que se Machado
                       aparecesse na OSPA, que ele fosse imediatamente avisado, que
                       interviria nisso. E ele foi l e interviu [sic], suspendendo o ensaio.
                       O presidente entrou no meio do ensaio, parou o ensaio, chamou
                       o regente  parte, depois o Goidanich chamou o spala da
                       orquestra como testemunha e eu, como diretor, e foi num
                       gabinete  parte para comunicar ao regente que se retirasse, que
                       ele estava despedido da orquestra.

       Era feita a resciso do contrato em setembro de 1980, sob o argumento de
insubordinao. Este fato gerou ento um processo trabalhista do regente contra
a OSPA, pois Machado fez valer o pr-contrato de continuao por mais dois
anos que havia assinado com a OSPA, ao assumir como regente titular em 1978.
O processo foi decidido em maro de 1981, dando-lhe ganho de causa e fixando
uma indenizao em Cr$ 58.825.905,91.




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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       No dia 8 de janeiro de 1981, Goidanich formalizava a sua renncia 
presidncia da OSPA, ao se aposentar do servio pblico estadual, e aceitar a
proposta de trabalhar no Rio de Janeiro, junto  EMBRATUR. Terminava-se mais
um mandato de presidncia da OSPA. Integrantes da orquestra, dessa poca,
como o msico Telmo Jaconi, reforam a importncia de Goidanich para a
entidade, ao afirmar que o considera um dos presidentes administrativos que ia l
pra dentro, organizava, reunia, tinha uma pacincia e tanto, um cara altamente
democrtico, de viso das coisas, sem perder a autoridade. Tinha bastante
autoridade, mas sabia muito bem conversar e discutir os problemas. Maestro h
32 anos na OSPA, Tlio Belardi refora a opinio de Jaconi, ao acreditar que foi
um dos melhores presidentes que teve a OSPA, por ser pessoa muito afvel,
sempre aberto ao dilogo, alm de gostar da OSPA, a principal qualidade,
segundo o ex-diretor Jairo Peres Figueiredo, que sempre atuou diretamente com
Goidanich, e que afirma ver nele um presidente absolutamente dedicado,
responsvel, sendo o presidente mais presente que se teve durante os treze
anos em que estive l.




                                                                                                69
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                          ROBERTO EDUARDO XAVIER


1. ROBERTO EDUARDO XAVIER E A FAMLIA


       Atualmente com quase 200 mil habitantes e uma rea total de 2.835,8 km,
a cidade de Rio Grande, localizada na zona sul do Estado, a mais de 300
quilmetros de Porto Alegre, pouco se assemelha  mesma cidade de 75 anos
atrs. No entanto, uma das suas principais fontes de renda ainda permanece
como referncia para o entendimento da vida rio-grandina: o porto de Rio
Grande, um dos portos mais importantes do Rio Grande do Sul e do Brasil.
       Nesta mesma cidade, no ano de 1929, aportava Luiz Ernesto Xavier, ento
fiscal do Ministrio da Educao, encarregado de fazer um levantamento da
situao das escolas pblicas no Brasil. Durante a realizao deste trabalho, Luiz
Ernesto veio a conhecer Laurinda de Macedo, ento professora de uma das
escolas visitadas. Como Luiz Ernesto era natural de Santos, local onde tambm
exercia sua carreira profissional, Laurinda de Macedo decidiu se mudar para a
cidade paulista. Roberto Eduardo Xavier nasceu da unio deste casal, dois anos
depois, no dia 6 de abril de 1931.
       No entanto, em 1932, manifestou-se no pai de Roberto a tuberculose. Por
ser uma doena infecto-contagiosa transmitida pelo ar, que at ento no tinha
cura, Roberto pouco pode manter contato direto com o pai. Luiz Ernesto faleceu
dois anos aps a constatao da doena, quando Roberto tinha somente trs
anos de idade. Com isso, Laurinda e o filho Roberto voltaram para Rio Grande,
onde foram morar com o irmo de Laurinda, mais conhecido como tio Mano.
Como forma de sustento, sua me voltou a lecionar, enquanto Roberto, alguns
anos depois, ingressou no ginsio do colgio Lemos Jnior.
       Ao morar numa cidade porturia, em plena poca da Segunda Guerra
Mundial, Xavier pode manter contato com marinheiros norte-americanos e,
conseqentemente, aprender a lngua inglesa, ao perceber a sua importncia
para poder se comunicar com o mundo. Este fator o credenciou, por exemplo,
com somente 15 anos de idade, a ler em ingls a revista norte-americana Time,
que o influenciou diretamente no exerccio da atividade jornalstica. O contato
com os norte-americanos tambm o estimulou a escrever uma novela, intitulada


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



O pesadelo de Frau Keller, somente publicada dcadas depois, aps o seu
falecimento, por F Emma, sua viva.
       Como em Rio Grande, na poca, no havia universidade, Roberto foi
estudar Direito na Universidade Federal de Pelotas, simultaneamente  sua
atuao no jornalismo rio-grandino. Sobre este perodo, comenta F Emma
Xavier:

                         Aconteceu uma ocasio que o Xavier tinha tido muito trabalho no
                         jornal e ele havia pego um trem para ir a Pelotas, onde, no
                         mesmo dia, ele teria uma prova. S que o Roberto estava to
                         cansado que dormiu em cima da prova. Os colegas, mesmo
                         sabendo da situao do Roberto, diziam que ele tinha que ser
                         acordado. O professor, entendendo a situao e valorizando o
                         seu trabalho, disse que o Roberto faria a prova assim que ele
                         acordasse. O Roberto me disse que acordou s onze horas da
                         noite e l estava o professor na frente dele, esperando que ele
                         acordasse para poder terminar a prova.

       Roberto no chegou a exercer de forma direta sua carreira em Direito,
embora tivesse atuado no setor, como solicitador da banca de advocacia de Hlio
de Arajo Costa, entre os anos de 1951 e 1954. Mas sua formao em Direito lhe
trouxe influncias para as outras reas profissionais em que atuou, pois Roberto
sempre dizia que, pelo fato de ter estudado Direito, podia fazer as reportagens
com um enfoque do que era correto ou no, pois ele estava baseado na lei, no
estava fazendo uma reportagem aleatoriamente, no que achava que era certo,
afirma F Emma.


A) A vinda para Porto Alegre


       Com ou sem a garantia de trabalho, Xavier tinha o desejo de se mudar
para Porto Alegre. O ano de 1954 veio a concretizar a sua pretenso, atravs de
uma proposta de trabalho do jornal A Hora. Roberto deixou, ento, Rio Grande,
acompanhado de sua me. No entanto, Porto Alegre no era um territrio
estranho para Xavier, como comenta F Emma:

                         Apesar de estar em Rio Grande, o Roberto conhecia muita gente
                         de Porto Alegre, porque os jornalistas, naquela poca, pelas
                         dificuldades de distncia, se comunicavam muito, atravs de
                         cartas. Alm disso, os jornalistas daquela poca circulavam
                         muito, eram sinnimos de bomia, porque era a maneira de eles


                                                                                                71
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       se conhecerem, se encontrarem.  o caso, por exemplo, do
                       Paulo Fontoura Gastal, com quem ele j mantinha contato desde
                       a poca de Rio Grande, pelo Clube de Cinema da cidade. Eles
                       no ficavam isolados, porque havia o hbito de se visitarem,
                       existia um intercmbio maior do que hoje, criava-se aquele
                       ambiente familiar.

       Assim como em Rio Grande, Xavier logo comeou a assumir
simultaneamente outras atividades dentro do jornalismo, como forma de sustento.


B) Roberto Eduardo Xavier e F Emma


       O ano de 1957 foi marcante para Xavier, no somente para sua carreira
profissional, como tambm para sua vida pessoal. Naquele momento, Roberto
ingressava na Cia. Caldas Jnior, at ento a mais importante empresa do setor
jornalstico no Rio Grande do Sul. Mas tambm foi o ano em que ele conheceu a
pessoa que viveu ao seu lado, at os seus ltimos dias: F Emma Picolli.
       Tudo comeou a partir do programa de perguntas e respostas D asas 
sua inteligncia, pela rdio Guaba, o qual Xavier assumiu a produo. Neste
programa o candidato escolhia um tema e precisava responder a todas as
perguntas sobre o assunto para conseguir o prmio principal, uma viagem a
Paris, patrocinado pela empresa de aviao Panair. Durante 11 meses, a partir
do dia 18 de junho de 1957, o pblico lotou o cinema Imperial, s teras-feiras,
para assistir s dezenas de candidatos que buscavam responder s questes
apresentadas.
       Entre os candidatos, havia uma jovem professora de 20 anos que
conquistava a simpatia do pblico ao responder perguntas relativas ao profeta
muulmano Maom. A candidata era F Emma que, ao longo do programa, foi
assumindo um papel de destaque,  medida que avanava na disputa. O que a
motivou a participar do programa foi a curiosidade histrica, o desejo de conhecer
pessoas diferentes e de sair do anonimato, como ela prpria comentou. No
entanto, esses meses de durao do programa tambm foram responsveis pela
aproximao entre F e o produtor, Roberto Eduardo Xavier.

                       O Roberto achou interessante o fato de eu responder sobre o
                       Maom e a a gente comeou a conversar. Se passou um ms,
                       dois meses, trs meses e sempre que terminava o programa ele
                       vinha conversar. A eu comecei a me questionar sobre o porqu

72
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         de ele estar conversando comigo. Ele queria descobrir o que 
                         que eu sabia, foi a que eu descobri que era ele quem fazia as
                         perguntas.

       Neste meio tempo surgiu, nos bastidores, o comentrio de que Roberto e
F Emma estariam mantendo uma relao, fator que fez Alberto Pasqualini
decidir retirar a candidata da competio. Porm, F Emma protestou e no
cedeu  deciso, ao afirmar que sua eliminao s seria possvel diante de uma
resposta errada. Diante disto, coube ento a Xavier se debruar ainda mais sobre
os livros para conseguir formular uma pergunta irrespondvel, j que, como a
prpria F Emma afirma, durante seis meses, almocei, jantei, passeei e dormi
com Maom, nem ele sabia tanto sobre sua vida.
       Na oitava semana do programa, Xavier formulou uma pergunta exigindo
como resposta o inteiro teor do discurso feito por um tio de Maom no casamento
do profeta. F recitou o longo texto, mas faltou uma frase, considerada
"essencial" para que Mendes Ribeiro, apresentador do programa, pronunciasse o
"absolutamente certo". Este fator a eliminou do programa, ganhando um prmio
em dinheiro atravs do patrocnio da Pepsi-Cola.
       No entanto, comeava ali, nos bastidores do programa D asas a sua
inteligncia, uma relao de 32 anos, oficializada em maro de 1958, com o
casamento entre F Emma e Roberto Eduardo Xavier, unio esta que gerou os
filhos Luiz Ernesto, no ano de 1960; Emma, em 1964; Ana Lcia, em 1966; e
Antnio Carlos, em 1970.


C) Um duro golpe para Xavier


       As dcadas de 1960 e 1970 se mostraram bastante agitadas para Xavier,
diante dos compromissos profissionais que havia assumido. A comear pelo ano
de 1960, no qual Roberto contou com cinco atividades simultneas nas reas de
jornalismo e relaes pblicas. Os anos seguintes no somente o consolidaram
como um dos principais nomes na rea de comunicao no Rio Grande do Sul,
como tambm foram responsveis por limit-lo enquanto disponibilidade de
tempo para dedicar  sua famlia. Comenta F Emma:

                         s vezes acontecia de o Roberto ter uma viagem, o que o fazia
                         ter que sair muito cedo de casa, enquanto os filhos estavam


                                                                                                73
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       dormindo, ou ele voltava tarde, depois das nove e meia, quando
                       tambm os filhos j estavam dormindo. Muitas vezes, ele
                       trabalhava aos sbados tambm, porque no dava conta de
                       fazer tudo durante a semana, como  o caso de artigos, crnicas,
                       tudo isso que podia escrever em casa. Sbados era dia normal
                       de trabalho, e s vezes, ele usava at o domingo.
                       Agora, uma coisa era certa: ns sempre buscvamos tomar caf
                       da manh juntos, almoarmos juntos e s vezes jantarmos
                       juntos, ele fazia questo disso. De manh, ele levava os filhos
                       para o colgio Farroupilha, onde as aulas comeavam s sete e
                       meia. Eles saam s sete e quinze e tomavam caf da manh em
                       casa, impreterivelmente, s sete da manh. Quando ele no
                       tinha compromissos no fim de semana, em geral, ns saamos
                       aos domingos para visitar museus, passear em praas, visitar
                       algum, desde manh cedo, sendo que, no caf de final de
                       tarde, no domingo, o Roberto fazia questo de no ter nenhum
                       aparelho ligado, porque era a oportunidade de ele conviver com
                       os filhos.

       A ida da famlia para So Paulo, entre os anos de 1964 e 1968, a partir da
nomeao de Xavier para trabalhar no setor de relaes pblicas da agncia
MPM, aumentou a distncia de Xavier da convivncia diria com a famlia. Tendo
que sair logo de manh para o trabalho, sem ter como almoar com a famlia e
voltando somente a noite para casa, Roberto buscava compensar essa ausncia
nos fins de semana.
       Em contrapartida, o crculo de amizades aumentava com o tempo, 
medida que Roberto foi conhecendo pessoas das mais diversas reas, que o
acompanharam profissionalmente ao longo dos anos. A sua capacidade em
congregar pessoas foi comprovada no ano de 1981, quando Xavier completou 50
anos de idade, em uma festa realizada no SENAC, quando reencontrou
personalidades vindas das mais diversas reas, como  o caso de polticos,
advogados, jornalistas e publicitrios.
       Mas o ano de 1981 trouxe a Xavier o diagnstico de que ele estava com
cncer. Entre os anos de 1981 e 1989, Roberto lutou incansavelmente contra a
doena, realizando ao todo oito cirurgias, alm de sesses de quimioterapia e
radioterapia. Mesmo com o fsico debilitado, Xavier buscou, simultaneamente,
manter-se trabalhando, como lembra F Emma:

                       Foi um perodo muito difcil, mas o Roberto sempre foi um
                       lutador, e a necessidade do trabalho  que fez com que ele no
                       se voltasse exclusivamente para a doena. Como ele prprio
                       dizia, se eu no trabalhar, vou ficar louco. O cncer afetou o



74
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         fsico dele, mas no a mente, e ele continuava produzindo,
                         criando, permanecendo lcido at o dia de sua morte.

       Xavier veio a falecer em junho de 1989. No entanto, o seu legado
profissional permanece vivo, como uma importante fonte de consulta para o
entendimento da comunicao sul-rio-grandense e brasileira no sculo XX.


2. ROBERTO EDUARDO XAVIER E O JORNALISMO


       Um dos principais aspectos da carreira profissional de Roberto Eduardo
Xavier  a sua versatilidade, por ter atuado nas mais diversas reas, desde a
publicidade e as relaes pblicas at a administrao pblica, o Direito, o
turismo e o meio ambiente. No entanto,  no jornalismo que Xavier no somente
iniciou sua vida profissional, como tambm desenvolveu grande parte da sua
carreira.
       Roberto, desde os 14 anos, j trabalhava na tipografia do jornal Rio
Grande e escrevia para o jornal da escola, fatores que encorajaram seu ingresso
na imprensa com apenas 17 anos, ainda na cidade natal, dando assim
continuidade a uma tradio da famlia, iniciada h cinco geraes, sendo
exercida inclusive pelo pai, Luiz Ernesto, que atuou em jornais na cidade paulista
de Santos.


A) Roberto Eduardo Xavier e a imprensa


       Xavier iniciou sua carreira no jornalismo em 1948 como reprter do jornal
vespertino Gazeta da Tarde, em Rio Grande. Comeava, assim, um perodo de
intensa atuao na imprensa, com destaque para a dcada de 1950, quando
exerceu as funes de reprter, redator, colunista, chefe de redao e, mais
tarde, de produtor, no rdio.
       Um ano depois, em 1949, ele ingressou no jornal Rio Grande como
redator, ali permanecendo nos dois anos seguintes, para ento voltar  Gazeta
da Tarde no ano de 1952. Seu reingresso no Rio Grande ocorreu em 1953, onde
permaneceu at 1956. Sobre estas constantes mudanas de jornal, Xavier
chegou inclusive a comentar na sua coluna Mosaicos, pelo jornal Rio Grande.


                                                                                                75
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.



                       Hoje estou aqui (jornal Rio Grande). Mudar de jornal  quase que
                       o mesmo que mudar de casa. Leva-se pouco com a gente,
                       alguns recortes. Fica muito do que se fez, do que se foi. No vivi
                       muito, ainda, mas j perambulei um bocado por revistas e
                       jornais, oficinas e redaes. E gosto disso. Acredito mesmo que
                       nasci com tipos de impresso no sangue, em vez dos
                       acadmicos glbulos vermelhos (Rio Grande).

       Neste perodo inicial de sua carreira como reprter destaca-se um fato que
obteve ampla repercusso regional. Em 1955, escrevendo para o Rio Grande,
Xavier resolveu denunciar a jogatina na cidade de Rio Grande. Tais reportagens
comprometiam diretamente a ao do delegado de polcia que, embora estivesse
isento de qualquer suspeita, no agia com a energia necessria para combater
as aes ilcitas que ocorriam na cidade. Em decorrncia desta denncia,
Roberto foi agredido pelo filho do delegado, em pleno centro da cidade,
causando, assim, uma intensa mobilizao da sociedade rio-grandina, em defesa
do jornalista. Desde os jornais porto-alegrenses como Correio do Povo, A Hora,
Dirio de Notcias, passando por associaes de classe, como a Associao Rio-
Grandense de Imprensa (ARI) e a Associao dos Jornalistas Profissionais de
Passo Fundo, fez-se ampla cobertura do fato, buscando-se defender a liberdade
de imprensa.
       Um dia aps o incidente, e quatro dias aps o incio das reportagens sobre
o tema, o jornal Rio Grande dava por concluda sua campanha contra o jogo na
cidade. Assim escreveu Xavier.

                       Vamos colocando, hoje, um ponto e vrgula na campanha que
                       movemos contra o jogo dominante em nossa cidade. Quando
                       iniciamos tal combate, no foram poucos os que disseram que
                       pregvamos no deserto. No foi bem assim. Quatro dias depois
                       de iniciada a campanha, campanha viril, corajosa e honesta,
                       varremos o jogo das ruas do Rio Grande (A Hora, 28/10/1955).

       O ingresso de Xavier no jornalismo opinativo, como cronista, comeou
muito cedo. Com somente 20 anos de idade Roberto j assinava sua primeira
coluna, intitulada Mosaicos. Com o pseudnimo de Bodoque, comeava a circular
ento a principal e mais longeva seo de sua carreira, que o acompanhou desde
sua criao, na Gazeta da Tarde, em 1952, passando pelo Rio Grande, de 1953
a 1956 e, anos depois, pela Folha da Tarde, entre 1959 a 1961. Sobre o
significado do pseudnimo explica F Emma:


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         Bodoque era, digamos assim, o rebelde. Voc pega o bodoque,
                         o que voc faz? Voc pega uma pedrinha e atira numa vidraa.
                         Quando tinha alguma coisa para ser criticada, ele no podia
                         assinar Roberto Eduardo Xavier, porque a o pessoal ia pegar no
                         p dele, mas o Bodoque era o irreverente. Sempre tinha alguma
                         coisa pra mudar, no mnimo alguma pedrada na prefeitura, na
                         poltica ou em alguma coisa que era abordada. Ento, digamos
                         assim, era o seu lado crtico.

       Na sua primeira publicao, no dia 30 de abril de 1951, Bodoque explicava
que, aps quatro anos na gaveta, voltamos mais dispostos do que nunca a
comentar coisas, gentes e fatos. O autor complementava: nosso mosaico ter
tijoletas de todas as cores, ao gosto do fregus: futebol, poltica, cinema,
variedades. Xavier explorou as mais diversas questes nesta coluna. A poltica
foi um tema constante na sua abordagem,  medida que se identificavam falhas
na administrao pblica, como o caso do esgoto que invadiu as caladas do
centro de Rio Grande durante uma semana sem ser tomada qualquer medida
pela prefeitura, em 1951. O descaso na administrao do porto da cidade, alm
da situao difcil por que passava a Biblioteca Pblica, gerou este comentrio:

                         Assinando uma explicao sobre a demora das obras da
                         Biblioteca, o presidente Waldemar Thiesen refere-se  crtica
                         velada de alguns cronistas papa-areia; crtica descabida, diga-se
                         de passagem, somente permissvel para quem no conhece as
                         dificuldades por que luta a centenria casa de estudos, sem
                         auxlio, com subvenes de meia pataca, contando quase que
                         unicamente com as mensalidades dos scios... E houve gente
                         que se demitiu, quando a mensalidade aumentou para dez
                         cruzeiros!!! (Gazeta da Tarde, 12/05/1951)

       A seo surgia tambm como um guia cultural, ao registrar a exibio de
filmes e palestras no Clube do Comrcio de Rio Grande, assim como recitais no
Clube do Comrcio. Mosaicos assumiu ainda um papel comunitrio, ao publicar
solicitaes da comunidade em relao  carncia de algo, envolvendo-se,
assim, diretamente, com as necessidades do povo rio-grandino. Foi o caso, por
exemplo, da pr-estria do filme gacho Vento Norte, quando Bodoque buscou
incentivar seus leitores a participar do evento, j que 40% da renda total seriam
revertidos para a compra de estreptomicina para tuberculosos indigentes da
Santa Casa.
       Foi nesta mesma seo que surgiu um personagem criado por Xavier, com
o nome de Floriano Beiro, e que, em muitas edies de Mosaicos, realizava uma


                                                                                                77
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


conversa com Bodoque sobre questes polmicas. O jornal Rio Grande
concedeu inclusive a Roberto mais um espao para criar a seo Pinceladas,
assinando como Floriano Beiro, em que buscou abordar temas relativos s
belas artes.
       No perodo em que permaneceu em Rio Grande, Xavier ainda escreveu
como colunista para o jornal Cruzeiro do Sul, em 1951, na seo Apontamentos
de Cinema. Nos anos de 1953 e 1954 escreveu para Cinelndia, jornal gratuito
distribudo nas salas de cinema, a seo Conversa de Domingo, com o
pseudnimo de Lorgnon, em que tambm abordou questes sobre cinema, mas
esteve focado principalmente nos eventos da sociedade rio-grandina.
       Em 1955, Xavier concluiu o curso de Direito em Pelotas, fator este que
serviu como um divisor de guas na sua carreira, no s pelo fato de estar mais
focado no jornalismo do que na advocacia, mas, principalmente, porque marca a
sua vinda em definitivo para Porto Alegre, onde exerceria grande parte da sua
vida profissional, destacando-se no jornalismo sul-rio-grandense.
       Roberto permaneceu durante mais dois anos escrevendo para o jornal Rio
Grande, mas sua participao no jornalismo deslocara-se para a capital gacha,
atravs do jornal A Hora, onde atuou ao lado de nomes como Josu Guimares,
Lauro Schirmer, Cndido Norberto, Clia Ribeiro e tantos outros, durante os anos
de 1956 e 1957, sendo efetivado como reprter, redator e, mais tarde, como
colunista. Em A Hora, Roberto obteve espao de destaque  medida que,
exercendo as funes de reprter e redator, publicava reportagens assinadas, de
uma a duas pginas. Vale destacar, reportagens como aquela em que ele
registrou, em 15 de setembro de 1956: o roubo de um avio da Varig por um ex-
funcionrio da empresa, que acabou por suicidar-se, mas que, acima de tudo,
mostrou a fragilidade da segurana, j que qualquer outra pessoa poderia ter
feito o mesmo.
       Xavier registrou tambm momentos importantes, como as eleies para a
presidncia dos Estados Unidos, em 1956, disputadas entre Dwight Eisenhower e
Richard Nixon. Com o ttulo de Oscar Machado fala sobre a Amrica do Norte -
1956. Roberto entrevistou Oscar Machado, que havia estado recentemente nos
Estados Unidos, destrinchando, assim, questes como a nacionalizao do Canal
de Suez e a preocupao norte-americana com o comunismo ascendente na
Amrica Latina.

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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       Xavier realizou ainda grandes sries de reportagens. Em A morte est pela
hora da vida, buscou discutir o custo financeiro da morte para as famlias de
classe mdia, questionando uma posio mais ativa do Estado no apoio a
famlias desfavorecidas economicamente, frente a um custo cada vez maior nas
funes fnebres.

                         A morte, leitor,  um problema econmico a onerar as classes
                         mdia e pobre.  problema real, atual. Dentro da complexa
                         realidade social dos nossos dias, este problema desempenha
                         importante funo com respeito ao agravamento da crise em que
                         se debatem as classes menos favorecidas. No cabe aqui a
                         discusso do plano filosfico ou religioso. Cabe, isto sim, a
                         discusso do problema econmico. Existe uma verdadeira
                         indstria funerria em funcionamento. Esta indstria aufere
                         grandes lucros. Tem havido, mesmo, algum interesse dos
                         poderes pblicos, que tm procurado aliviar a carga dos ombros
                         dos particulares, estabelecendo uma poltica de auxlio aos
                         desafortunados, para que estes possam enfrentar as despesas
                         funerrias. Mas, at agora, apenas se contornou o problema,
                         mediante o emprego de paliativos circunstanciais (A Hora,
                         02/08/1956).

       Merece destaque tambm a srie de reportagens que Xavier escreveu
sobre a semana de preveno de incndios, em decorrncia do Dia do Bombeiro,
em que buscou expor a importncia da atividade daqueles profissionais. Xavier
tambm fez a cobertura da 6 Sesso da Comisso Carbonfera, realizada pela
Organizao Internacional do Trabalho, atravs dos depoimentos do deputado
Walter Giordano Alves, representante do pas naquele encontro, ao abordar
questes relativas  indstria carbonfera, em lugares como o Vale do Ruhr, na
Alemanha Ocidental, e as minas de Cardiff, no pas de Gales.
       O que existia em comum entre todos esses exemplos era a forma como o
texto de Xavier se desenvolvia. Vindo de uma gerao em que a influncia do
jornalismo norte-americano marcou profundamente o jornalismo local, seja pela
implementao do lead na imprensa nacional, como pela influncia da literatura,
Roberto optou por realizar um jornalismo mais narrativo, com alguns ecos da
revista norte-americana Time, onde a presena do reprter na apurao dos
dados fazia parte da notcia.

                         - Desculpe-me receb-lo assim  disse o Prof. Oscar Machado
                         ao reprter, referindo-se ao fato de estar deitado no div do
                         living. O reprter toma um cafezinho e o prof. Machado inicia a
                         palestra a respeito da atualidade americana. No corrente ano,


                                                                                                79
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       ser resolvido o problema da sucesso presidencial, que
                       interessa no s aos EUA, como a todos os pases do Ocidente
                       (A Hora, 08/08/1956).

       A cada reportagem, Xavier explorava caractersticas potenciais da
narrativa literria, como o dilogo ou a narrao de aes de um entrevistado,
alm de observaes do prprio reprter sobre o tema abordado, tornando assim
o texto mais arejado, sem correr o risco de sofrer uma padronizao no trato da
informao, atravs do lead.  o caso, por exemplo, de uma cobertura que o
jornalista fez em So Leopoldo, intitulada A misria mora no mercado.

                       J se tornou lugar-comum, na imprensa brasileira, o relato das
                       condies de vida dos marginais e talvez a insistncia com que
                       os jornais e revistas de todo o pas estampam essa dura e triste
                       realidade, seja a responsvel pela indiferena com que o pblico-
                       leitor recebe a narrao do drama vivido pelos sem-sorte e sem-
                       fortuna.
                       No h, portanto, e a rigor, novidade alguma nesta reportagem
                       que procura apenas mostrar uma maloca diferente, instalada s
                       margens do Rio dos Sinos onde comea um dos ncleos
                       urbanos mais importantes do nosso Estado, So Leopoldo (A
                       Hora, 16/08/1956).

       J experimentado cronista, foi questo de pouco tempo para Xavier
possuir sua prpria seo em A Hora. Isto aconteceu a partir de julho de 1956,
com a coluna Pedrinhas e Pedradas, assinada por Bodoque, assim como sua
antecessora Mosaicos. Com o subttulo de Uma seo que aparece na hora,
Pedrinhas e pedradas ficou concentrada em assuntos relativos  poltica em
mbito regional, nacional e internacional.
       Em setembro do mesmo ano, Roberto comeou a assinar uma segunda
seo, chamada Mala Consular. Com periodicidade semanal, sendo publicada
aos sbados, Mala Consular era voltada para assuntos internacionais. Ambos os
espaos tinham o formato de pequenas notas informativas, diferentemente de um
terceiro espao assinado pelo jornalista, com o ttulo de A Hora do Povo. Nesta
seo, ele foi responsvel pela seleo de queixas e reclamaes que o leitor
enviava ao jornal, sobre os mais diversos assuntos, como problemas no trnsito,
a distribuio de gua, iluminao pblica e outros.
       Xavier tambm exerceu as funes de chefe de redao e gerente
comercial do jornal A Hora, onde permaneceu at o ano de 1957. Na sua, at
ento recente, estadia em Porto Alegre, ele colaborou com o semanrio Hoje, em


80
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



1955, alm de se tornar redator da conceituada Revista do Globo, a partir de
1956, onde ficou at 1959, exercendo tambm a funo de editor.
       Para o ano de 1957, Xavier daria um grande passo na sua carreira
jornalstica. Ao ser contratado pela Companhia Jornalstica Caldas Jnior, ele
agora ingressava na empresa mais bem consolidada e influente do ramo na
regio sul do pas. Comandada por Breno Caldas, e contando com os melhores
jornalistas do estado, como Alberto Pasqualini, Flvio Alcaraz Gomes, Paulo
Fontoura Gastal e tantos outros, a empresa possua nos jornais matutino Correio
do Povo e vespertino Folha da Tarde, os maiores veculos de imprensa do Rio
Grande do Sul.
       No dia 16 de abril de 1957, a Folha da Tarde publicou uma matria com o
ttulo Folha da Tarde lana um novo estilo de reportagem. Tratava-se de um
formato de reportagem em que o leitor escolhia o tema a ser abordado para o
jornal apurar. Neste espao, chamado Voc dirigir a reportagem, foram
contratados os jornalistas Alberto Andr e Roberto Eduardo Xavier, nomes que
trouxeram credibilidade  proposta, por terem vasta experincia na imprensa rio-
grandense.
       Com o ttulo de Foco pestilento em Zona Central de Porto Alegre, Xavier
realizou sua primeira reportagem para a Cia. Caldas Jnior, a partir de uma
denncia feita pela Sociedade dos Amigos do Bairro Santana. Assim se inicia a
reportagem:

                         No incio da rua Luiz Manuel, corre um trecho do antigo arroio
                         Dilvio, trecho que foi recentemente canalizado, ficando a zona
                         saneada. Mas, logo adiante, no terreno que  propriedade do
                         Estado, e onde ser levantado o estdio do colgio estadual
                         Jlio de Castilhos, deparamos com um espetculo apavorante.
                         Naquele trecho, o arroio se converte em um legtimo rio de
                         miasmas, pois no s as guas esto bloqueadas por falta de
                         canalizao e escoamento, como recebe o vazamento cloacal de
                         meia dzia de ruas (Folha da Tarde, 17/04/1957).

       Em seqncia, surgiram reportagens que denunciavam desde o atraso de
dois meses no perodo letivo do Jardim de Infncia Modelo, devidamente
registrada a partir de protestos das famlias dos alunos, at a importao de leite
vindo de Minas Gerais, mesmo sabendo que o Estado possua uma ampla
produo para se auto-sustentar. As reportagens tambm enfocavam perfis de
pessoas, como a cantora Laura Montes, raptada em Porto Alegre por


                                                                                                81
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


antiperonistas. A maioria das reportagens, nos dias posteriores  sua publicao,
provocava reaes diversas, seja pela soluo do que foi denunciado, seja pela
intensificao dos protestos.
       Neste seu ano de estria na Cia. Caldas Jnior, Xavier registrou
momentos importantes, como a primeira visita do consagrado pianista e cantor de
jazz norte-americano Louis Armstrong ao pas, chegando a Porto Alegre, assim
como a descoberta de um pretenso tesouro deixado por missioneiros jesutas, em
Viamo.
       O ano de 1958 deu continuidade s reportagens de Xavier relacionadas a
temas polmicos, como foi o caso da telefonia no estado. Em uma srie de
matrias publicadas quase que diariamente, questionavam-se as causas e as
conseqncias de um sistema telefnico insuficiente  demanda da capital
gacha.

                       Voltamos hoje a abordar um dos grandes  seno o maior 
                       problema da capital gacha: o problema das ligaes telefnicas.
                       Insistimos, porque a situao se agrava dia a dia e parece reinar
                       sobre o problema um superior desinteresse, de parte daqueles
                       que deveriam ter todo o empenho para encaminhar uma soluo
                       que atendesse aos interesses do povo porto-alegrense. O
                       sistema de ligaes telefnicas da capital gacha tem, sem
                       sombra de dvida, duas grandes caractersticas, dois aspectos
                       marcantes, que individualizam-no em todo o pas:  caro e ruim
                       (Folha da Tarde, 03/07/1958).

       Xavier tambm teve a oportunidade de expor mais claramente sua vertente
literria atravs da seo Conversa sem compromisso, publicada no suplemento
de sbado da Folha da Tarde e nas edies dominicais do Correio do Povo.
Possuindo um espao mais amplo do que as demais sees de crnicas
anteriores, Conversa sem compromisso trazia em destaque um Xavier pouco
conhecido, embora sempre identificado nas suas reportagens: a de contador de
histrias.
       Em 1959, Roberto voltou a escrever Mosaicos, assinando-a uma vez mais
como Bodoque. A diferena nas publicaes da mesma seo pelos jornais de
Rio Grande, em relao  Folha da Tarde, estava na maturidade do jornalista,
agora com mais de dez anos no exerccio da profisso. No formato de pequenas
notas, com enfoque na poltica, mas tambm aberto a qualquer outro tipo de
tema, Mosaicos agora possua informaes e posies mais enxutas e


82
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



consistentes por parte do autor, sem as carregadas ironias que tornavam a seo
mais verborrgica, no perodo de Rio Grande. Notcias sobre os bastidores da
poltica, em nvel regional e nacional, tambm ganharam contornos de maior
importncia,  medida que Xavier, agora, se encontrava no centro poltico do
estado.
       O reconhecimento a Roberto, pela seo Mosaicos, veio ainda em 1959,
ao ganhar o segundo lugar no Prmio Sagol de Jornalismo, na categoria crnicas
e artigos. Este prmio, concedido aos melhores do ano da imprensa
metropolitana, teve como comisso julgadora nomes como Moyss Vellinho, A.
R. Schneider e J. F. Amaro Jnior que premiaram, entre outros, em primeiro lugar
Arlindo Pasqualini, na categoria crnicas e artigos, Antonio Carlos Ribeiro, na
categoria reportagens e Amir Rodrigues, em radiodifuso.
       Outro fator de destaque para a carreira de Xavier foi sua nomeao como
diretor do Bureau Brasil Sul de uma das maiores agncias internacionais de
notcia, a norte-americana Associated Press (AP). Xavier tornou-se representante
da regio sul do pas, incluindo Santa Catarina, Paran e parte da Argentina e
Uruguai, pela AP, onde permaneceu at 1965, sucedendo o decano da imprensa
gacha, Archymedes Fortini. Neste mesmo perodo, a partir de 1960, Xavier
participou da administrao da Associao Rio-Grandense de Imprensa (ARI),
como integrante do departamento cultural em conjunto com Lo Arruda, Glnio
Peres e Ruy Diniz Neto.
       A dcada de 1950 foi, sem dvida alguma, a mais intensa de Roberto
enquanto jornalista, profisso que consolidou seu nome no ramo da
comunicao. No entanto, a dcada seguinte presenciou sua expanso em
outras reas de atuao. Xavier continuou a exercer a funo de reprter e
colunista nos primeiros anos da dcada de 1960, mas j dividia seu tempo com
empregos relativos s reas da administrao e, posteriormente, da publicidade,
da propaganda e das relaes pblicas, inclusive na prpria Cia. Caldas Jnior.
       Mosaicos continuou a ser publicada pela Folha da Tarde at 1961, perodo
em que o jornalista acompanhou de perto os governos de Leonel Brizola no
estado, e do curto tempo de Jnio Quadros na presidncia do pas:

                         O governador Leonel Brizola, que est realmente preocupado
                         com o diagnstico da situao do Estado, comentou ontem, aqui
                         na Folha: "A coisa  to grave que eu estou disposto at a bater


                                                                                                83
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       em casa do Peracchi e dizer-lhe que precisamos unir todas as
                       foras para enfrentar a situao". Momentos antes, tinha
                       afirmado: " grave, gravssima. A cada momento eu sinto o
                       Estado desfalecer nos meus braos". Entende o senhor Brizola
                       que o Rio Grande deva reagir imediatamente, sob pena de ficar
                       inteiramente marginalizado no eixo do progresso nacional (Folha
                       da Tarde, 28/04/1960).

       Assinando    com    o   pseudnimo     de   Bodoque,     Xavier   permaneceu
escrevendo crnicas para a edio dominical do Correio do Povo. Neste mesmo
perodo, assumem destaque as reportagens em formato de perfis, sobre
personalidades importantes nas mais diversas profisses. Apresentada como
entrevista, dividida em 11 blocos, a seo A outra face foi publicada pelo Correio
do Povo. Sobre a seo, comenta F Emam:

                       A Outra face foi uma srie enorme de trabalhos. Era o jornalismo
                       com a entrevista mas de uma maneira diferente, onde se
                       buscava mostrar o outro lado, vamos dizer, o outro lado do
                       poltico, do pintor. Mostrava o que era a pessoa, onde o que
                       importava era o lado humano.

       Na primeira reportagem, Xavier destacou o poltico Adel Carvalho, por
suas crticas mordazes e stiras  Cmara dos Vereadores, que fizeram a
sociedade rir s gargalhadas. O cartgrafo Edgar Klettner foi abordado na
segunda reportagem de A outra face, quando relatou suas experincias, como
sua opo pela cartografia, ao invs da engenharia, e sua contribuio para a
Revista do Globo, com desenhos tcnicos. Roberto abordou em seguida a
nadadora Lisia Barth, que meses depois integraria a delegao brasileira no
campeonato sul-americano daquela modalidade.
       Um dos mais renomados nomes das artes plsticas gachas, o pintor
Edgar Koetz, tambm teve seu histrico artstico e pessoal registrado na seo.
Na reportagem, Koetz expe as fases de sua obra, ligadas diretamente  sua
estadia em cidades como Buenos Aires, nos anos 1940, e So Paulo, nos anos
1950, alm de no deixar de criticar a academia, que tanto combateu no perodo
inicial de sua carreira, em Porto Alegre.
       A outra face prosseguiu registrando nomes como o de Edgardo, ator
portugus radicado no Brasil; Rivadvia de Souza, o Riva, jornalista que, ao
longo dos anos 1930, manifestou-se contra o integralismo; Jos Gay da Cunha,
militar que, entre outras aes, participou da Revoluo de 1930; Henrique



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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



Bertaso, editor de longa data da Revista do Globo; o violinista Luiz Telles, que fez
parcerias com nomes como Alberto Ruschel e Dilermando Reis; o deputado
Carlos da Silva Santos, um dos fundadores do Sindicato dos Operrios
Metalrgicos do Rio Grande do Sul e que, mais tarde, atuou na poltica, em
partidos como PSD e PTB; e Vicente Rao, rei momo na dcada de 1950, em
Porto Alegre.
       O ano de 1963 trouxe para Xavier um grande momento na sua carreira.
Com seu nome consolidado, no somente na Cia. Caldas Jnior, como tambm
no jornalismo sul-rio-grandense nos seus pouco mais de 15 anos de atividades,
Roberto teve a oportunidade de trabalhar fora do pas. Em um programa de
intercmbio com jornalistas estrangeiros, patrocinado por jornais norte-
americanos e pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, Xavier foi
convidado a trabalhar durante dois meses no Journal and Sentinel, localizado na
cidade de Winston Salem, na Carolina do Norte. Ele se tornou o terceiro jornalista
a ingressar neste intercmbio, cabendo o pioneirismo do projeto ao jornalista
australiano Ronald Mckie, que permaneceu durante trs meses naquele mesmo
jornal, em 1952, seguido pelo jornalista turco Bulent Ecevit, em 1954.
       Roberto ficou entre janeiro e maro daquele ano em intensa atividade nos
Estados Unidos. Nos seus artigos buscou estabelecer relaes de semelhanas
e diferenas entre a cultura norte-americana e a brasileira. Logo nos seus
primeiros dias no pas, visitou Nova York e esteve em Washington, durante uma
semana, fato que o inspirou a escrever o seu primeiro artigo em ingls, com o
ttulo de First impressions of US. Ao ser perguntado em relao s suas primeiras
impresses sobre os Estados Unidos, Roberto afirmou ser muito cedo para se
dizer algo, embora pudesse opinar sobre a capital norte-americana, a nice city,
but I think that its quite diferent from the rest of the country, as Brasilia is diferent
from the others cities of Brazil.
       No artigo American literature and brazilian readers Xavier destaca a
recepo da literatura norte-americana no Brasil, colocando Ernest Hemingway,
autor do livro Por quem os sinos dobram como o favorito dos ltimos 30 anos,
seguido pelos escritores Louis Bromfield e os prmios Nobel de literatura, John
Steinbeck e Pearl Buck. Roberto ainda incentivava um programa em comum
entre os dois pases, no mbito das artes, como forma de um maior
conhecimento recproco das duas culturas.

                                                                                                85
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


       A poltica tambm ganhou espao nos textos de Xavier, como no artigo
Election is diferent in Brazil, em que o jornalista destaca a existncia do voto
obrigatrio no Brasil, diferentemente dos Estados Unidos. Roberto arriscou ainda
uma lista das personalidades norte-americanas mais populares no Brasil, em
Best know americans listed  Kennedy is in public eye in Brazil, colocando o at
ento presidente John Kennedy em primeiro lugar, seguido pela atriz Marilyn
Monroe, o ator e diretor Charles Chaplin, a atriz Elizabeth Taylor e o ex-
presidente Eisenhower. Mas  no artigo We need to know each other que Xavier
assume uma importante posio crtica ao sugerir um maior intercmbio de
experincias nas mais diversas reas entre os dois pases:

                       We don't need to learn how to like one another. But we need to
                       know each other. Love is possible only when two persons or two
                       peoples know one other deeply. There's a long way in front of us.
                       We need to improve our communications system. We need to
                       export ideas from Brazil to the United States and vice versa, and
                       to debate and discuss these ideas with open minds, without
                       prejudices or false premises (Journal and Sentinel).

       Ao todo, Xavier escreveu quinze artigos para o Journal and Sentinel,
incluindo um texto em primeira pgina, intitulado Things to remember about twin
citizens, relatando suas impresses sobre a sociedade norte-americana. No
entanto, suas aes no se limitaram somente aos textos, j que Roberto
tambm realizou diversas palestras sobre as relaes entre os dois pases, alm
de coleo de slides e outras questes especficas referentes ao Brasil.
Recebendo mais de vinte convites para palestras, dos quais alguns tiveram de
ser recusados por falta de tempo em sua agenda, o jornalista trouxe seu
depoimento para grupos como o Winston Salem Teachers College Journalism
Class, Waker Forest Sociology Club e tantos outros. F Emma relembra esse
perodo na vida de Xavier:

                       A ida para os Estados Unidos abriu os horizontes do Roberto.
                       Por mais que tu tenhas uma viso grande, a partir de
                       determinado veculo, quando voc vai para o exterior, voc
                       aprende muita coisa, inclusive a se observar, a ver o seu pas e a
                       sua cidade de uma maneira diferente. As coisas que o Roberto
                       aprendeu l, que poderiam ser aplicadas aqui, foram aplicadas,
                       inclusive a responsabilidade do reprter por aquilo que escrevia.

       A estadia de Xavier nos Estados Unidos no o impediu de continuar
escrevendo para a imprensa rio-grandense. Foi criada, no Correio do Povo, a

86
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



seo Entrevista com o Tio Sam, na qual Roberto relatava suas impresses
sobre os norte-americanos e seu pas. Vale destacar a coluna do dia 5 de maro
de 1963 quando ele aborda a relao entre a sociedade norte-americana e a
famlia Kennedy, alguns meses antes do assassinato do presidente, no dia 22 de
novembro.

                         Este pas est em lua-de-mel com a famlia Kennedy. No ms
                         passado, em Washington, passei duas tardes vasculhando
                         livrarias. E fiquei impressionado com o nmero de livros que
                         esto sendo publicados a respeito dos Kennedy. O presidente,
                         sua esposa e Bobby, o secretrio da justia, so os "alvos"
                         favoritos (Correio do Povo, 05/03/1963).

       Xavier tambm registrou momentos como a chegada do quadro Mona
Lisa, de Leonardo da Vinci, para a National Gallery, em Washington, fato
marcado por polmica gerada pelos crticos franceses a Andr Malraux, ento
Ministro da Cultura da Frana, pela longa viagem que a obra estava realizando. A
recepo da cultura brasileira nos Estados Unidos tambm foi discutida ao
destacar o sucesso do escritor Jorge Amado, com a traduo de Gabriela, cravo
e canela, ficando entre os cinco livros mais vendidos em todo o pas em um ms
e meio, assim como o destaque da bossa nova, vista como o brazilian jazz. No
seu roteiro cultural, Roberto chegou inclusive a ser abordado por uma senhora
que ficara comovida com a leitura do livro The time and the wind, traduo do
primeiro volume de O tempo e o vento, de Erico Verissimo.
       Um assunto amplamente analisado pelo jornalista foi a sociedade norte-
americana. Xavier destacou a vida organizada e metdica do povo e a
importncia dos valores sociais, como o trabalho, a famlia, a igreja, o club cvico
e o hobby. Destaca o comodismo do americano mdio, cujo ideal  um mundo
inteiramente americanizado, onde ele possa sentir-se  vontade em qualquer
parte. Para Roberto, o pas  organizado no sentido das cadeias, fator que gera a
produo em massa e atinge a padronizao e o consumismo.

                         O americano  muito mais motivado pela propaganda que o
                         latino. Toda a estrutura econmica do pas baseia-se na
                         fabricao e venda de bens de consumo. E a propaganda
                         condiciona o indivduo de tal modo, que comprar passa a ser um
                         ato to necessrio quanto dormir ou respirar. Um diretor de
                         agncia de propaganda disse-me h dias que o cidado
                         americano est sendo submetido diariamente a 35 mil apelos



                                                                                                87
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


                       publicitrios. E no duvido dessa cifra (Correio do Povo,
                       27/03/1963).

       Entrevista com o Tio Sam foi uma das ltimas contribuies de Xavier para
a Cia. Caldas Jnior, de onde saiu em 1964 aps desentendimentos com Breno
Caldas. Sobre este fato, comenta F Emma:

                       O Roberto era muito amigo do major (Arlindo) Pasqualini. O
                       Pasqualini teve uma doena neurolgica muito sria, que ia
                       atrofiando a musculatura e ele estava tendo dificuldades para
                       escrever, at para falar, na poca em que ele fazia o editorial da
                       Folha da Tarde. O Pasqualini pediu, ento, para o Roberto, que
                       fosse o ghost writer dele. Ento, o Roberto ia pra casa do major
                       e o major ditava para ele, com o Roberto trazendo sugestes
                       para modificaes. Ele acompanhou toda esta fase da doena do
                       major. Em um certo momento, o major disse para ele, tu no sais
                       da Caldas Jnior de maneira nenhuma enquanto eu estiver vivo,
                       porque tu s o meu porta-voz, o que eu quero escrever e dizer,
                       tu s quem vai fazer.
                        No  que o major tivesse diferena com o doutor Breno, o
                       doutor Breno  que tinha diferenas com o major e, uma vez, ele
                       criticou o Roberto sobre o que ele estava fazendo. O Roberto
                       achou que o doutor Breno no devia criticar nem a ele, nem ao
                       major, porque seria uma ingratido, diante de tudo o que o major
                       fizera pela Caldas Jnior. A, o doutor Breno, com um pouco
                       daquela sua soberba natural, disse, ento, enquanto o major
                       estiver precisando de ti, tu s funcionrio. O Roberto concordou
                       e atirou a sua carteira de funcionrio da empresa dizendo, olha,
                       eu no preciso que vocs me tenham aqui em funo disso, eu
                       fico aqui por causa do major. No dia em que Pasqualini morreu, o
                       Roberto saiu da Caldas Jnior.

       Aps   sua    sada   da    empresa     Roberto    envolveu-se     com     outros
compromissos, em outras reas. Ao longo dos anos seguintes ainda realizou
atividades no jornalismo, embora distante das funes de reprter, redator e
cronista. Do seu currculo constam o magistrado na Faculdade de Comunicao
da PUCRS, entre 1962 e 1963, na disciplina de Tcnica de Jornal e a direo do
Jornal da Semana, de Novo Hamburgo, entre os anos de 1970 a 1972, quando
foi responsvel por uma reformulao grfica e editorial da publicao. Na
dcada de 1980 Roberto foi contratado pela Rede Brasil Sul (RBS), pertencente 
famlia Sirotsky, que emergia frente  surpreendente decadncia da Cia. Caldas
Jnior, onde exerceu as funes de diretor-adjunto e, posteriormente, diretor-
secretrio, a partir de 1985, chegando inclusive a escrever alguns espordicos
editoriais para o jornal Zero Hora, pertencente  empresa.



88
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



B) Roberto Eduardo Xavier e o rdio


       Ao se falar da atuao de Xavier no jornalismo, merece papel de destaque
as suas atividades radialsticas. Desde os primrdios da sua carreira, em Rio
Grande, Roberto participou, entre outras realizaes, da fundao da Rdio
Minuano, no ano de 1950, alm de exercer a funo de chefe de redao na
emissora. Cinco anos depois, j vivendo em Porto Alegre, Xavier atuou como
secretrio do departamento de rdio jornalismo da Rdio Gacha e apresentador,
ao lado de Amir Domingues, que comenta a atuao de Roberto na emissora:

                         Eu j estava na Gacha quando o Roberto ingressou na
                         emissora. O departamento de notcias da Gacha, que tinha na
                         direo o Mendes Ribeiro, trabalhava no sentido da elaborao
                         de jornais falados, de snteses informativas e de algumas aes
                         de natureza relacionada com o trabalho de reportagem. O Xavier
                         entrou no grupo e se destacou imediatamente pela sua
                         capacidade de organizao, acima de tudo, de forma que ele se
                         tornasse eficiente e prazeroso para a equipe que ele liderava.

       Sua atuao na Gacha o credenciou a ingressar na equipe fundadora da
rdio Guaba, no ano de 1957, em um novo empreendimento da Cia. Caldas
Jnior, expandindo assim suas atividades para alm da imprensa. Xavier atuou
na emissora em conjunto com nomes como Flvio Alcaraz Gomes, Mendes
Ribeiro e Amir Domingues, esses tambm egressos da rdio Gacha. Para
Roberto coube as funes de redator e locutor, mas principalmente a de produtor,
quando, ao lado de Eloy Terra, Srgio Jockymann e Luiz Gualdi, no mesmo setor,
obteve seu maior destaque no rdio, tornando-se chefe do departamento de
produo da emissora. Sobre a estrutura administrativa da Guaba, Amir
Domingues relembra:

                         A Guaba tinha uma linha de ao que era o jornalismo; outra
                         linha que era o esporte; e outra, que era a produo de
                         programas, onde o Xavier se encaixava em conjunto com Eloy
                         Terra e tantos outros. Eles realizavam programas muito bem
                         elaborados, apresentados como uma contribuio  cultura da
                         cidade, contando com uma equipe de alto nvel, como na rea de
                         sonoplastia, com o Fernando Veronesi.

       Uma de suas primeiras participaes na produo ocorreu atravs do
programa D asas a sua inteligncia quase que por acaso. Com problemas na
produo do programa, apresentado ao vivo desde o cinema Imperial, a direo


                                                                                                89
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


de broadcasting logo convocou Roberto para assumir o posto. Alterando as
apresentaes para o cinema Cacique, alm de modificar algumas questes
relativas s promoes, D asas a sua inteligncia tornou-se um dos maiores
sucessos neste primeiro ano da rdio Guaba. Baseado nos programas de
perguntas e respostas como The 64 thousand dollars question, Lascia o
Radoppia e O cu  o limite, o programa foi pioneiro entre as rdios sulinas neste
gnero, em que os candidatos concorriam em carter eliminatrio, tendo como
premiao uma viagem a Paris. F Emma comenta a implementao do
programa:

                       Naquele perodo, estava no auge da televiso norte-americana
                       Sua pergunta vale 64 mil dlares, programa de auditrio que
                       atraa muito o pblico. Como a idia tinha sido discutida com o
                       Flvio Alcaraz Gomes, levantou-se a possibilidade de se trazer
                       um programa desses pra c. Mas como viabilizar este programa?
                       Ns teramos que adaptar os recursos ao tipo de perfil do pblico
                       que se tinha aqui. Em primeiro lugar, era um programa que tinha
                       que ter um prmio muito bom, mas quem vai ser o patrocinador?
                       A, ento, conseguiram um contato com a Panair, e eles
                       encamparam na hora, definindo inclusive o prmio, uma viagem
                       para Paris. Mas tinha que vencer tambm as resistncias da
                       direo da Cia. Caldas Jnior, demorando cerca de dois a trs
                       meses at transformar essa idia possvel de ser feita pela
                       emissora.

       Quem quiser ir a Paris, tem que saber de fato tudo sobre o tema em que
se inscreveu, afirmou Xavier na poca. Foi em D asas a sua inteligncia que
Xavier veio a conhecer aquela que seria sua futura esposa, a concorrente F
Emma.
       Naquele mesmo ano, Roberto produziu Voc  o sabicho, seguindo o
modelo de perguntas e respostas, voltado para o pblico jovem, que j se
interessava por D asas a sua inteligncia, mas que agora possua seu prprio
programa, sendo tambm apresentado no cinema Cacique. Vale destacar ainda
Este mundo  pitoresco, que dramatizava histrias verdicas sobre os fatos mais
estranhos, como a do senhor Bernard Scheinberg, que teve 87 filhos em dois
casamentos. Complementa a lista de programas, neste primeiro ano da emissora,
O tempo marcha a r, que recordava acontecimentos marcantes a nvel nacional
e internacional.
       A dramaturgia tambm esteve presente na programao da Guaba,
atravs dos rdioteatros. Diferentemente das emissoras concorrentes, que


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



adotavam o formato de rdionovela, programas que tinham uma continuao
diria, a Guaba optou pelo rdioteatro de peas nicas, com comeo, meio e fim
no mesmo dia. Sobre os programas de rdioteatro, F Emma comenta que,
embora a Era da rdionovela [sic] tivesse sido a grande poca de ouro da
emissora, Xavier disse assim: "na Rdio Guaba, ns no vamos colocar novelas
[sic] de acar, vamos pegar um script de novela [sic] diferente". Um dos grandes
sucessos que contou com a produo de Xavier veio em 1958, intitulado Histrias
de Sherlock Holmes. Baseado nas histrias do detetive de Baker Street,
personagem criado pelo escritor Sir Arthur Conan Doyle, Roberto adaptou os
textos para o formato radiofnico. Histrias de Sherlock Holmes foi ao ar de
segunda a quinta-feira, no perodo de trs meses, sendo dirigido por Jorge
Mucillo, contando na sonoplastia e na sonotcnica com Fernando Veronezi.
Devido ao sucesso do programa, a pedido dos ouvintes, o programa acabou
retornando meses depois. Coube ao jornalista a adaptao dos livros O co dos
Baskerville; As cinco sementes da laranja; O solteiro nobre; Um escndalo
na Bomia; O mistrio do crculo vermelho; A segunda mancha; A tragdia
de Glria Scott; O detetive agonizante; A coroa de berilos; O cliente ilustre e
Os trs garridelos. A produo de Histrias de Sherlock Holmes rendeu a Xavier
o prmio de melhor produtor de rdio do estado, em 1958, concedido pela
Associao Rio-Grandense de Imprensa (ARI).
       O ano de 1959 trazia novas atraes sob o comando de Roberto, como No
rastro da glria, que buscou enfocar a trajetria de grandes personalidades que
venceram na carreira, aps enfrentarem grandes dificuldades. Sua estria
ocorreu no dia 19 de fevereiro de 1959, ao retratar a vida do compositor
Giuseppe Verdi, autor de Ada, O trovador e A traviata.
       Dois meses depois, estreava o programa de debates Tvola Redonda de
que, alm da produo, Xavier participou como apresentador, em conjunto com
Mendes Ribeiro. No primeiro programa, dia 22 de abril de 1959, foram
convidados o Governador do Estado, Leonel Brizola, os prefeitos Valdemar
Borges, de Alegrete; Enio Sayago, de Itaqui; e Alcides de Mendona Lima,
consultor jurdico da prefeitura de Pelotas, debatendo sobre as enchentes que
assolavam o estado. O governador Leonel Brizola retornou ao programa no incio
de 1960, para atender a questes sobre sua viagem  Europa. Tvola redonda,
que ia sempre ao ar nas quartas-feiras, contou ainda com nomes ilustres como o

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HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


cineasta Nelson Pereira dos Santos, autor dos filmes Rio 40 graus e Rio Zona
Norte, discutindo sobre o cinema nacional; o pintor Di Cavalcanti, falando sobre
artes plsticas; alm de Jnio Quadros, ainda candidato  presidncia do pas,
em programa transmitido diretamente do auditrio da UFRGS, no ano de 1960.
Em Tvola Redonda tambm se destacaram os temas polmicos que
mobilizavam a sociedade, como a reforma no ensino pblico e o funcionalismo
pblico estadual.
       O ano de 1960 trouxe um importante marco  carreira radiofnica de
Xavier: no dia 17 de abril o jornalista completou a produo de 1001 programas
pela Rdio Guaba. Roberto continuava na produo de programas que se
tornaram destaque na programao da emissora, como Eles...e elas!, tendo
como objetivo entrevistar personalidades variadas, abordando assuntos diversos,
sobre temas alm do domnio do entrevistado, como na sua edio de estria,
quando Xavier, como apresentador, recebeu o deputado Jos Zachia e a glamour
girl de 1960, Andra Oliveira, trazendo revelaes sobre poltica, moda, arte e
turismo. Eles...e elas! contou ainda com a presena de nomes importantes da
cultura do estado, como o jornalista e promotor cultural Oswaldo Goidanich, o
artista plstico Iber Camargo, e outros.
       A Rdio Guaba concedeu espao ao ouvinte em Reclame, que  seu
direito, programa que expunha problemas da administrao pblica em Porto
Alegre, contando com Xavier na produo e Mendes Ribeiro na apresentao.
       Apesar do advento da teledramaturgia, desde a chegada da televiso no
pas, em 1959, a dramatizao de textos manteve seu sucesso ainda por mais
alguns anos, como em Operao Infinito, primeiro programa de fico-cientfica
nas emissoras sulinas. Contando com a produo e apresentao de Xavier, e a
sonoplastia de Fernando Veronezi, Operao Infinito tocava em um tema ainda
muito especulativo, o de existir vida em outros planetas, em poca anterior 
chegada do homem  lua. Baseado em fatos reais, Roberto produziu tambm a
radiofonizao da vida do almirante Gago Coutinho, portugus que realizou o
primeiro vo Portugal-Brasil, em 1922. Coutinho recebeu essa homenagem um
dia aps seu falecimento, em um programa dividido em sete partes.
       Xavier permaneceu na rdio Guaba at 1964. Ao longo dos seus sete
anos na emissora mostrou no ser somente uma pessoa de idias, fator que o
fez comandar programas com os mais diversos enfoques, mas tambm um

92
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



produtor bem-sucedido, pois trazia a garantia de programas de qualidade. Este
sucesso de Roberto, na produo, decorreu de projetos muito bem elaborados e
da sua conscincia do gosto radiofnico do ouvinte, como neste texto de uso
interno da empresa relativo  sua programao:

                          baixo o padro qualitativo dos programas atualmente mantidos
                         pela emissora, que so, a rigor, comuns, sem qualquer atrativo
                         para o ouvinte. Veja-se os exemplos em qualquer folha da
                         programao. Existem,  claro, as excees, como Viajando pelo
                         mundo, Aventuras no mundo do som e mais um ou dois. Mas, de
                         resto, a programao "montada"  falha, tanto em produo,
                         como em apresentao.

       Roberto criou normas para a produo na emissora, discutindo desde
questes tcnicas na realizao do script, como a proibio de abreviaturas e a
marcao de vozes, no caso de vrios locutores; at pontos relativos  disciplina
no cumprimento de cronogramas, como a entrega com 48 horas de antecedncia
do programa pelos produtores, antes da radiofonizao, e o comparecimento a
reunies quinzenais.
       Sempre dirigindo seus projetos para o tipo de pblico-alvo, no tempo de
durao, na freqncia e no horrio em que melhor se encaixaria, Roberto exps
 direo de broadcasting os mais diversos tipos de idias para futuros
programas. Alm dos j citados, Xavier criou espaos como Um fato, trs
opinies, comentrios de cinco minutos sobre o assunto mais importante do dia;
Balco de livros, smula dos principais acontecimentos do meio literrio em nvel
local, nacional e internacional; S para as mulheres, dedicado ao universo
feminino, alm de tantos outros.
       Alguns projetos no saram do papel, por motivos diversos. No entanto,
muitos destes projetos no somente foram sucesso na programao da emissora,
ocupando seu horrio nobre, entre as oito horas e as dez da noite, como tambm
trouxeram importantes patrocinadores. Foi o caso da empresa de aviao Panair
do Brasil e da Pepsi Cola, que apoiaram D asas a sua inteligncia; do Aucar
Unio, para Eles...e elas!; da empresa area Varig, para Tvola Redonda; das
Lojas Guaspari, para No rastro da glria, etc.




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3. ROBERTO EDUARDO XAVIER E SUA RELAO COM PUBLICIDADE E
RELAES PBLICAS


       Um ano aps a sua fundao, em 1936, o jornal Folha da Tarde comeou
a realizar o que Walter Galvani, no livro Olha a Folha, veio a considerar como um
dos pontos mais fortes do peridico e que, ao longo do tempo, foi responsvel
pelo seu sucesso na sociedade porto-alegrense: as atividades promocionais.
Usadas como forma de identificao do pblico-leitor com o veculo, e atendendo
 rea de abrangncia do jornal, mais focado na grande Porto Alegre, estas
atividades tornaram a Folha da Tarde um catalisador de eventos que abrangiam
desde disputas esportivas at concursos de beleza.
       O Grande Prmio Folha da Tarde surgiu em 1937 como a primeira
promoo do jornal, numa disputa automobilstica entre os grandes nomes do
esporte na regio, como Norberto Jung e Olinto Pereira, contando ainda com o
apoio da Associao dos Volantes do Rio Grande do Sul. Em seqncia, era
realizada a enquete sobre O mais querido clube da cidade, que contou com cerca
de 50 mil votos, ganhando o Sport Clube Internacional, seguido pelo Grmio
Football Porto-alegrense e o Grmio Nutico Unio. Mas uma promoo que
marcaria fortemente esta poca foi o Grande Concurso Popular Correio-Folha.
Como afirma Galvani, a promoo oferecia um total de 500 prmios, sendo os
dez primeiros simplesmente casas, e casas completas, equipadas com fogo,
geladeira e mveis (p.128), seguido ainda por carros esporte, motocicletas,
viagens ao Rio de Janeiro, Buenos Aires e Montevidu.
       Em 1940, a pedido do prefeito de Porto Alegre, Loureiro da Silva, foi
realizada a eleio da Mais bela porto-alegrense, em decorrncia do bicentenrio
do povoamento urbano de Porto Alegre, numa promoo que se tornou
precursora dos concursos de beleza organizados pela Folha da Tarde e que,
anos mais tarde, consagrariam a proposta. Outras iniciativas foram promovidas
pelo jornal, atravs de profissionais como os jornalistas Oswaldo Goidanich e
Flvio Alcaraz Gomes.
       No entanto, somente ao final da dcada de 1950 o jornal viria a criar um
Departamento de Promoes. Como relata Galvani, com a criao da Rdio
Guaba, em 1957, e com Flvio Alcaraz Gomes se dedicando quase que



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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



exclusivamente  emissora, ficou a cargo de Roberto Eduardo Xavier assumir o
Departamento de Promoes do jornal e da empresa, sendo assim responsvel
pelo setor que hoje equivale aos departamentos de publicidade e relaes
pblicas de qualquer instituio. Xavier, logo no seu primeiro ano na Caldas
Jnior, tornava-se ento o responsvel, no somente pela construo da imagem
da empresa para o grande pblico, como tambm pela relao entre a empresa e
o pblico, questo esta que ele define bem em um anteprojeto do programa de
aniversrio do jornal Folha da Tarde, em 1962:

                         Dada sua condio de jornal eminentemente popular, Folha da
                         Tarde tem procurado oferecer aos seus leitores, em todas as
                         promoes que empreende oportunidades de participao. Tem
                         sido esta, alis, uma das condies essenciais para o xito do
                         nosso mecanismo promocional, que permite no s que o
                         pblico acompanhe, mas, sobretudo, participe dos nossos
                         empreendimentos promocionais.

       As atividades do departamento se desenvolviam em dois campos:
promoes de calendrio; promoes de ocasio. Eram includas, no primeiro
grupo, o que Xavier classificou de promoes obrigatrias, ou seja, de iniciativa
da Cia. Caldas Jnior, como  o caso de atividades relacionadas ao Dia das
Mes, Natal e outras datas comemorativas, alm das promoes de lanamento
e os concursos com premiao. O segundo grupo, intitulado como promoes de
oportunidade, eram aquelas em que a Cia. Caldas Jnior se associava a eventos
de carter municipal, como a Festa das hortnsias, Festa do pssego, Rodeio
Crioulo e outros.
       Desde a criao do departamento, em 1957, comearam a se destacar as
promoes de iniciativa da Cia. Caldas Jnior. Logo no seu primeiro ano no
departamento Roberto criou um dos concursos de beleza que mais marcaram as
promoes da Folha da Tarde e mobilizaram a sociedade local: o concurso A
mais bela comerciria. Ao todo 996 jovens empregadas nos mais diversos
setores do comrcio das cidades de Porto Alegre, So Leopoldo, Novo
Hamburgo, Canoas, Esteio e Gravata concorreram ao ttulo, a partir de uma
votao popular, contando ainda com a premiao de um cheque no valor de 50
mil cruzeiros e duas passagens de ida e volta a Paris, pela Panair do Brasil, para
a vencedora; alm de outras premiaes menores para as primeiras colocadas.
Nazira de vila, ento funcionria da Mesbla, ganhou o primeiro certame, mas,


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mais do que isso, nessa primeira investida, comprovou o sucesso de um
empreendimento que custou ao todo meio milho de cruzeiros para os cofres da
empresa. Sobre a realizao dos concursos de beleza, promovidos pela Folha da
Tarde, comenta J.A.Moraes de Oliveira, que atuou no departamento de
promoes no mesmo perodo que Xavier:

                       A circulao (100% venda avulsa) aumentava nos perodos de
                       apurao e disparava durante a escolha final. O pblico leitor da
                       classe mdia encontrava ali acesso ao mundo da moda, beleza e
                       glamour que ele s lia nas colunas sociais (com poucas fotos e
                       pouca informao). A cobertura dos concursos de beleza
                       abusava das fotos de jovens de classe mdia aparecendo como
                       futuras misses ou manequins (raro na poca).

       Dentro da proposta de A mais bela comerciria, estava claro para Xavier o
desejo de manter e fixar o pblico leitor do jornal, no sentido de habilitar o veculo
a resistir a eventuais impactos promocionais dos concorrentes, fazendo uma
referncia direta ao ingresso do peridico ltima Hora, de Samuel Wainer, no
estado. Pelo seu formato, o concurso no somente atraa as comercirias e seus
respectivos familiares, amigos e conhecidos, numa classe estimada em 100 mil
pessoas, como tambm os proprietrios, gerentes e chefes de seo de
estabelecimentos comerciais que possuam interesse na publicidade indireta
decorrente da colocao de suas candidatas na competio. Contando com
ampla cobertura do jornal, entre os meses de setembro a dezembro, perodo em
que era realizado o concurso, pelo preenchimento de votos, entrevistas e
reportagens sobre as candidatas, festas, visitas e apuraes, a Folha da Tarde
contava com o fato de conseguir, ainda, renda extra,  medida que antigos
anunciantes voltavam a inserir seus anncios nos dias de alto rendimento
promocional (em apuraes, resultados parciais e outros).
       Baseado no sucesso de A mais bela comerciria e outras promoes, a
Cia. Caldas Jnior resolveu, a partir de 1959, realizar um concurso de beleza em
mbito estadual, intitulado Rainha das piscinas do Rio Grande do Sul. Com o
perodo de durao de trs meses, a disputa visava atrair o interesse de clubes
esportivos da capital e do interior para a escolha de suas candidatas, sempre
contando com a mais ampla cobertura jornalstica da Folha da Tarde e do Correio
do Povo. Com o noticirio mnimo de uma pgina por dia, pela Folha da Tarde, o




96
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



concurso tambm se envolvia com eventos sociais nas cidades, como, por
exemplo, os desfiles das candidatas na Festa das Hortnsias em Gramado.
        Ao final do ano, sempre era realizada uma grande festa de encerramento
do certame com as finalistas, aps mais de dois meses em que ocorriam as
etapas eliminatrias, chegando no somente a possuir ampla cobertura dos
meios de comunicao da empresa, como tambm de vrias emissoras do
interior do estado que anunciavam o resultado final. Para se escolher a rainha e
mais duas princesas, o evento convocava um jri composto por personalidades
da vida pblica, entre esportistas, intelectuais e jornalistas. Rainha das piscinas
do Rio Grande do Sul foi uma das promoes mais duradouras da Cia. Caldas
Jnior, ocorrendo at a derrocada da empresa, em 1985. O concurso sempre
ficar marcado na lembrana dos gachos por ter revelado Ieda Maria Vargas,
que, aps o ttulo, tornou-se, respectivamente, Miss Rio Grande do Sul, Miss
Brasil e Miss Universo, em 1963.
        Sobre o sucesso dessas promoes, comenta o jornalista Ruy Carlos
Ostermann, que atuou no departamento de promoes entre os anos de 1957 e
1961:

                         O departamento de promoes era uma inovao, porque
                         nenhum jornal, na poca, tinha um departamento de promoes,
                         que no era um prolongamento da redao, seno uma tentativa
                         de inscrio na cidade sob outra forma. Uma das promoes que
                         ns fizemos foi a "Rainha das piscinas", por exemplo, que exigiu
                         um trabalho fantstico, porque a encontramos as sociedades
                         tradicionais de Porto Alegre, que aderiram fortemente ao
                         concurso. Observe que a idia toda do departamento de
                         promoes era atrair setores vindos da sociedade, j
                         estruturados, e traz-los para dentro do jornal. O Xavier sabia
                         fazer a leitura disso e negociava internamente, dentro do jornal,
                         para que essas coisas tivessem fluxo.

        Os projetos do departamento de promoes no se limitavam a concursos
de beleza, como  o caso do Concurso de vitrinas, quando a Folha da Tarde
conferia diplomas e medalhas para as trs melhores vitrinas de casas comerciais;
havia o Campeonato Gacho de Pandorgas, na mesma poca das festas juninas,
e   outros    mais.    Datas     comemorativas        tambm      eram     exploradas      pelo
departamento, como  o caso do Dia dos Pais, que permitia organizar uma
grande festa no cinema Cacique, com o sorteio de diversos prmios, assim como




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HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


o Dia do Comrcio, quando o jornal fazia ampla cobertura sobre o tema, incluindo
um caderno especial de oito pginas.
       Outro evento que se tornou tradio da empresa, e que foi se expandindo
ao longo dos anos, foi a festa de aniversrio da Folha da Tarde, realizada desde
o ano de fundao do peridico, quando ocorriam atividades as mais variadas,
como disputas esportivas, concursos relacionados ao aniversrio do jornal e
jantar de confraternizao entre a direo e os funcionrios. Os nmeros
mostram o sucesso do evento, tendo comparecido 15 mil pessoas em 1958,
chegando a 25 mil pessoas em 1962. Sobre o aniversrio da Folha da Tarde
comenta Xavier:

                       O inegvel prestgio de que goza o veculo assegura-nos,
                       antecipadamente, o xito do empreendimento, e temos certeza
                       de que o programa, uma vez cumprido a contento, trar, em
                       prestgio e relaes pblicas, um imenso lucro, como prova de
                       pujana e penetrao do mais antigo vespertino da capital.

       O departamento de promoes tambm foi responsvel por publicaes,
nos jornais da empresa, de questes relacionadas s comunidades, como uma
coluna diria intitulada O que vai pelos bairros, prestigiando as associaes de
bairro e suas respectivas reivindicaes. Em 1958, o prprio veculo organizou o
1 Congresso Metropolitano de Associaes de Bairro, no qual compareceram
119 delegados, representando 39 associaes de bairro, sendo precedido por 40
conferncias de bairro, tambm organizados pelo departamento de promoes,
nas quais os redatores da Folha da Tarde realizavam um levantamento completo
dos problemas de cada bairro. Em seqncia era fixada a Carta reivindicatria do
bairro, sendo depois publicada e encaminhada s autoridades pblicas. Um
desses reprteres/ redatores foi o jornalista Ruy Carlos Ostermann, ento recm-
repassado ao departamento de promoes da Caldas Jnior a pedido de Xavier.
Ostermann comenta essa relao do departamento com a comunidade:

                       Ns constitumos, com orientao do Xavier, um trabalho com as
                       sociedades de amigos dos bairros de Porto Alegre. Isso, hoje,
                       tomou outras formas bem diferentes, mas naquela poca, na
                       dcada de 50, era uma inteira inovao, numa tentativa de
                       organizar a cidade, a partir dessas associaes, e com elas
                       organizar uma srie de reivindicaes, que eram encaminhadas
                        prefeitura, aos rgos do Estado e, era, sobretudo, uma
                       discusso que o jornal abarcava, assumia tambm e transferia
                       para as suas pginas, como uma contribuio a essas


98
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         comunidades. A Associao dos Amigos dos Bairros trouxe uma
                         discusso sobre a articulao da cidade, os novos bairros, os
                         problemas de transporte, de abastecimento, sendo que eles
                         prprios perceberam que estavam diante de um jornal que se
                         sensibilizou com o problema e que iria patrocinar este tipo de
                         relao.

       Voltado para um pblico mais sofisticado, o departamento promoveu
diferentes atividades relacionadas s artes, como o Ciclo de Artes Plsticas, em
que se realizaram importantes exposies como a de gravuras de Francisco
Stockinger; exposio de gravuras, mosaicos e pinturas de Danbio Gonalves;
exposio de gravuras e tapearias de Vasco Prado; exposio de pintura e
monotipia de Carlos Alberto Petrucci e outros. Colocado um marcador de
ingressos na exposio de Danbio Gonalves, foi registrada a visita de cinco mil
pessoas em oito horas de funcionamento, assim como a exposio de cermicas
de Luiza Prado, que foi visitada por mais de 30 mil pessoas em um perodo de
quinze dias.
       Outro fator marcante, no comando de Xavier no departamento de
promoes, ocorreu diretamente no campo jornalstico, como explica Galvani no
livro Olha a Folha:

                         Xavier criou um caderno especial diagramado, com equipe de
                         reportagem e pauta, grandes novidades na poca, porque o
                         jornalismo era feito na base da intuio e da coragem, com
                         titulares cobrindo setores onde eram ntimos e no raro
                         misturavam atividade jornalstica com um encosto de algum
                         empreguinho pblico.


A) O ingresso de Xavier em relaes pblicas


       J no incio da dcada de 1960, ao mesmo tempo em que Roberto
consolidava seu currculo como jornalista na empresa Caldas Jnior, sua atuao
de destaque pelo departamento de promoes lhe abriu oportunidades em outras
reas alm do campo jornalstico, especialmente em relaes pblicas,
publicidade e propaganda.
       No ano de 1960, Xavier fundou a RP  Relaes Pblicas Ltda., a primeira
agncia do ramo no estado. Realizada em conjunto com o publicitrio Ado
Juvenal de Souza, os jornalistas Jos Antnio Moraes de Oliveira, Jos
Setembrino Machado, Luiz Vicente Lavina Noelli, Ruy Diniz Netto, alm do

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prprio Roberto Xavier e o economista Joaquim Fialho Maciel Dias, a RP 
Relaes Pblicas teve como objetivo a prestao de servios de assessoria de
relaes pblicas e comrcio de representaes. Inicialmente convocado para
assumir a diretoria da agncia, em conjunto com Ado Juvenal de Souza e
Joaquim Fialho Maciel Dias, Xavier teve que declinar da funo, pelo excesso de
compromissos por que j respondia. No entanto, permaneceu na RP  Relaes
Pblicas, nos seus primeiros meses, visando ajudar na sua estruturao.
       Naquele mesmo ano, Xavier marcaria intensamente sua atividade em
relaes pblicas, ao atuar como assistente do departamento deste setor pelo
Clube de Diretores Lojistas, onde permaneceu at 1966, assim como assessor da
presidncia da Associao Comercial de Porto Alegre e da Federao das
Associaes Comerciais do Rio Grande do Sul, at 1964, tambm na rea
relativa a relaes pblicas.
       Seu ingresso na publicidade teve igualmente movimento importante em
1960, ao ser contratado pela Standard Propaganda S.A., at ento considerada a
mais importante agncia de publicidade do pas e do estado. Fundada em 1933
por Ccero Leuenroth em conjunto com seu pai, Eugnio Leuenroth, a Standard
tinha sua matriz no Rio de Janeiro. Logo depois, abriu filiais nas cidades de So
Paulo, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, alm de possuir 15 representantes
espalhados pelo mundo. No final do ano de 1957, a agncia inaugurava sua filial
na capital gacha, a partir da encampao de uma agncia local, chamada EB
Publicidade, fundada e dirigida pelo jornalista e publicitrio Ernani Behs.
       Xavier ingressou na filial sulina da Standard trs anos depois da sua
criao, como integrante do recm-criado e indito, no estado, Departamento de
Varejo e Relaes Pblicas. As propostas do Xavier sempre seduziram no
sentido do seu conhecimento a respeito das coisas promocionais e at pelo
background dele, pelo seu conhecimento paralelo que ele tinha do jornalismo,
expe Gilberto Lehnen, que trabalhou na Standard entre os anos de 1957 at
1972, relembrando fatores que motivaram a contratao de Xavier pela agncia.
No entanto, havia uma condio: pelo seu excesso de atividades naquela poca,
Roberto somente podia dedicar um turno de trabalho para a agncia. Sobre as
funes atribudas ao setor, comenta Gilberto Lehnen:




100
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         A etapa principal era a criao de campanhas promocionais, a
                         partir da anlise dos problemas dos clientes, para ento
                         configurar suas solues dentro daquilo que era prprio para
                         campanhas de varejo. Mas o varejo, pela sua peculiaridade,
                         principalmente da rapidez, exigia um timing completamente
                         diferenciado dos demais departamentos, uma resposta quase
                         imediata a situaes paralelas que interagiam com ela, como  o
                         caso da distribuio do produto, da parte de vendas. Era um
                         grupo especializado em fazer as coisas bem feitas, com uma
                         linguagem tpica de varejo, conhecendo a propaganda e sabendo
                         como explorar essa parte do varejo, ao conjugar promoo com
                         ofertas especiais, atuando na frente, antecipando horrios, enfim,
                         usando o aproveitamento integral das oportunidades que fossem
                         aparecendo.

       J no seu primeiro ms de atividades pela Standard, Xavier realizou
pesquisa de opinio e inspeo a todos os departamentos da Casa Guaspari,
alm de campanhas com anncios seriados para a Courolndia e a Springer.
       Merece destaque a campanha publicitria, promocional e de relaes
pblicas da recm-criada TV Gacha, projetos elaborados por Xavier ainda nos
primrdios da televiso no estado, televiso que, dcadas mais tarde, viria a se
tornar a RBS TV. Como consideraes iniciais, Roberto analisou a situao da
emissora rival, a TV Piratini, tendo em vista a criao da imagem pblica da TV
Gacha, buscando superar a concorrente. Xavier destacou pontos positivos da
TV Piratini, como a excelncia da imagem, instalaes e equipamento tcnico,
assim como complementou o estudo com seus pontos negativos, como o baixo
padro intelectual da produo de programas, valendo tambm para a montagem
e a encenao, alm da falta de compreenso da linguagem prpria da televiso.
Partindo desses pressupostos, Roberto destacou ento o rumo a ser adotado
pela nova emissora, a comear pela delimitao do pblico-alvo: o pblico
telespectador; agncias e anunciantes da praa de Porto Alegre; agncias e
anunciantes das praas de Rio de Janeiro e de So Paulo. Como mtodo de
trabalho, props questes como a criao de um slogan para ser usado na
programao da Televiso Gacha; criao de um smbolo grfico que
associasse a emissora ao Rio Grande do Sul; estudo de um convnio com uma
firma de cinematografia comercial (Leopoldis Som) para insero de flashes em
seus jornais semanais, assim como o planejamento, a produo e o lanamento
de um programa semanal na Rdio Gacha, patrocinado pela TV Gacha, no




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qual far-se-ia a promoo da emissora, inserindo entrevistas testemunhais do tipo
o que significa para o Rio Grande do Sul a prxima inaugurao do canal 12?
       Da mesma forma, Roberto lanou campanhas promocionais como A China
 o limite? pela Courolndia quando, ao adquirir uma mala Courolndia, no ms
seguinte ao da compra, participava-se de um sorteio realizado pela prpria
Courolndia, concorrendo a duas passagens de ida e volta  China; Melhor aluno
do ano, tendo a Springer como cliente, em que os melhores alunos de grau
mdio, de primeiro (ginsio) e segundo (cientfico e clssico) nveis, ganhavam
um refrigerador patrocinado pela Springer.
       Xavier proferiu, ainda como representante do departamento de varejo e de
relaes pblicas, em 1961, uma palestra sobre relaes pblicas para
representantes de empresas clientes da agncia, como Ibraco, Varig, Rdio
Gacha, Springer e outros, sobre temas como pesquisa motivacional e
apresentao de trabalhos, visando discutir aspectos de criao, planejamento,
redao, pesquisa e tcnica de layout. Roberto permaneceu entre os anos de
1960 e 1961 na Standard Propaganda, deixando uma importante contribuio
nesta sua passagem pela agncia, como expe F Emma:

                       O Roberto no ficou muito tempo na Standard, mas uma das
                       coisas que o pessoal dizia era que o Roberto tinha conseguido
                       tirar o pessoal de dentro da agncia e colocar os publicitrios,
                       que naquela poca eram autodidatas, no campo, fazer com que
                       eles sassem das quatro paredes e vissem o que era a realidade
                       publicitria.

       O ano de 1963 marcou a ida de Xavier para os Estados Unidos, onde
atuou no Journal and Sentinel por dois meses. No entanto, Roberto alongou sua
estadia no pas, por mais quatro meses, quando realizou estgio na The Piemond
Publishing Co., na rea de administrao e de comunicao, enfocado em
relaes pblicas. Sobre essa experincia, relembra F Emma:

                       Este estgio influiu muito na carreira do Xavier, porque uma
                       coisa  voc saber as coisas teoricamente ou de ouvir falar, e
                       outra coisa  voc estar l. A grande influncia do Xavier foi a
                       imprensa norte-americana, e quando ele teve essa oportunidade
                       de ir aos Estados Unidos, ele sabia que estava indo direto 
                       fonte, checar aquilo que ele havia aprendido, lido, para ver se
                       realmente era assim. Alm de ter visto, checado, sabendo que
                       tinha coisas que poderia desenvolver ou no por aqui, isto abriu
                       um novo horizonte de muitas idias que ele achava que, mas
                       que agora ele poderia fazer, porque ali ele viu como  que se

102
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         fazia, o famoso know how. Quando voc faz um estgio, voc vai
                         para outro pas, e encontra uma outra mentalidade, uma outra
                         cultura, voc nunca volta igual.

       Durante o binio 1963-1965, Xavier ocupou a posio de vice-presidente
da Associao Rio-Grandense de Relaes Pblicas, em conjunto com Ruy Diniz
Neto e Glnio Peres, tendo Carlos Cauby Silveira como presidente.
       Ainda no ano de 1963, Xavier foi convidado a integrar a equipe da agncia
de publicidade MPM Propaganda. Fundada em Porto Alegre, no ano de 1957, por
Antnio Mafuz, Petrnio Crrea e Luiz Vicente Goulart Macedo, cujos
sobrenomes do as iniciais para o nome da empresa, a MPM assume papel de
grande importncia na histria da publicidade em nvel regional e nacional, entre
as dcadas de 1960 e 1970.
       O surgimento da MPM acontece num perodo de prosperidade econmica,
ascenso da classe mdia, diversificao de produtos em funo da
industrializao e o incio de uma sociedade de consumo, o que amparava a
necessidade de investimento publicitrio para promover produtos, afirma Andr
Iribure Rodrigues, na sua tese sobre a agncia. Entre 1957 e 1959, ocorre o
chamado primeiro ciclo da agncia, voltada exclusivamente para os seus clientes
em Porto Alegre, incluindo a ento maior empresa de vesturio da capital
gacha, a A. J. Renner Indstria de Vesturio. Rodrigues destaca tambm a
importncia estrutural que a MPM promoveu no mercado publicitrio gacho,
ainda em formao, em fins da dcada de 1950.

                         A MPM comeava a impor um padro local ao focar no
                         atendimento a sua estratgia em atingir a satisfao dos clientes.
                         Alm disso, a agncia administrava grandes contas, o que
                         agregava ao faturamento de uma agncia regional nmeros
                         expressivos. Isso evidencia o processo de profissionalizao da
                         atividade publicitria e de reconhecimento do profissional dessa
                         rea no sul do pas. Porto Alegre tinha uma agncia local forte,
                         conquistando o reconhecimento na regio.

       Xavier foi efetivado no chamado segundo ciclo da agncia, ou seja, a partir
dos anos 1960, quando a MPM expandiu suas atividades pelo pas, ao criar uma
filial no Rio de Janeiro, assim como, em 1961, um escritrio no maior mercado
publicitrio brasileiro, em So Paulo. A expanso da agncia contou ainda com a
nomeao de representantes em Recife, Belo Horizonte e Curitiba.




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       O ingresso de Xavier fez parte deste projeto de reestruturao da MPM.
Amigo de longa data dos trs fundadores da agncia, coube a Roberto assumir a
criao e a implementao do departamento de relaes pblicas da MPM, onde
logo se tornou chefe do setor. Porm, a inovao trouxe certas resistncias,
como afirma Eloy Terra, que atuou com Xavier na MPM entre os anos de 1963
at 1968:

                       Relaes pblicas era uma atividade pouco conhecida e
                       divulgada na poca. Era muito confundida com tapinha nas
                       costas, com vem c, meu amigo, mas no era bem isso, era um
                       trabalho de doutrinao que o Xavier teve que desenvolver, para
                       poder mostrar para a prpria MPM, e para os clientes, o alcance
                       das relaes pblicas. A funo do Xavier, quando se instituiu as
                       relaes pblicas na MPM, foi a de preparao da prpria equipe
                       da agncia, da prpria diretoria, dos clientes, sobre o que era o
                       trabalho de relaes pblicas e da importncia que ele tinha e,
                       de fato, esse setor se desenvolveu muito e chegou a um
                       determinado momento em que as relaes pblicas comearam
                       a se voltar para dentro da prpria empresa, hoje o chamado
                       endomarketing.

       Roberto assumiu a realizao de programas de relaes pblicas para
antigos clientes da agncia, como  o caso dos postos de combustvel Ipiranga.
Tal esquema buscava enfrentar a crescente invaso que a concorrncia vem
fazendo no territrio gacho, afirmou Xavier no projeto de relaes pblicas para
o cliente em 1966. Pelo fato de existir uma aparente igualdade dos produtos de
derivados do petrleo, Xavier via a necessidade de as empresas produtoras e
distribuidoras irem buscar, nas relaes pblicas, a identidade que a propaganda
no conseguia lhes dar.

                       A batalha pela conquista do consumidor extravasou o campo da
                       publicidade e trava-se hoje acima e alm do simples anncio,
                       surgindo "relaes pblicas" e "promoo de vendas" como
                       instrumentos de largo uso para a conquista do pblico
                       consumidor, instrumentos que esto usados na venda direta, na
                       venda sugerida e na formao de novos consumidores (pblicos
                       emergentes, feminino e infanto-juvenil)
                       (http://www.jornalismo.ufsc.br/redealcar/cd3/pp/andreiriburerodrig
                       ues.doc).

       Para atingir esse objetivo, Xavier primeiramente delimitou o pblico-alvo:
pblico geral (opinio pblica geral); consumidores masculinos; consumidores
femininos; pblico infanto-juvenil. Em seguida, a geografia do projeto: Rio Grande
do Sul e Santa Catarina. Atento ao movimento das empresas concorrentes do

104
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



setor, Roberto ento exps trs nveis a serem considerados: instruo, enquanto
um novo sistema de comunicaes e relaes entre a produtora e a distribuidora
e seus revendedores; informao, a partir de folhetos informativos para a fixao
da imagem e a apresentao da empresa ao consumidor, fator que as
concorrentes estavam explorando bastante; recreao, dividida em dois pontos, a
decorao  a melhoria do posto, a melhoria da garagem e a sua decorao,
para apresentar sua imagem ao consumidor - e brindes, voltados ao pblico
consumidor e infanto-juvenil.
       Para difundir a imagem dos postos Ipiranga, foram usados veculos como
a imprensa regional e nacional, mala direta, luminosos, cinema, outdoor,
confeco de pequenos folhetos promocionais, manual do revendedor, brindes
mirins e muitas outras formas de tornar uma empresa expoente da indstria dos
derivados do petrleo naquela marca e naquele posto que me d mais ateno,
mais cortesia e brindes mais atraentes que as concorrentes, como queria Xavier.
Sobre as atividades do departamento, comenta Maria da Graa Celente,
contratada, a pedido de Xavier, para integrar o departamento em 1964:

                         Naquela poca, fazia-se muito, no departamento de relaes
                         pblicas, o que hoje se chama de uma atividade promocional,
                         promoo de vendas. Ns fazamos, por exemplo, uma anlise
                         da concorrncia e uma anlise dos nossos clientes. O que a
                         concorrncia fazia de certo, a gente procurava planejar para os
                         nossos clientes e, ao mesmo tempo, vamos o que os nossos
                         clientes tinham de errado e procurvamos uma forma de
                         melhorar o desempenho.  o caso dos postos de gasolina da
                         poca, que eram muito sujos, sem exceo. De repente, surgiu a
                         marca do elefantinho da Shell, que passou a ser adorado pela
                         crianada durante dcadas, e os postos passaram a ser limpos.
                         Isso foi uma das coisas que a gente fez no departamento, um
                         projeto para os postos Ipiranga tambm mudarem o seu
                         conceito, o seu comportamento.

       Outra realizao do departamento de relaes pblicas da MPM foi a
criao dos informativos sobre as atividades da agncia. Distribudo para a
imprensa e, inclusive, para as demais agncias de Porto Alegre, o departamento
realizou, entre outros, o MPM Informa, publicao de duas pginas, e o Cabrito.
Contando com uma boa diagramao nas suas pginas, o Cabrito registrou,
entre os anos de 1964 a 1966, momentos importantes da MPM.  o caso, por
exemplo, da conquista do Prmio Admiral Qualidade e Liderana, de 1965,
concedido pela Associao Rio-grandense de Propaganda para a melhor


                                                                                            105
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.


campanha publicitria do ano no estado, conquistada por J. A. Moraes de Oliveira
para a MPM, pela campanha E, logo ali, h um Posto Ipiranga. Os aniversrios
da agncia tambm no passavam em branco pelo informativo, tendo sempre
algum integrante da prpria MPM escrevendo sobre o acontecimento.
       Em decorrncia do trabalho implementado em Porto Alegre, Xavier foi
convidado, em 1964, a se mudar com a famlia para So Paulo, onde, alm de
criar o setor de relaes pblicas na agncia paulista, assumiu ainda a funo de
coordenador de filiais da MPM. Criado em 1961, o empreendimento inicial da
agncia, em So Paulo, teve dificuldades, conseguindo seu primeiro cliente local
somente dois anos depois, em 1963, ao expandir suas atividades no mercado
paulista, passando de filial para adquirir carter de agncia da MPM, atravs da
presso exercida pela multinacional argentina Bunge & Born, detentora de
marcas como Samrig, Tintas Coral, Moinhos Santista, Companhia Santa Cruz de
Seguros e outros, que buscava expandir seus negcios no centro do pas. Sobre
esse perodo, afirma Eloy Terra:

                       Em So Paulo, foi um esquema muito pesado de relaes
                       pblicas, porque foi em pleno perodo de ditadura, em uma
                       poca de muita presso pra cima das multinacionais. S que o
                       trabalho dele foi to bem feito, to bem aceito, que a MPM
                       adquiriu a conta de relaes pblicas da revista Realidade, da
                       Editora Abril, e, inclusive, alguns clientes s de relaes
                       pblicas, sem entrar no mrito da propaganda.

       Com a ampliao das atividades da agncia em nvel nacional, tornou-se
necessria a criao do cargo de coordenador de filiais da MPM, como uma
forma de monitorar as demais filiais, funo esta que Xavier ocupou a partir de
1964. Afirma Terra sobre esse acontecimento:

                       A primeira tentativa que a MPM fez para se expandir pelo Brasil
                       foi com acordos operacionais, com agncias mdias e pequenas,
                       mas no funcionou bem. Ento, comeamos a fazer escritrios
                       prprios nas principais capitais do pas. Essa rede tinha que falar
                       a mesma linguagem, em termos comerciais, de planejamento de
                       relaes pblicas. A nica coisa que variava de uma filial para a
                       outra era a linguagem usada na comunicao com o pblico,
                       para fazer uma propaganda integrada  comunidade. Mas em
                       termos de negcios, era preciso uma unificao na MPM e o
                       Xavier, que era um organizador nato, realizou um manual para
                       isso. Essa ao foi muito criticada no comeo, internamente,
                       porque as pessoas ainda no compreendiam qual era sua
                       inteno, que era a busca de uma unificao de
                       empreendimentos.

106
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier




        Outro objetivo da MPM foi a ampliao das atividades da agncia em nvel
internacional, quando realizou ligaes comerciais com cerca de vinte agncias
espalhadas na Amrica Latina. Em conseqncia dessa expanso, a MPM foi
uma das agncias criadoras do Servio Internacional de Agncias de
Propaganda (SIDAP), em conjunto com diversas agncias de publicidade
espalhadas em 23 pases pela Amrica Latina. Coube a Roberto assumir a
coordenao brasileira do SIDAP, onde permaneceu entre os anos de 1964 e
1966.
        No perodo em que Xavier viveu em So Paulo, vale destacar ainda a sua
participao como representante do Brasil no Congresso Mundial de Relaes
Pblicas, realizado em So Paulo, no ano de 1967. F Emma recorda que a
palestra de Roberto levantou o pblico, ao defender a necessidade de formao
em relaes pblicas, buscando sair do empirismo e ir para o profissionalismo
dessa rea. A sua atuao no evento rendeu-lhe uma medalha do governo do
Estado de So Paulo.
        Xavier deixou a MPM em 1968 em conjunto com Eloy Terra, retornando
assim para o Rio Grande do Sul. Terra esclarece os motivos que fizeram Roberto
sair da agncia:

                         A MPM comeou a ensaiar vos muito altos, muito alm do que
                         ela poderia voar. O Xavier, como um organizador, uma pessoa
                         de cabea no lugar, via naquilo uma aventura, com o risco,
                         inclusive, de se estragar parte do trabalho que a gente havia feito
                         de implantao do escritrio em So Paulo. Como ns ramos
                         muito amigos, ns conversvamos muito sobre isso e eu
                         comecei a perceber que seria, e de fato foi, um baque muito
                         grande para a MPM, que esteve periclitando por causa do
                         grande vo que ela quis dar. A gente sentia que no era aquele o
                         caminho e fomos nos desgostando, criando reas de atrito muito
                         forte dentro da agncia, quando chegamos ento  concluso
                         que no valia a gente continuar l.

        No retorno a Porto Alegre, Xavier criou uma indstria grfica, em parceria
com Terra, chamada Cestari, Xavier & Terra, entre os anos de 1968 a 1971, na
qual Roberto assumiu a direo comercial. Tambm a partir de 1968, Xavier foi
professor na rea de relaes pblicas da FAMECOS-PUCRS, at o ano de
1970.




                                                                                            107
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       A dcada de 1970 marcou o distanciamento de Xavier do mercado de
relaes pblicas, assim como de publicidade e propaganda, em decorrncia dos
cargos pblicos que assumiu nas reas da indstria e comrcio, alm do turismo,
pelo governo do Estado e meio ambiente, pelo municpio.
       Mas no incio dos anos 1980, Roberto voltou a trabalhar diretamente na
atividade de relaes pblicas, graas ao convite de Pricles Druck, presidente
da Habitasul, empresa que na poca atuava como agncia de poupana. Aps
vrias tentativas de contratar Xavier, todas sem sucesso, devido ao seu
comprometimento com a carreira pblica, Druck conseguiu, em 1983, lev-lo para
assumir o cargo de assessor da presidncia do Grupo Habitasul. Nesta funo,
Xavier foi responsvel pela reestruturao e a administrao dos setores de
jornalismo e de relaes pblicas da empresa, sendo que o primeiro setor
realizava, dentre outras atividades, sinopses dos principais jornais do pas para
distribuir entre os funcionrios da Habitasul, tarefa muito utilizada hoje em
assessorias de imprensa; o segundo setor cuidava do contato com clientes e
pblico de interesse da empresa, alm de organizar eventos promocionais. Entre
outras atividades, Xavier foi responsvel pela criao do mailing, constituindo um
banco de dados de oito mil nomes, composto de representantes dos setores
privado e pblico, para emitir comunicados sobre as atividades da empresa, uma
forma de comunicao ainda pouco utilizada na poca.
       Xavier permaneceu na Habitasul at 1985, sendo esta sua ltima atuao
em relaes pblicas.


B) A legislao da atividade publicitria


        possvel dizer que, j na dcada de 1960, o mercado publicitrio era
bastante desenvolvido no pas, ao contar com um nmero cada vez maior de
agncias, sendo que o cenrio comportava inclusive algumas agncias que
mantinham filiais espalhadas pelo pas, alm de existirem diversas agncias
internacionais no Brasil. No entanto, at o ano de 1965, o pas no possua uma
lei que regulasse a atividade publicitria em nvel nacional, assim como
reconhecesse o publicitrio com o status de profisso.




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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       O embrio sobre a regulao da atividade publicitria ocorreu com a
realizao do I Congresso Brasileiro de Propaganda, em outubro de 1957, no Rio
de Janeiro, quando se criaram os princpios e normas do Cdigo de tica dos
Profissionais de Propaganda, pontos estes que foram retomados com a
implementao da lei n. 4.680, no artigo 17.
       Os responsveis pela criao da lei foram Petrnio Corra e Roberto
Eduardo Xavier, respectivamente, presidente e secretrio executivo da
Federao Brasileira de Publicidade (FEBRASP). Aps um longo perodo de
intenso trabalho para a criao do projeto 3291-F, este ainda foi submetido ao
Congresso, onde sofreu lenta tramitao, contando inclusive com decisivo apoio
da bancada gacha na Cmara atravs dos deputados Peracchi Barcelos,
Floriano Paixo, Adlio Martins Viana, Ary Alcntara, Osmar Grafulha e, no
Senado, do senador Daniel Krieger.
       O projeto 3291-F tornou-se a Lei n. 4.680, assinada no dia 18 de junho de
1965, nessa que se tornou a primeira regulamentao da atividade publicitria,
em nvel nacional. Momentos aps a aprovao do projeto, na Cmara dos
Deputados, Petrnio Corra afirmou para o Correio do Povo, sobre a importncia
deste fato:

                         A aprovao pela Cmara, com o reconhecimento da FEBRASP
                         como rgo de cpula da propaganda brasileira, representa uma
                         dupla conquista. No s demos hoje o primeiro passo para a
                         institucionalizao da propaganda, como tambm garantimos
                         aos rgos da classe existncia reconhecida e funo jurdica de
                         assessoramento dos poderes pblicos.  um grande passo, que
                         traz  classe publicitria brasileira, instrumento de trabalho para
                         sua definitiva integrao na realidade do nosso pas.

       Entre seus pontos importantes, vale destacar a definio formal sobre os
seguintes tpicos:
       publicitrio: so publicitrios aqueles que, em carter regular e
       permanente, exercem funes de natureza tcnica da especialidade, nas
       Agncias de Propaganda, nos Veculos de Divulgao, ou em quaisquer
       empresas nas quais se produza propaganda (Artigo 1, Cap. 1);
       propaganda: compreende-se por propaganda qualquer forma remunerada
       de difuso de idias, mercadorias ou servios, por parte de um anunciante
       identificado (Artigo 5, Cap.1);



                                                                                            109
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         agncias de propaganda: a Agncia de Propaganda  pessoa jurdica e
         especializada na arte e tcnica publicitrias que, atravs de especialistas,
         estuda, concebe, executa e distribui propaganda aos Veculos de
         Divulgao, por ordem e conta de Clientes Anunciantes, com o objetivo de
         promover a venda de produtos e servios, difundir idias ou instituies
         colocadas a servio desse mesmo pblico (Artigo 3, Cap. 1)
         veculos de divulgao: so veculos de divulgao, para os efeitos desta
         Lei, quaisquer meios de comunicao visual ou auditiva capazes de
         transmitir mensagens de propaganda ao pblico, desde que reconhecidos
         pelas entidades e rgos da classe, assim consideradas as associaes
         civis locais e regionais de propaganda, bem como os sindicatos de
         publicitrios (Artigo 4, Cap. 1).
         A lei tambm defendeu os profissionais de publicidade, restringindo o
exerccio da profisso publicitria a profissionais registrados nos servios de
identificao profissional do Departamento Nacional do Trabalho ou nas
Delegacias Regionais do Ministrio do Trabalho, como constam nos artigos 6 a
10, contando assim com a obrigatoriedade do registro da profisso de publicitrio.
         F Emma avalia a importncia desta lei para a atividade publicitria:

                         Quando voc tem uma regulamentao, voc faz com que toda a
                         parte jurdica de uma empresa, de uma agncia de publicidade,
                         tenha embasamento legal, porque voc legaliza assim uma
                         profisso. Voc tem que ter uma regulamentao publicitria,
                         como em todas as outras profisses, porque isso permite voc
                         adquirir credibilidade na hora em que voc for reclamar, por
                         exemplo, sobre o que voc tem a reclamar. A lei n. 4680 deu um
                         status legal para a profisso.

         Complementa Eloy Terra, que atuou em publicidade entre os anos de 1963
e 1987:

                         A lei organizou a atividade. Para se ter uma idia, antes de ser
                         lanada a lei, o Cdigo de tica, surgiu em So Paulo uma frase
                         onde a tica  o faturamento, que era o que norteava as
                         agncias. No havia um respeito pelo cliente alheio, ia-se l
                         simplesmente pegar, tirar funcionrios de uma agncia para a
                         outra, conseguir descontos em veculos de comunicao alm da
                         comisso e no transferir para o cliente, ou revender para
                         cliente. O mercado era uma terra de ningum e essa lei veio
                         botar ordem em muitas coisas.




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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       A aprovao causou manifestaes de contentamento e apoio de
publicitrios espalhados por todo o pas, que h vrios anos ansiavam pela
adoo do diploma no setor. Pelo fato de ter criado a lei em conjunto com Xavier,
Petrnio Corra ganhou o destaque de publicitrio do ano, prmio que ele
dedicou tambm a Roberto. Aps a aprovao pela Cmara, a FEBRASP
recebia, inclusive, atravs do deputado Ewaldo de Almeida Pinto, pedido da
Universidade de Braslia para realizar um assessoramento  legislao, buscando
criar uma escola de propaganda em nvel universitrio.


4. ROBERTO EDUARDO XAVIER E O TURISMO


       O ano de 1970 comeou para o turismo gacho com um fato que, segundo
Oswaldo Goidanich, no artigo "A saga do Turismo no Rio Grande do Sul", foi um
acontecimento que iria ter decisiva importncia para a maturidade do turismo rio-
grandense. O assunto em pauta era a concluso do relatrio realizado pela
Comisso Parlamentar Especial, aps trs anos de estudos e levantamento
sobre o turismo no Rio Grande do Sul. A Comisso era composta por Victor
Faccioni, como presidente; Osmany Veras, como vice-presidente; Pedro Simon,
como relator; alm dos deputados Alcides Costa, Aristides Bertuol, Fernando
Gonalves e Ruben Scheid. O jornalista Kleber Borges de Assis atuou como
assessor tcnico.
       Sessenta e um itens compunham o relatrio. Entre as questes
abordadas, estava a idia da criao de uma Secretaria de Estado para o
Turismo. Oswaldo Goidanich afirma a importncia da existncia da secretaria:

                         Tal como Joo Caruso, em 1959, conseguira de Leonel Brizola a
                         instalao do SETUR, desejava Faccioni que Euclides Triches
                         criasse a Secretaria de Turismo, um rgo de alto nvel que,
                         como Secretaria de Estado, pudesse sentar  mesa das altas
                         decises do Executivo e despachar diretamente com o
                         governador. Em suma, a maioridade do turismo entre as
                         preocupaes da administrao.

       Em 1970, Euclides Triches recebeu o convite para assumir o governo do
Estado no ano seguinte. Com a possibilidade de se tornar governador, acolheu a
proposta de Victor Faccioni em criar a Secretaria do Estado de Turismo. Triches
j tinha no seu currculo a presidncia do Conselho Estadual de Turismo, na

                                                                                            111
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administrao de Ildo Meneghetti. Uma das suas primeiras atitudes foi montar um
grupo de estudos para a elaborao das Diretrizes para a Ao do Governo do
Estado. O objetivo era setorizar a economia e a administrao do Estado,
partindo do que j havia, e atuando onde deveria ser modificado, ou acelerado.
No setor relativo  viabilidade do Rio Grande do Sul para o turismo, assumiram
os estudos Roberto Pacheco, que pouco depois se tornou secretrio da Indstria
e Comrcio, e Roberto Eduardo Xavier. Em conferncia proferida no ms de
agosto de 1974, para o I Ciclo de Estudos de Turismo e Comunicaes, Xavier
destacou a importncia deste momento para o turismo gacho:

                       Em 1970, quando se montou o atual Governo, houve
                       oportunidade de se procurar buscar um enfoque um pouco mais
                       tcnico. Ento, foi chamado um grupo de profissionais,
                       jornalistas, economistas, arquitetos, urbanistas, engenheiros,
                       que, de junho a dezembro de 1970, fizeram um estudo de
                       viabilidade turstica do Rio Grande do Sul. Encararam o estado
                       como uma regio a desenvolver, apontaram as necessidades
                       institucionais e organizacionais, fizeram um pr-programa
                       subdividido em 12 sub-itens, para a implantao de uma Poltica
                       de Turismo no Rio Grande do Sul. De 1970 a 1974, com as
                       correes devidas e necessrias, este programa vem sendo
                       cumprido.

       Quanto  viabilidade do turismo no estado, o relatrio destacou cinco
elementos: localizao, variedade paisagstica, diversidade climtica, acervo
tnico cultural, estruturao e calendrio de eventos. Quanto  localizao, foi
preciso reconceituar a Amrica do Sul: assumia-se a posio do estado como o
centro econmico geogrfico da regio. Com a construo das rodovias BR-116
e BR-101, durante a dcada de 1960, surgia uma, cada vez mais intensa,
integrao entre Brasil, Argentina e Uruguai. O Rio Grande do Sul se colocava
como intermedirio na rota entre Buenos Aires/Montevidu - So Paulo/Rio de
Janeiro, fator que poderia ser explorado para o turismo e demais reas.
       Quanto       variedade    paisagstica,   apenas     confirmou-se     a   sua
potencialidade, j que o estado possui litoral, serra, plancie, deserto, rocha e
outras variedades de paisagens. Sobre a diversidade climatolgica, o estudo
revelava que o Rio Grande do Sul possua quatro estaes bem definidas, o que
permitia dividir a promoo turstica em quatro safras: o vero era a praia; a safra
do inverno era montanha; a safra do outono para a cultura; e a safra de
primavera para os esportes.


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



       A partir dos estudos do acervo tnico-cultural, surgiu a base das
consideraes que, quatro anos depois gerariam o evento do Binio da
Colonizao e Imigrao. O relatrio revelava ainda que o estado fora formado
basicamente por trs correntes migratrias: a alem, a italiana e a portuguesa.
Destacava-se, ainda, a presena de ingleses, franceses, poloneses, rabes e
espanhis, com todas as suas potencialidades, como a culinria, o artesanato, a
arquitetura e tantos outros aspectos. A concluso foi de que o acervo tnico-
cultural poderia ser vivel para utilizao ao fomento da atividade turstica.
       Para fechar o estudo, analisou-se o calendrio anual de eventos no
estado,    contabilizando     211     eventos    que,    segundo      o   relatrio,   podem,
tranqilamente, ser elevados para 1000, pura e simplesmente, por pesquisa, sem
muita assessoria.        Xavier e Pacheco concluram, ento, que era vivel o
desenvolvimento turstico no estado; o que se precisava fazer era achar a
soluo para a viabilizao do turismo.
       O principal apontamento se referia ao SETUR [Servio Estadual de
Turismo]. Criado em 1959, para atender s demandas do turismo no estado, o
SETUR onze anos depois no atendia mais s necessidades que o turismo vinha
experimentando, em decorrncia do progresso da rea. Pouco depois, o rgo foi
extinto para, no dia 23 de julho de 1971, Euclides Triches assinar a Lei n. 6237,
aprovada pela Assemblia Legislativa, criando assim a Secretaria de Turismo do
Rio Grande do Sul.


A) Secretaria de Turismo


       Na mesma data em que a Secretaria foi criada, assinou-se a Lei 6.238,
que autorizava o Poder Executivo a constituir a Companhia Rio-grandense de
Turismo (CRTUR). Ao assinar o documento, Euclides Triches delineou a posio
do turismo em seu governo, atravs de um protocolo em que o turismo [surgia]
como uma nova estratgia do desenvolvimento global, considerando que os
efeitos que advm de sua caracterstica essencialmente dinmica proporcionam o
crescimento de mltiplos setores.
       A CRTUR assumia o papel de instrumento executivo da Secretaria. A lei
esclarece a sua funo:


                                                                                            113
HOHLFELDT, A. C.; VALLES, Rafael R.



                       A CRTUR desenvolver suas finalidades mediante a prestao
                       de servios especializados e a realizao de estudos, programas
                       e projetos que visem  concretizao de medidas de ordem
                       tcnica e administrativas tendentes a fomentar o turismo e as
                       atividades correlatas no territrio do Estado, bem como realizar
                       outros encargos e servios vinculados aos objetivos do turismo
                       ou deles decorrentes, cuja execuo interesse ao seu
                       desenvolvimento econmico.

        No dia 17 de maro de 1972, editava-se o Decreto 21.658, que criava a
Comisso Intersetorial de Turismo (CITUR).

                       A CITUR  o rgo de apoio e de assessoramento integrado e
                       de alto nvel, da qual participaro todas as Secretarias de Estado
                       como membros natos e outros rgos especializados em
                       diversos ramos de atividades, direta ou indiretamente ligadas ao
                       turismo, julgados necessrios. Assim, a CITUR ir incorporar-se
                       harmonicamente aos trabalhos e servios dos rgos aos quais
                       ficam afetos os assuntos de natureza turstica.

        Como primeiro Secretrio de Turismo do Estado, foi nomeado o
economista Edison Baptista Chaves que, no momento, estava como Supervisor
Geral    do   Plano   Regional    de   Turismo,     junto      Superintendncia      de
Desenvolvimento da Regio Sul (SUDESUL). Chaves veio a atuar ainda como
presidente da CITUR, tendo Luiz Emlio Corra Meyer como diretor do CRTUR.


B) O Secretrio de Turismo Roberto Eduardo Xavier


        Dia 20 de fevereiro de 1973, cinco e meia da tarde. O local: Salo Nobre
do Palcio Piratini. Roberto Eduardo Xavier, at ento Secretrio Estadual de
Indstria e Comrcio, era anunciado pelo governador Euclides Triches como o
novo Secretrio de Turismo do Estado. No seu discurso, Triches afirmou que o
secretrio de turismo anterior, Edson Baptista Chaves implantou uma
organizao verdadeiramente modular naquela pasta, desejando ao novo titular
que, na segunda metade do Governo, a conduza dentro dos grandes
planejamentos estabelecidos, fazendo com que a mesma (naquele que era o Ano
do Turismo) possa apresentar os resultados que todos ns desejamos.
        Roberto Eduardo Xavier fizera parte do governo antes mesmo de ter
assumido, ao ser convocado para integrar a equipe de estudos para a
implementao da Secretaria de Turismo. Anos antes, a convite do ento Prefeito

114
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



Loureiro da Silva, integrara o grupo de estudos que elaborou a lei determinando a
fundao do Conselho Municipal de Turismo (COMTUR), o qual foi conselheiro
de 1961 a 1965.
       Em 15 de maro de 1971, Xavier participou da equipe de Governo do
Estado a convite do economista Roberto Pires Pacheco, ento Secretrio da
Indstria e Comrcio e seu companheiro de planejamento para o turismo na
gesto de Triches, um ano antes. Em 1972 foi nomeado secretrio-geral do
CONDEC  Conselho de Desenvolvimento da Comercializao, funo que
acumulou com a de Diretor do Departamento Empresarial da Secretaria da
Indstria e Comrcio.
       Sobre a sua mudana de pasta, Xavier assim declarou ao jornalista
Mendes Ribeiro, logo aps assumir a Secretaria:

                         Sou um homem de equipe. S sei trabalhar em equipe. As
                         misses do governador, procuro cumpri-las. Nesse sentido, a
                         mudana foi to somente de campo de atuao: a situao
                         continua a mesma: "No podemos caminhar, temos que correr".

       A experincia de Xavier no turismo era mais recente. Em contrapartida,
sua atuao nos setores de relaes pblicas, publicidade e propaganda e
administrao j o firmavam como um profissional com condies suficientes
para liderar empreendimentos. Na mesma entrevista, Xavier esclareceu a sua
postura sobre o novo cargo:

                         Minha aproximao com o turismo  feita pelo ngulo econmico
                         e pelo ngulo promocional. No mundo inteiro, as experincias de
                         maior sucesso so conduzidas por tcnicos com vocao
                         promocional de vendas. Veja o caso do nosso folclore. Cabe, em
                         Porto Alegre, um CTG que se transforme em empresa. Temos
                         que ingressar na profissionalizao e, para isso, temos que
                         comercializar esta riqueza, usando as mesmas tcnicas
                         empregadas por outros povos.

       Uma das medidas que encarou como prioridade foi a definio do "produto
turstico". Em entrevista concedida ao jornal Dirio de Notcias, no dia 24 de
agosto de 1973, Roberto afirmou que o Rio Grande do Sul possua produtos
tursticos que resultam da conjugao de fatores que lhe so caractersticos:
paisagem, estrutura de gastos, acervo tnico, cultural, resduo histrico, etc.
Xavier explorou, ento, o estudo que fizera para a instalao da Secretaria de
Turismo, ao priorizar quatro pontos para a execuo de uma poltica de turismo


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no Rio Grande do Sul. Como primeiro desafio, foram identificados os sete roteiros
sub-regionais propcios ao turismo. Eram eles: Litoral; Uva e vinho; Serra; Zona
Sul; Fronteira; Misses e Estncias Hidrominerais.
       O segundo ponto era relativo s estaes do ano bem definidas, pelo que
estava montado o calendrio de eventos no estado, com 211 acontecimentos
tursticos industriais para 1973. O terceiro ponto se referia  variedade tnica e
cultural do Rio Grande do Sul, o que acarretava a comercializao dos seus
valores scio-culturais. O quarto ponto, Xavier via-o como um plus diferenciador,
a partir da afirmao da imagem cultural do gacho, sendo um fator de
identificao do estado no Brasil afora. Xavier ainda observava que estes quatro
pontos precisariam ser complementados atravs de uma infra-estrutura,
composta por estradas, saneamento, gua e urbanizao, amparados por uma
estrutura em constante modernizao, como era o caso dos transportes, da
hotelaria e dos restaurantes.
       Aps seis meses da posse de Xavier como secretrio, j estava ocorrendo
o Programa de Integrao Estado-Municpio (PIEM), com o objetivo de acionar,
motivar e estruturar os municpios com potencial turstico no Rio Grande do Sul.
Como primeira etapa, participavam do plano 81 municpios subdivididos em 11
comisses por regies: subcomisso zona sul; subcomisso serra; subcomisso
uva e vinho; subcomisso costa do sol; subcomisso misses; subcomisso
hidromineral; subcomisso Taquari/Jacu/Ca; subcomisso rea metropolitana;
subcomisso fronteira; subcomisso produo; subcomisso centro.
       Orientadas pelos rgos do sistema Estadual de Turismo (Secretaria de
turismo, CITUR, CRTUR), as comisses operavam integradas, em conjunto com
a EMBRATUR. Em entrevista coletiva no dia 27 de junho de 1973, Xavier
anunciava a organizao da segunda fase, com o primeiro cadastro sobre
informaes tursticas dos ento 232 municpios gachos. A partir das pesquisas
feitas pelos prprios municpios, em conjunto com as universidades de suas
respectivas regies, atravs do Questionrio de Qualificao de Eventos
Promocionais, seriam preenchidas fichas com um levantamento dos diferentes
recursos dos plos tursticos do estado. O programa seguiu at 1974, quando
199 dos 232 municpios gachos, o equivalente a mais de 85% do estado, j
haviam encaminhado  Secretaria o resultado das pesquisas, somando mais de
quatro milhes de dados, em reas que se estendiam  hotelaria, gastronomia e

116
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



demais setores ligados ao turismo. Como resultado dessas pesquisas, foi
editado, em 1974, pela Secretaria de Turismo, o Anurio Turstico do Rio Grande
do Sul, atividade at ento pioneira no pas. Afirmava Roberto:

                         O turismo  um produto que o municpio apresenta ao
                         consumidor. A venda de tal produto depende do seu contedo,
                         forma e embalagem. Impe-se para tal, a realizao de um
                         levantamento e anlise das atraes tursticas existentes nos
                         municpios (Folha da Tarde, 28/06/1973).

                         Concluindo este inventrio, o Sistema Estadual de Turismo ter
                         condies de fornecer qualquer tipo de informao turstica sobre
                         o estado, como o nmero e a categoria dos hotis existentes e
                         seus preos, localizao de restaurantes, etc. Num futuro muito
                         prximo, com a utilizao de computadores, a Secretaria de
                         Turismo poder fornecer, inclusive, informaes sobre ndices de
                         ocupao de hotis e mesmo providenciar reservas, quando
                         necessrio (Correio do Povo, 10/08/1973).

       Tambm como objetivo desta integrao surgia a criao de secretarias
municipais de turismo, visando estruturar o setor para ser integrado ao rgo
estadual. O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado brasileiro a realizar esta
iniciativa, fator que o credenciou para que Paulo Protsio, ento presidente da
EMBRATUR, solicitasse a Roberto Xavier a elaborao de um projeto para ser
aplicado em termos de Brasil.


C) Realizaes da Secretaria de Turismo entre 1973-1975


       Outro importante aspecto na gesto de Xavier foram as obras que
ocorreram neste perodo. Destacam-se as construes do Parque da Guarita, em
Torres; e do Parque do Caracol, em Canela.
       No dia 8 de abril de 1973, o governador Euclides Triches visitava a cidade
de Torres para oficializar o incio das obras. Numa primeira etapa, seriam
construdos um parque de estacionamento, restaurante e pavimentao dos
acessos ao parque. A segunda etapa previa a construo de um hotel
internacional, camping, miniautdromo, kartdromo, aqurio e centro hpico,
formando assim o Complexo Turstico da Guarita. Xavier tinha a inteno de
concretizar, at o final daquele ano, a primeira etapa da obra concluda. Para
isso, at dezembro, seria terminado o asfaltamento da estrada de acesso, cerca



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de 40% do parque de estacionamento previsto para 800 carros, e o
ajardinamento dos 27 hectares da rea, usando a flora local. Foram entregues ao
paisagista Burle Marx os estudos de um complexo maior, que abrangesse Torres
e Itapeva, com 1700 hectares. Mas, no ano de 1973, as obras contaram com um
grande imprevisto: a chuva, prevista para ocorrer ao longo de 125 dias no ano,
atingiu mais de 200 dias, causando a paralisao dos trabalhos. Somente no
incio de 1975 a primeira etapa do complexo conseguiu ser concluda, e foi
inaugurado em meio a vrias festividades. Era entregue ao pblico a parte de
arborizao do parque, com um trabalho coordenado pelo agrnomo e ecologista
Jos Lutzenberger, ento presidente da Associao Gacha de Proteo ao
Ambiente Natural (Agapan), e a parte viria composta pela estrada de acesso
asfaltada e o estacionamento junto ao local. Para a segunda etapa do projeto, em
que o parque seria composto por centros de lazer, optou-se por valorizar a
vegetao (...) no sentido de preservar a natureza ali existente, propiciando o
surgimento natural de novas espcies, segundo explica Arlene Aguirre, em texto
publicado pelo jornal Dirio do Sul (12/03/1987).
       Assume papel de destaque, tambm na gesto de Xavier, o parque da
Cascata do Caracol. Inaugurado em 1971, ainda sob o comando de Edison
Baptista Chaves, trs anos depois da sua desapropriao legal, o parque logo se
tornou uma referncia como um dos principais pontos tursticos do estado.
Restava a Xavier o incremento da infra-estrutura do parque. Ao longo dos anos
de 1973 a 1975, o Caracol obteve investimentos considerveis da Secretaria de
Turismo, responsveis por construir canchas de esportes, reformas nas
churrasqueiras e no restaurante, com destaque para a introduo do caf
colonial, estrada asfaltada de acesso entre Canela e o parque, alm da aquisio
de novos equipamentos e novos espaos, como o Parque do Lazer e o camping
do Caracol. Como resultado, o ltimo trimestre de 1974 registrava a visita de 55
mil turistas, nmero que, ao longo dos anos seguintes, no parou de aumentar.
       A construo de campings tambm assumiu papel de destaque ao longo
da primeira metade da dcada de 1970. Campings como o do parque Caracol,
em Canela; do Guaruj, em Porto Alegre, alm dos campings de So Loureno,
em So Loureno do Sul; Marechal Osrio, em Tramanda; e So Francisco de
Paula, na cidade que leva o mesmo nome, propiciavam ao turismo gacho maior
diversidade de insero turstica. A principal obra neste setor foi o Camping

118
Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



Internacional de So Loureno, inaugurado em fevereiro de 1975. Tambm
conhecido com Camping Internacional da Lagoa dos Patos por estar s margens
da lagoa, o local contava com luz eltrica, abastecimento de gua potvel, rede
de esgotos, churrasqueiras, sanitrios e um amplo espao para acampamento,
totalizando    cinco    hectares.    Tornou-se      o   primeiro     camping     com     status
internacional no estado. A Secretaria de Turismo apostava neste investimento,
tendo conscincia de sua expanso, como alternativa perante o turismo
convencional. Pesquisas mostravam que 20 milhes de campistas eram filiados a
entidades do ramo. Existiam, ainda, no Rio Grande do Sul, os campings
projetados, que futuramente iniciariam suas obras, nas cidades de Ira, Caxias do
Sul, Cambar do Sul, Torres, Tramanda, Cidreira, Camaqu, Caapava do Sul,
Pelotas e Rio Grande.
       Merecem considerao a construo de belvederes, como os da Serra do
Umbu e o da Travessia da Sonda, em Flores da Cunha; o paradouro de Morro
Reuter; os terminais tursticos de Tramanda e Cidreira; alm dos parques Itapo,
Parque dos Aparados da Serra e o Parque Histrico Bento Gonalves.
       Para a movimentao do turismo enquanto atividade scio/econmica,
surgem os calendrios tursticos, aspecto que a Secretaria de Turismo
considerava fundamental para o estado se tornar um centro receptor de turismo.
No somente atravs do Plano de Integrao Turstico Estado-Municpio, como
pelo incentivo a programaes nas mais diversas cidades gachas, e eventos
que j existiam anteriormente  gesto de Xavier. O calendrio turstico do Rio
Grande do Sul constituiu-se como uma das principais afirmaes do turismo
gacho. Como eventos regulares, merecem destaque o Rodeio Crioulo
Internacional de Vacaria, que rene visitantes de toda a Amrica; a Exposio
Internacional de Animais (EXPOINTER) em Esteio; a Feira de Artes Plsticas e
Arte Sacra em Rio Pardo; a Festa das Hortnsias e o Festival de Cinema de
Gramado, ambos em Gramado, entre outras atividades.
       Foi na gesto de Xavier, na Secretaria de Turismo, que ocorreu o Binio
da Colonizao e da Imigrao, a partir das comemoraes do Sesquicentenrio
da Imigrao e Colonizao Alem em So Leopoldo, no ano de 1974, e do
Centenrio da Imigrao Italiana, em Nova Milano, no ano de 1975, alm de
outras atividades relacionadas  formao cultural do Rio Grande do Sul (ver



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mais detalhes no captulo sobre Oswaldo Goidanich e o turismo), neste que foi
um dos eventos mais marcantes da histria do turismo e da cultura gacha.
       Eventos bem consolidados no calendrio gacho, e que atraem ateno
nacional e internacional, como a Festa da Uva em Caxias do Sul; e a Feira
Nacional do Calado em Novo Hamburgo, tiveram sua estrutura transformada
para melhor atender s exigncias que, ao longo das ltimas edies,
necessitavam. No caso do evento caxiense, foi criada, em 1974, a Festa da Uva
 Turismo e Empreendimentos Sociedade Annima, empresa que conta com
capitais do municpio de Caxias do Sul, do Estado, atravs da Companhia Rio-
grandense de Turismo (CRTUR), e do Governo Federal, pela Empresa Brasileira
de Turismo (EMBRATUR). Ao substituir a antiga Comisso da Festa da Uva, que
organizava o evento desde 1931, a Festa da Uva S.A. arrecadou verbas para a
construo dos Pavilhes da Festa da Uva, construindo, assim, um parque com
34 mil metros quadrados, composto por dois grandes pavilhes interligados por
um menor, onde ficam os estandes de feiras e de exposies. Em fevereiro de
1974, o Governo Federal, atravs da EMBRATUR, confirmava a compra de
aes das duas empresas criadas, alcanando uma nova etapa na realizao
dos eventos de carter regional.
       Assim como o mercado interno exigiu medidas de incentivo para atrair
mais turistas vindos do prprio Rio Grande do Sul, era preciso formar a
conscincia das potencialidades tursticas do estado para atrair turistas de fora
do Rio Grande do Sul. Como metas para o mercado externo, Roberto j tinha o
centro do pas e as capitais platinas como prioridade. Ele afirma:

                       Tanto no sentido norte-sul quanto no inverso, somos mercado
                       direto e mercado de trnsito, para as correntes que tm o Rio
                       Grande do Sul como etapa final ou para as que nos tocam em
                       trnsito. Como somos servidos pelas duas nicas rodovias de
                       integrao continental (BR-116 e BR-101), no tenho medo de
                       dizer que estamos na encruzilhada do desenvolvimento turstico
                       da Amrica do Sul.

       Xavier se referia a dois macroplos: a SAMIBARA, sigla que sintetiza a
regio composta por So Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Guanabara e o
MAIRES, constitudo por Montevidu e Grande Buenos Aires, como o mercado a
ser alcanado. A primeira regio, at ento, estava composta por 40 milhes de
habitantes, dos quais 29 milhes na rea urbana, representando 42,67% do total


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



da populao do pas. Alm disso, era responsvel por 70% da renda industrial
brasileira, contando ainda com mais de 80% dos incentivos aplicados no Brasil,
na poca. O segundo macroplo era composto, em 1970, por 13 milhes de
habitantes, e, segundo o Estudo Econmico da Amrica Latina, o produto por
habitante atingia 980 dlares em Buenos Aires e 720 dlares em Montevidu,
representando uma mdia de 850 dlares. Trs mil quilmetros compunham as
duas regies, sendo interligadas pela BR-116 e BR-101, e tendo Porto Alegre
como sua intermediria, localizada no Centro Geo-Econmico da Amrica do Sul.
       Baseada nestes estudos, a Secretaria de Turismo comeou a realizar
projetos que divulgassem o potencial turstico do estado. Foi criado o Centro de
Informaes Tursticas (CENINTUR) do Rio Grande do Sul nas cidades de So
Paulo, Rio de Janeiro e Montevidu. O CENINTUR ficou responsvel pela
superviso e aplicao do convnio assinado com o Banco do Estado do Rio
Grande do Sul (Banrisul), para a comercializao dos roteiros do estado no pas,
alm de coordenar as atividades de atrao de investimentos, promoo,
informao, pesquisa e relaes pblicas na rea de So Paulo, Minas Gerais,
Guanabara e Rio de Janeiro. Deveria, tambm, colocar  disposio do turista as
potencialidades que as oito regies tursticas do estado possuam, em termos de
roteiros de viagens, hotelaria, compras e outros aspectos. O CENINTUR foi
instalado no Aeroporto Salgado Filho, na capital gacha, em solenidade realizada
em fevereiro de 1975, quando Xavier afirmou que o estado possua a maior rede
de centros de informaes tursticas do pas.
       O ano de 1973 ainda trouxe destaque internacional para o Rio Grande do
Sul, a partir da participao do Estado na II Feria de las Naciones, em
Montevidu. Evento realizado anualmente, sempre na primeira quinzena de
dezembro, e que recebe uma visitao mdia de 150 mil pessoas, a Feria de las
Naciones, conhecida no Brasil como Feira das Naes, congrega os pases sul-
americanos para exporem seus produtos tpicos, ligados  indstria, artesanato e
folclore. Nesta segunda edio, o Rio Grande do Sul representou o Brasil, aps a
confirmao do apoio pelo Itamarati. O Estado ganhava, assim, a oportunidade
de divulgar a sua cultura e, conseqentemente, as suas virtudes tursticas. Ao
final das duas semanas de atividades, a participao gacha recebeu elogios por
parte do embaixador brasileiro no Uruguai, Arnaldo Vasconcelos, ao afirmar que
o xito da participao do Brasil no Festival de las Naciones, recentemente

                                                                                            121
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realizado em Montevidu, muito se deveu  importante contribuio do Estado do
Rio Grande do Sul. Complementou ainda o embaixador:

                       Graas  ao da Secretaria de Turismo, foi possvel coordenar
                       e encaminhar a Montevidu numerosas e importantes doaes
                       feitas por empresrios rio-grandinos [sic], doaes essas que
                       muito representaram para a coleta de fundos destinados a obras
                       de benemerncia deste pas e ofereceram uma imagem da
                       qualidade e da amplitude da produo brasileira.

       Como reconhecimento  poltica externa adotada pela Secretaria de
Turismo, Xavier recebeu, em fevereiro de 1974, anncio do ingresso da
Secretaria de Turismo na Unio Internacional de Organismos Oficiais de Turismo
(UIOOT). A entidade, com sede localizada em Genebra, na Sua, ao realizar a
sua vigsima quarta assemblia geral, tomou essa deciso partindo do apoio de
Paulo Manoel Protsio, presidente da EMBRATUR e vice-presidente da UIOOT.
Roberto Lonati, secretrio geral da UIOOT, enviou a Xavier o seguinte
comunicado: ao felicitar por este passo, quero assegurar-lhe minha cooperao
no desejo de estabelecer as melhores relaes entre a Secretaria de Turismo do
Rio Grande do Sul e a UIOOT, com a finalidade de alcanar um desenvolvimento
harmonioso do turismo mundial.


D) A gesto de Xavier no contexto turstico do Estado


       Roberto Eduardo Xavier realizou, no dia 16 de agosto de 1974, a
conferncia de encerramento do I Ciclo de Estudos de Turismo e Comunicaes,
representando a Secretaria de Turismo, na qual analisou a evoluo do turismo
local. Segundo Xavier, o turismo no Rio Grande do Sul se divide em quatro fases:
at 1950; de 1950 a 1970; de 1970 a 1974 e uma quarta fase, a partir de 1974. O
turismo, at 1950, contava com iniciativas isoladas, como a primeira publicao
de um artigo sobre o assunto, em 1917, pelo Correio do Povo e a criao do
primeiro organismo do setor, o Touring Club, em 1936. A fase que compreende
1950 a 1970 Xavier identifica como uma fase marcada por uma extraordinria
boa vontade, mas sem know how ou recursos financeiros. Ele complementa:

                       Surgiram, nesta fase, contudo, muitas coisas boas, muitas idias
                       que hoje esto frutificando. Por exemplo, a primeira idia de
                       turismo social no pas, que se deve a um homem extraordinrio

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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier


                         chamado Oswaldo Goidanich, de quem eu recebi, vinte anos
                         depois, praticamente pronto, para que pudssemos implantar, o
                         projeto dos terminais tursticos.

       Os anos de 1970 a 1974, com a implementao da Secretaria de Turismo,
marcaram profundamente o setor ao conseguir atingir o status de secretaria. Ao
criar um programa de ao, em conjunto com outros rgos de turismo, a
atividade comea a alcanar sua profissionalizao. Para isso, Xavier aponta trs
aspectos no seu progresso:
   1. reconhecimento do turismo como causa e efeito do desenvolvimento
       social, econmico e cultural de um povo. O poder pblico reconheceu a
       necessidade de dar ao turismo uma posio de importncia dentro de seu
       contexto de desenvolvimento, e criou o Sistema Estadual de Turismo, a
       Secretaria e a Companhia;
   2. houve ingresso de know how, um aporte de conhecimento para o setor,
       tanto a nvel de poder pblico, quanto a nvel de iniciativa privada;
   3. atravs de planejamento teve incio um processo de racionalizao de
       atividades; estabeleceu-se o que  coordenao, o que  promoo, o que
        assistncia tcnica ao municpio, o que  responsabilidade do Estado ou
       da iniciativa privada, at onde vai o Estado, onde deve comear a iniciativa
       privada.
       Decididamente interligado a outros setores, o turismo se tornou um setor
de destaque no desenvolvimento estadual.  o caso, por exemplo, das agncias
de viagens. A partir da ampliao de roteiros tursticos no estado, possibilitando
assim a compra de pacotes tursticos, houve um aumento de 30% a 40% no
movimento das agncias de turismo, entre os anos de 1972 a 1974, superior aos
15% da mdia mundial, no mesmo perodo. O nmero de agncias aumentou de
53, em 1971, para 74, em 1974, de acordo com a EMBRATUR. Ramos como o
de hotelaria foram acrescidos de investimentos, a partir de construes e
ampliaes dos hotis espalhados pelo estado. At metade de 1973, 14 hotis
estavam sendo construdos, dois estavam em ampliao, sete tiveram consulta
de viabilidade aprovada e trs hotis foram inaugurados, entre eles o Plaza So
Rafael, em Porto Alegre.
       Enquanto integrante do processo de desenvolvimento regional, o turismo
realizou projetos com as demais secretarias, como  o caso da Secretaria dos


                                                                                            123
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Transportes. A partir da construo de rodovias e estradas como a
Capivari/Cidreira e Capivari/Pinhal, no litoral gacho, o turismo adquiriu maior
capacidade de aproveitamento no estado, como, por exemplo, o balnerio de Ira
que, ao ter sua estrada de acesso asfaltada pelo Departamento Autnomo de
Estradas de Rodagem (DAER), possibilitou o acesso de turistas ao local. O jornal
Zero Hora ressaltou essa aproximao entre as Secretarias de Turismo e
Transportes, a partir da construo da estrada Canela-Parque do Caracol:

                       Para o secretrio Xavier, um dos fatores essenciais para que o
                       setor turstico do Rio Grande do Sul seja bem aproveitado  o
                       entrosamento existente entre sua secretaria e a secretaria dos
                       transportes. O turismo exige obras de infra-estrutura para que
                       possa ser explorado devidamente, e isso, segundo o secretrio,
                       est sempre presente quando a secretaria dos transportes
                       planeja alguma estrada (Zero Hora, 1 jan. 1974).

       Outro aspecto de ligao entre as duas secretarias foi a criao da Carta
Rodoviria do Estado, em 1974. Elaborada pelo Departamento de Cartografia do
Touring Club do Brasil, editada e distribuda pela Secretaria de Turismo do Rio
Grande do Sul, o guia trouxe informaes completas sobre as rodovias do
estado, complementando assim os roteiros tursticos, a partir das obras
realizadas pela Secretaria dos Transportes.
       O meio ambiente tambm virou pauta da Secretaria de Turismo e da
Secretaria da Agricultura, ao se lanar a Campanha de Arborizao do Litoral.
Com o objetivo de incentivar o plantio de rvores em toda a costa gacha, no s
como forma de evitar a desertificao de vastas reas, como aproveitar o uso da
paisagem, a campanha foi dividida em trs fases, sendo responsvel pelo plantio
de mais de 300 mil novas rvores.
       A segunda edio da FENASOJA fez um misto de atraes tursticas,
como a Cascata do Rio Santa Rosa e as apresentaes de corais e grupos
folclricos, com os eventos agrcolas, j que paralelamente foram realizadas a
Feira Nacional de Mquinas Agrcolas, a Feira Estadual de Gado Leiteiro, a
Exposio Regional de Indstria e Comrcio e a 13 Exposio Nacional de
Sunos.
       No perodo 1970-1975 surgiu a preocupao crescente com a mo-de-
obra especializada para atuar no comrcio. Com o turismo cada vez mais
reconhecido como um setor integrante do desenvolvimento socioeconmico


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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



regional e nacional, iniciou-se a execuo de projetos com o objetivo de qualificar
o profissional do setor, dentre os quais, a preparao de mo-de-obra
especializada para atuar no comrcio (1970-1975). Em 1973 a Secretaria assinou
um convnio com o Departamento Nacional de Mo-de-Obra do Ministrio do
Trabalho (DNMO) e Governo do Estado, atravs da prpria Secretaria de Turismo
e do Servio Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), para a formao de
empregados para a indstria hoteleira, ao mesmo tempo em que surgiam cursos
para garons, cozinheiros, atendentes de hotel e servios afins. Criou-se tambm
o curso de planejamento turstico, atravs de um acordo entre a Secretaria de
Turismo e o Servio Federal de Habitao e Urbanismo (SERFHAU), com
enfoque em dimenso socioeconmico-cultural do planejamento turstico. Com
grande apoio de infra-estrutura por parte da Secretaria, ao longo dos seus
primeiros anos foi fundada a Faculdade de Turismo da Pontifcia Universidade
Catlica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em 1972, tornando-se o terceiro curso
mais antigo do pas e o primeiro do Rio Grande do Sul.
       Com estas e tantas outras realizaes, Roberto Eduardo Xavier deixou a
Secretaria de Turismo em 1975. Suzana Gastal, profissional no setor de turismo e
integrante desta mesma gesto na Secretaria, avalia a importncia de Xavier
para o turismo gacho:

                         A gesto do Xavier foi muito importante porque se estabeleceu
                         uma filosofia de trabalho, e acredito que se fosse retomar muitos
                         dos projetos que ele tinha, daria para pegar e execut-los, at
                         porque muitas coisas no foram executadas como, por exemplo,
                         a poltica de campings, que poderiam ser retomados e que
                         estava l no incio, com o Xavier. As festas regionais tambm
                         trouxeram a especificidade de cada municpio, comeando assim
                         a se constituir como um produto e buscando o seu espao, fator
                         este que foi o Xavier que trouxe.


5. ROBERTO EDUARDO XAVIER E O MEIO AMBIENTE


       Falar sobre a atuao de Xavier, em relao ao meio ambiente, exigiria
conhecimentos mais profundos a respeito da sua gesto na Secretaria Municipal
do Meio Ambiente, para ser possvel trazer a dimenso da sua importncia nesta
rea. Como este trabalho se limita  abordagem dos campos da comunicao
(turismo, jornalismo, publicidade e relaes pblicas), caber a outros estudos


                                                                                            125
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promoverem pesquisa e anlise mais aprofundada sobre a primeira gesto, em
carter pblico, do meio ambiente no pas, proeza ocorrida graas a Roberto
Eduardo Xavier. No entanto, dissertar sobre este tema, por mais sucinto que
possa ser,  imprescindvel para o entendimento desta personalidade e da sua
importncia na vida pblica.


A) Xavier e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente


       O ano de 1977 marcou a criao da primeira secretaria do meio ambiente,
seja a nvel municipal, estadual ou federal, atravs do comando de Roberto
Eduardo Xavier. Mas o seu interesse pelo tema j vinha desde muitos anos antes
deste marco, como afirma F Emma:

                       Eu me sinto um pouco madrinha dessa histria, porque, quando
                       ns compramos a casa, ns samos de um apartamento, e o
                       Roberto era uma pessoa urbana, de apartamento, e se voc
                       perguntava o que era rosa e crisntemo, ele no sabia o que era
                       uma e a outra. Quando a gente veio morar aqui, no existia
                       nada, era s a casa e o terreno baldio. A, eu disse para ele que
                       deveramos comprar umas rvores para ter sombra. A  que ele
                       ficou sabendo que existiam rvores chamadas jacarand,
                       pereira, macieira, laranjeira. Com o tempo, ele comeou a
                       arranjar parreira e comeou a ver como era bacana ter pssaros
                       cantando, ter flores, e coisas assim. Ento, a gente caminhava e
                       olhava as praas, e ele comeou a perceber certos descuidos
                       nas praas. Em 1972, com a criao da ECO, considerado o
                       incio da questo ambiental no mundo, ele disse olha, tem uma
                       ministra que pensa como tu, que a cidade tem que ter verde. A
                       partir de ento, ele comeou a se voltar para esta questo, a ver
                       a importncia do meio ambiente e da sua preservao.

       Com a nomeao de Guilherme Socias Villela para a prefeitura de Porto
Alegre, a partir de abril de 1975, o ento prefeito da capital gacha mostrou a
Xavier o desejo de causar um impacto na sua administrao. Roberto props
ento a criao de uma secretaria do meio ambiente, para surpresa de Villela.
Com Xavier esclarecendo sobre a importncia das praas, da questo ambiental
e a importncia das crianas freqentarem as praas, saindo assim dos seus
apartamentos, o prefeito resolveu encampar a proposta, com Xavier no somente
assumindo o cargo de secretrio, como tambm sendo o autor da Lei do Meio
Ambiente (LC 65/79), a partir da criao do Licenciamento de Atividades
Potencialmente Poluidoras. Sobre esta lei comenta Paulo Fernando Teixeira, que

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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



foi supervisor da Secretaria do Meio Ambiente (SMAM) na gesto de Xavier, e
que atualmente  assessor ambiental da Organizao Mundial da Sade em
Washington:

                         Como faltavam leis e critrios ambientais, Xavier criou um
                         Sistema de Licenciamento de Atividades Potencialmente
                         Poluidoras e uma bem-elaborada Lei do Meio Ambiente (LC
                         65/79), que posteriormente acabou inspirando a criao do
                         Sistema Nacional do Meio Ambiente. Nem os Estados Unidos
                         possuem hoje em dia legislao similar (Zero Hora, 05/07/1997).

       F Emma relembra a repercusso da lei ambiental:

                         Quando se criou a Secretaria com a lei, ela foi to impactante,
                         que todos os municpios comearam a se voltar para esta
                         questo ambiental. Como resultado, se projeta o Rio Guaba, sua
                         despoluio, a questo do esgoto, e isso comeou a repercutir,
                         por exemplo, em Gramado e Canela, que possuam uma fbrica
                         de celulose, que deixava um mau cheiro horrvel. Nesta questo,
                         entraram inclusive a Riocell, a Souza Cruz, todas as grandes
                         indstrias se voltaram para essa questo, porque era algo
                         politicamente correto e trazia dividendos.

       Para divulgar a causa do meio ambiente e criar a conscincia da
sociedade sobre o tema, Roberto criou campanhas como Abra uma conta no
banco da vida: Plante uma rvore. Nesta campanha, a Secretaria distribua
mudas de rvores para serem plantadas pelo povo, mas, alm disso, tambm
conscientizava sobre a importncia e as particularidades de se plantar uma
rvore, como  o caso da melhor poca de plantio, assim como popularizava o
Cdigo Florestal Brasileiro, expondo as penas para quem realizasse o
desmatamento. Fernando Teixeira destaca que Xavier fez da "rvore" o cone do
ambientalismo, ao criar, em parceria com a sociedade civil, e com Norma
Medeiros, uma exemplar mobilizao social em torno das crianas como agentes
de proteo ambiental: a Patrulha do Verde. Essa e outras campanhas trazem o
background de quem j havia atuado nas reas de publicidade e relaes
pblicas, como relembra F Emma:

                         O Roberto tinha o apoio de todos os meios de comunicao.
                         Essa  que  a verdade, porque traria um bem para cidade, no
                         s sob o ponto de vista visual, mas tambm sob o ponto de vista
                         cultural. Ento, o Roberto utilizou tudo aquilo que ele sabia sobre
                         publicidade e relaes pblicas, em todas as campanhas que
                         pudesse colocar a questo ambiental, associando o meio
                         ambiente com a publicidade, por exemplo. Os meios de


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                       comunicao foram importantes, porque abriram as suas pginas
                       para tudo o que o Roberto queria.

       Uma das principais realizaes da gesto de Xavier foi a criao do
Parque Marinha do Brasil, s margens do lago Guaba, ainda hoje uma das
grandes referncias para lazer e recreao na cidade. A gesto de Xavier, na
Secretaria Municipal do Meio Ambiente, vai ficar marcada na histria, no
somente por ser pioneira nesta rea no pas, como pela elaborao da Lei do
Meio Ambiente. Sua importncia foi comprovada atravs da 20 Semana do Meio
Ambiente de Porto Alegre, a partir do evento Pioneiros da ecologia de Porto
Alegre, realizado no Pao Municipal no dia 7 de abril de 2004. O evento
homenageou personalidades fundamentais para a formao e a conscientizao
sobre o meio ambiente no Rio Grande do Sul, tendo Roberto Eduardo Xavier
papel de destaque nesta histria. Contando com a presena do ento prefeito de
Porto Alegre, Joo Verle, o evento teve ainda a presena da Ministra do Meio
Ambiente, Marina Silva que, no seu depoimento, destacou a importncia da Lei
do Meio Ambiente, que posteriormente acabou inspirando a criao do Sistema
Nacional do Meio Ambiente. Sobre a importncia de Xavier para o meio
ambiente, afirma Paulo Fernando Teixeira:

                       Xavier fez as coisas certas. Criou do nada uma instituio para
                       tratar das questes ambientais em uma cidade j ento cheia de
                       problemas pelo desassossego da vida urbana, resultado de um
                       crescimento desordenado e amontoado. Criou e fortaleceu a
                       SMAM, e dedicou ateno e recursos para a capacitao de
                       seus tcnicos. Criou uma poltica de relaes com a
                       comunidade, de forma que toda a pessoa fosse dedicada a essa
                       questo. Os tcnicos incorporavam, em suas atividades, proferir
                       palestras em universidades, escolas, associaes de bairro e
                       indstrias. Era preciso, urgentemente, "conscientizar", e todos
                       queriam saber sobre a tal de "ecologia" (Zero Hora, 05/06/1997).




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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



                                         REFERNCIAS


- Livros consultados

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GALVANI, Walter. Um sculo de poder: os bastidores da Caldas Jnior.
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RODRIGUES, Andr Iribure. A estrutura inicial da MPM Propaganda.
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Dois pioneiros da comunicao no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich, Roberto Eduardo Xavier



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Zero Hora. Porto Alegre, 01/01/1974.

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